“O hábito de achar sempre uma única razão para tudo empobrece o futebol brasileiro.”

Tostão (Jornal O Tempo)

Sei que muitos torcedores e jornalistas esportivos não se preocupam com os detalhes táticos. Não gostam e/ou acham que isso é assunto para os treinadores. Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e outros grandes e atuais colunistas não estão muito aí para a estratégia dos técnicos. São ótimos observadores, porém, de outros detalhes. Enxergam com a imaginação de um escritor. Enriquecem a crônica esportiva.

Tento ter os dois olhares, mas não consigo, do jeito que gostaria. Os dois olhares se confundem. Um quer ser mais importante que o outro.

É frequente, no futebol brasileiro, jogadores e técnico de um time terem o mesmo empresário. Dizer que isso não pode gerar conflitos de interesse é desconhecer a ambição humana. Para evitar suspeitas, como a do goleiro Cássio, que tem o mesmo agente de Mano Menezes, todo treinador que assumisse a seleção deveria firmar um compromisso público de não ter empresário nesse período. Cássio não é hoje o melhor goleiro brasileiro, mas é o que tem mais chance de evoluir até a Copa. Eu também o chamaria.

Há dezenas de fatores citados para explicar a diminuição de público nos estádios. Falam pouco do mais óbvio, da queda de qualidade técnica. Escrevi, na coluna anterior, que Barbio não tem condições técnicas para jogar no Vasco. Há vários outros, espalhados em grandes clubes, na mesma situação. Poderiam reforçar o América, na Segunda Divisão. Os clubes gastam fortunas para contratar jogadores famosos, geralmente meias e atacantes – alguns continuam muito bem -, e se esquecem de formar bons elencos. Há muitos defensores fraquíssimos.

Se o São Paulo tiver Luis Fabiano, Lucas e Jadson na maioria das partidas, tem tudo para conseguir vaga na Libertadores, mesmo com dois laterais que não sabem marcar. Não entendo a tentativa do clube de contratar Ganso por muito dinheiro. Jadson sempre foi excelente e joga na mesma posição.

Atlético, Fluminense e Grêmio, os três primeiros colocados, além do Corinthians, têm procurado diminuir os espaços entre os setores. Isso é um avanço. Na Europa, a distância entre o jogador mais recuado e o mais adiantado costuma ser menor do que 40 metros, menos da metade do tamanho de um campo. No Brasil, o mais comum é o meio-campo avançar e os zagueiros ficarem lá atrás, como ocorre no Santos.

Se fosse treinador, veria os jogos lá de cima, como faz Paulo César Carpegiani, no Vitória, time com a melhor campanha da história, até o momento, da Série B, na era dos pontos corridos. Mas, se perder dois jogos, vão dizer que faltaram os gritos do técnico na lateral do campo, independentemente de dezenas de outros fatores. O hábito de achar sempre uma única razão para tudo empobrece o futebol.

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GALO E RAPOSA

Hoje, por jogar fora e contra o Corinthians, não há favorito. Se o Atlético perder, ainda mais jogando bem, não há nenhuma razão para o torcedor e a imprensa acharem que o time caiu de produção. No empate contra a Ponte Preta, o Atlético não jogou pior que nos outros jogos. O time também venceu partidas no fim. A equipe do Galo é boa, mas não é nenhuma maravilha nem muito superior a todas as outras. Todos os jogos são difíceis.

O Cruzeiro, mesmo não agradando, está em sexto lugar, uma ótima colocação, melhor que se esperava. Dizer que o problema do time é Celso Roth é uma tremenda injustiça. O estilo do Cruzeiro, de muita marcação, correria e contra-ataques, funciona muito melhor fora de casa. No Independência, o time tem que ter mais calma, menos pressa para chegar ao gol.

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