EUA constrói exércitos para vê-los fracassar

Andrew J. Bacevich
Do site TomDispatch

Primeiro foi Fallujah, depois Mosul, e adiante, Ramadi no Iraque. Agora, aí está Kunduz, capital provincial no norte do Afeganistão. Em todos esses locais, viu-se encenada a mesma história: em cidades que a mídia-empresa gosta de chamar de “estrategicamente importantes”, forças de segurança treinadas e equipadas por militares norte-americanos a custo altíssimo, simplesmente fugiram, abandonando suas posições (e boa parte das armas que os EUA lhe forneceram), sem sequer oferecer resistência considerável. Convocados à luta, fugiram. Em cada caso, as forças de defesa cederam ante inimigo em muito menor número, o que torna o resultado ainda mais vergonhoso.

Somados, esses revezes são o veredicto vivo dessa hoje praticamente já sem nome “Guerra Global ao Terrorismo”. Guerras-relâmpago sucessivas comandadas pelo ISIL/ISIS/Daesch/Estado Islâmico e pelos Talibãs, respectivamente, fizeram muito mais do que simplesmente penetrar defesas iraquianas e afegãs. Elas também abriram buracos na estratégia que os EUA abraçaram, na esperança de controlar a crescente erosão de sua posição do Oriente Médio Expandido.

Recordemos que, quanto os EUA lançaram sua Guerra Global ao Terrorismo logo depois do 11 de setembro, o lançamento acompanhava uma agenda grandiosa. As forças norte-americanas imporiam dali em diante, a todos, um conjunto específico e exaltado de valores. Durante o primeiro mandato do presidente George W. Bush, sua “agenda liberdade” constituía o alicerce ou, no mínimo, a justificativa, da política norte-americana.

O tiroteio só pararia, Bush jurava, quando países como o Afeganistão tivessem aprendido a não dar abrigo a terroristas anti-EUA, e países como o Iraque tivessem parado de encorajá-los.

IMPOR A DEMOCRACIA

Alcançar esse objetivo significava que os habitantes desses países teriam de mudar. Afegãos e iraquianos, seguidos na devida ordem dos fatos por líbios, sírios, iranianos e incontáveis outros povos abraçariam a democracia, todos os direitos humanos e o estado de direito, ou seriam dinamitados. Pela ação concertada do poder dos EUA, todos esses países seriam tornados outros – mais assemelhados aos EUA e mais inclinados a concordar conosco. Cada vez menos Meca e Medina, cada vez mais “nós defendemos essas verdades” e “do povo, pelo povo”.

Nisso Bush e outros do seu círculo mais íntimo juravam crer. No mínimo, alguns deles, provavelmente até o próprio Bush, talvez realmente cressem.

A história, pelo menos os fragmentos e pedaços que os norte-americanos viram acontecer, parecia confirmar tais expectativas, com um mínimo de plausibilidade. Semelhante transferência de valores já não acontecera, sem tirar nem pôr, depois da 2ª Guerra Mundial, quando as derrotadas Potências do Eixo tão rapidamente se atiraram ao colo do lado vencedor? Já não acontecera também nos estertores da Guerra Fria, quando comunistas comprometidos sucumbiam à sedução do consumismo e da distribuição trimestral de lucros?

SEDUÇÃO E COERÇÃO

Se o mix apropriado de sedução e coerção lhes fosse servido, afegãos e iraquianos, eles também, com certeza seguiriam o mesmo caminho que antes bons alemães e lépidos japoneses seguiram e que, depois, também tchecos cansados de repressão e chineses cansados de só desejar também seguiram. Uma vez libertados, afegãos e iraquianos gratos se alinhariam também a uma concepção de modernidade da qual os EUA haviam sido pioneiros e hoje exemplificam.

Para que essa transformação acontecesse, contudo, os restos acumulados de convenções sociais e arranjos políticos que tanto haviam retardado o progresso teriam de ser varridos para bem longe. Esse era o objetivo que as invasões do Afeganistão (Operação Liberdade Duradoura!) e do Iraque (Operação Liberdade Iraquiana!) foram concebidas para atingir num só golpe como o mundo jamais antes vira (bastaria ouvir o que Washington dizia). Power of War, POW, Poder da Guerra! Eles se erguem, nós nos retiramos

Escondidas por trás da tal tão citada “liberdade” – a justificativa com 1001 utilidades para o deslocamento do poder bélico dos EUA – havia muitas nuances de significado. O termo, na verdade, tem de ser decodificado. Mesmo assim, dentro dos estratos superiores do aparelho de segurança nacional dos EUA, uma definição assume precedência sobre todas as demais. Em Washington, “liberdade” passou a ser eufemismo para “dominação”. Disseminar a liberdade significa posicionar os EUA para comandar e decidir.

PREDOMINÂNCIA DOS EUA

Vistas nesse contexto, as vitórias esperadas no Afeganistão e no Iraque visavam a afirmar e expandir a predominância dos EUA, mediante a incorporação, ao poder imperial dos EUA, de vastas porções do mundo islâmico. Eles se beneficiariam, é claro. Mas muito mais nos beneficiaríamos nós.

Infortunadamente, libertar afegãos e iraquianos revelou-se empreitada muito mais complicada do que havia sido previsto pelos arquitetos da agenda de libertação (ou de dominação), de Bush. Antes de Barack Obama substituir Bush, em janeiro de 2009, poucos observadores – além de um punhado de ideólogos e militaristas – acreditavam no conto de fadas de um poder militar norte-americano que obrigaria o Oriente Médio, por mágica, a se alinhar.

Brutalmente, mas eficientemente, a guerra educou os educáveis. Quanto aos não educáveis, continuaram a ouvir e a repetir tudo que lhes ensinavam a rede Fox News e Weekly Standard.

CRIAR EXÉRCITOS

Se a estratégia de transformar mediante invasão e “construção da nação” falhara, havia outra posição que parecia ditada pela lógica dos acontecimentos. Juntos, Bush e Obama cuidariam de reduzir as expectativas de o quanto os EUA alcançariam, mesmo enquanto impunham novas demandas aos militares norte-americanos, o braço dos EUA para política exterior, para que continuassem a tentar cumprir a agenda posta.

Em vez de operar como parteiro de mudança política e cultural fundamental, o Pentágono recebeu ordens para escalar os esforços – já então desmesurados – para criar exércitos (e forças policiais) locais capazes de manter a ordem e a unidade nacionais. O presidente Bush criou formulação concisa da nova estratégia: “Enquanto os iraquianos se erguem, nós nos retiraremos”.

Com Obama, depois de seu próprio golpe naquela “avançada/surge”, o dictum passou a se aplicar também ao Afeganistão. A construção-da-nação gorara. Construir exércitos e forças policiais capazes de manter a tampa bem firmemente fechada sobre tudo e todos passou a ser, então, a definição prevalente de “sucesso”.

EXEMPLO DO VIETNÃ

Claro, os EUA já haviam tentado antes essa abordagem, com resultados infelizes. Foi no Vietnã. Ali, esforços para destruir as forças do Vietnã do Norte e do Vietcong que lutavam para unificar o próprio país haviam exaurido os militares norte-americanos e a paciência do povo dos EUA. Respondendo à lógica dos eventos, os presidentes Lyndon Johnson e Richard Nixon já tinham planos previsto para essa eventualidade. Com as chances de as forças dos EUA conseguirem eliminar as ameaças à segurança do Vietnã do Sul, o treinamento, armamento e preparação dos sul-vietnamitas para se autodefenderem viraram prioridade absoluta.

Apelidada de “Vietnamização”, essa empreitada acabou no mais abjeto fracasso, com a queda de Saigon, em 1975. Mas o fracasso levantou importantes questões às quais a elite da segurança nacional dos EUA deveria ter prestado atenção: Se o estado é fraco, com duvidosa legitimidade, que viabilidade há/haveria em esperar que gente de fora realmente investiria as forças locais com genuíno poder de luta? Como diferenças na cultura ou história ou religião afetam o futuro do tal ‘investimento’ exterior, em forças locais? Há capacitação e armas suficientes para suprir um déficit de vontade? Equipamento substitui coesão? Sobretudo: se forem encarregadas de dar nova chance a uma nova versão da Vietnamização, o que as forças dos EUA têm de fazer de modo muito diferente, para poder esperar resultado diferente?

POUCA ATENÇÃO

Naquela época, com oficiais generais e oficiais civis mais inclinados a esquecer o Vietnã, do que a analisar implicações do Vietnã, essas questões atraíram bem pouca atenção. Em vez de cuidar delas, os militares profissionais devotaram-se a se reequipar para a guerra seguinte, a qual, como então decidiram, seria diferente. Não mais Vietnãs – e, portanto, não mais Vietnamização.

Depois da Guerra do Golfo de 1991, apoiados no ostentável sucesso da Operação Tempestade no Deserto, o corpo de oficiais se autoconvenceu de que havia definitivamente apagado as más lembranças induzidas pelo Vietnã. Como o comandante-em-chefe George W. Bush disse, em frase inolvidável, “Juro por Deus, chutamos de uma vez por todas a síndrome do Vietnã!”

Em resumo, o Pentágono decifrara a guerra. A vitória, agora, seria conclusão necessária. O que aconteceu foi que essa avaliação autocongratulatória esqueceu as tropas norte-americanas, que foram mal preparadas para as dificuldades que as esperavam depois do 11 de setembro, quando as intervenções no Afeganistão e no Iraque começaram pelo velho script, que determinava guerras rápidas por força sem igual, que alcançaria vitórias decisivas. Mas os soldados encontraram duas longas guerra, que até hoje não foram ‘decididas’. Era o Vietnã, tudo outra vez, em escala menor – mas multiplicado por dois.

VIETNAMIZAÇÃO 2.0

Para Bush no Iraque e Obama, depois de rápido flerte pouco entusiasmado com uma contrainsurgência no Afeganistão, optar por uma variante da Vietnamização 2.0 pareceu a coisa mais simples de fazer. E a opção oferecia uma sugestão de rota de fuga para bem longe de todas as complexidades. Bem verdade que o Plano A – nós exportamos liberdade e democracia – fracassara. Mas o Plano B – eles (com nossa ajuda) restauram alguma coisa que passe por estabilidade – pode permitir que Washington salve pelo menos algum sucesso parcial nos dois espaços. Com a barra das exigências assim já bem convenientemente rebaixada, uma versão de “Missão Cumprida” pode ainda ser alcançável.

Se o Plano A visara a conseguir que os militares norte-americanos dizimassem rapidamente os adversários, o Plano B focava-se em empurrar aliados sitiados para que assumissem os combates. A meta já não era vencer – dada a incapacidade dos militares norte-americanos para vencer qualquer guerra, essa meta era autoevidente, não era adivinhação. – A meta passava ser manter o inimigo a uma distância segura.

Embora aliados dos EUA, só no sentido mais laxo da expressão Iraque ou Afeganistão qualificam-se como nação-estado. Governos em Bagdá e Cabul só nominalmente e intermitentemente são imbuídos de autoridade que as respectivas populações conhecidas como ‘afegãos’ e ‘iraquianos’ respeitem. Mesmo assim, na Washington de George Bush e Barack Obama, algo como uma voluntária suspensão de qualquer racionalidade passou a ser ‘a base’ das políticas. Em terras distantes onde o conceito de nacionalidade mal existia, o Pentágono meteu-se a tentar construir um aparelho completo de segurança nacional capaz de defender aquela aspiração como se representasse a realidade. Desde o primeiro dia, foi grosseira subestimação da realidade, amparada na fé.

Como em todos os projetos que o Pentágono assume ‘para arrasar’, esse também consumiu recursos em escala gargantuesca – US$ 25 bilhões no Iraque e ainda mais estarrecedores US$ 65 bilhões no Afeganistão. “Erguer” por lá mesmo as necessárias forças envolveu transferência de vastas quantidades de equipamento e a criação de elaboradas missões norte-americanas para treinamento. Forças iraquianas e afegãs obtiveram toda a parafernália da guerra moderna – aviões ou helicópteros de ataque, artilharia e veículos blindados, equipamento para visão noturna e drones. Desnecessário dizer, logo apareceram longas filas de empresas fornecedoras da Defesa, interessadas em fazer dinheiro rápido.

ESTADO ISLÂMICO

A julgar pelo desempenho, as forças de segurança nas quais o Pentágono injetou anos de atenção permanecem visivelmente insuficientes para o serviço. Entrementes, os guerreiros do ISIL/ISIS/Daesch/Estado Islâmico, sem os benefícios da orientação de um caríssimo quadro de distantes mentores especiais, surgiu pleno de convicção, para lutar e morrer pela própria causa. Como os combatentes Talibã no Afeganistão. E os beneficiários da assistência técnica que os EUA distribuem? Nada bem. Considerados retornos parciais, mas em considerável quantidade, a Vietnamização 2.0 parece estar seguindo uma trajetória fantasmagoricamente familiar em que todos, sem faltar um, reconhecerão a Vietnamização 1.0. As perguntas que teriam de ter sido examinadas lá atrás, quando nossos aliados sul-vietnamitas foram miseravelmente derrotados, voltaram como fantasma e vingança.

A mais importante daquelas questões desafia o pressuposto que deu forma à política dos EUA no Oriente Médio Expandido desde que a agenda ‘da liberdade’ viajou para o sul: que Washington tem alguma especial capacidade e extraordinária competência para organizar, treinar, equipar e motivar exércitos estrangeiros. Se forem consideradas as evidências que se empilham diante dos nossos olhos, aquele pressuposto é em grande parte, falso.

Falando desses resultados, o tenente-general aposentado Karl Eikenberry, ex-comandante militar e embaixador dos EUA no Afeganistão, já ofereceu sua avaliação de autoridade no assunto. “Nosso currículo no setor de construir forças [estrangeiras] de segurança ao longo dos últimos 15 anos é miserável” – disse ele recentemente ao New York Times. Só isso.

A GUERRA ERRADA

Há de haver quem argumente que, se se tentar com mais empenho, investirem-se mais bilhões, enviar mais equipamento durante, digamos, mais 15 anos, os resultados aparecerão. Mas isso é o mesmo que acreditar que, no prazo longuíssimo, os frutos do capitalismo acabarão por gotejar pirâmide abaixo e beneficiarão até o último dos homens, ou que a marcha da tecnologia esconde o segredo da felicidade humana. Se você quiser, pode acreditar, mas é jogo perdido.

A verdade é que os EUA estariam mais bem atendidos, se os políticos parassem de fingir que o Pentágono teria algum dom sobre-humano qualquer para “erguer” exércitos em terras distantes. A prudência aconselha, na verdade, que Washington assuma que, no que tenha a ver com organizar, treinar, equipar e motivas exércitos estrangeiros, os EUA estão absolutamente sem noção.

Pode haver exceções. Por exemplo, os esforços dos EUA podem provavelmente ter ajudado a ampliar o poder de combate da Peshmerga curda. Mas é exceção rara, que ajuda a confirmar a regra. Tenham em mente que, antes dos instrutores e equipamentos norte-americanos tivessem sequer surgido por lá, os curdos iraquianos já tinham os atributos essenciais para constituir uma nação. Diferentes dos afegãos e iraquianos, os curdos não precisam de mentores que lhes ensinem sobre a imperiosa necessidade de haver alguma autodefesa coletiva nacional.

DESISTIR DAS ILUSÕES

Quais as implicações políticas de desistir da ilusão de que o Pentágono saberia o que fazer para construir exércitos estrangeiros? A maior delas é a seguinte: sublocar guerras deixa de aparecer entre as alternativas plausíveis a guerrear diretamente, porque assim se substituem soldados nossos, por soldados deles. Perdida a ilusão de que o Pentágono teria o tal ‘dom’, aconteceria que, em todos os casos em que, para defender interesses dos EUA, fosse preciso guerrear, nós teríamos de morrer nas próprias guerras.

Por extensão, em circunstâncias nas quais as forças dos EUA são demonstradamente incapazes de vencer guerra alguma, ou onde os norte-americanos se neguem a admitir qualquer gasto adicional de sangue norte-americano – hoje, no Oriente Médio Expandido, as duas condições acima se aplicam –, a conclusão será que nada temos de fazer lá (seja onde for).

Fingir que alguma outra coisa seria melhor solução é jogar dinheiro bom onde já se perdeu dinheiro ruim, como um famoso general norte-americano disse certa vez, para guerrear (ainda que indiretamente) “a guerra errada, no lugar errado, na hora errada e contra o inimigo errado.” É o que os EUA vimos fazendo já há várias décadas em grande parte do mundo islâmico.

Na política norte-americana a nação espera por presidente ou candidato à presidência interessado em afirmar o óbvio e enfrentar suas implicações.

(artigo enviado por Sergio Caldieri. Seu autor, Andrew J. Bacevich, é ce professor emérito de História e Relações Internacionais na Boston University)

18 thoughts on “EUA constrói exércitos para vê-los fracassar

  1. Quem exige a saída do poder de Bashar Al-Assad na Síria?
    17.10.2015 | Fonte de informações: Prensa Latina

    Damasco (Prensa Latina)Um dos temas mais polêmicos para os Estados Unidos, o Ocidente e os grandes círculos hegemônicos no mundo atualmente é a permanência ou não no poder do presidente sírio Bashar Al-Assad.

    Com Estados Unidos à frente, vários países europeus (França e Reino Unido) e alguns governos do Oriente Médio (Turquia e Arábia Saudita), insistem na saída do presidente sírio como condição para conseguir uma eventual solução política ao conflito que sofre este país árabe desde 2011.
    Os ministros de Relações Exteriores dos países membros da União Europeia reuniram-se para debater a situação na Síria, discutir sobre a participação da aviação russa na luta antiterrorista e logicamente, decidir “o que fazer” com Al-Assad.

    Em declarações à imprensa, o secretário de Estado francês de Assuntos Europeus, Harlem Desir, desde o mais absoluto desconhecimento acusou a Rússia de não atacar o grupo terrorista Estado Islâmico e “apoiar o regime de Bashar Al-Assad”.

    Segundo Desir, “a transição política é a condição para a paz, e para a paz na Síria é necessária uma transição política. Esta deve ser feita sem Bashar Al-Assad (…), responsável essencialmente pelas vítimas desta guerra civil”, sem mencionar, naturalmente, os verdadeiros responsáveis pela crise.
    Por sua vez, o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Philip Hammond, assinalou que poderia haver certa “flexibilidade” sobre o momento da partida de Al-Assad – algo que dá por fato -, mas que existe um sério perigo de que “os rebeldes se unam então aos grupos radicais”.

    Já o presidente norte-americano Barack Obama tinha expressado seu desacordo com qualquer pacto que incluísse a presença do chefe de Estado sírio.

    Prosseguem com um discurso pré-desenhado, depois que o presidente russo Vladimir Putin sugeriu uma nova forma de enfrentar o grupo Estado Islâmico e todos os grupos terroristas anexos que operam na Síria, e o Senado de Moscou aprovasse a participação militar no conflito.

    A VERDADE OCULTA

    Estes “diplomatas da guerra” não têm ideia de como enfrentar o conflito que eles criaram, e que está submerso em uma viragem completamente desfavorável a suas iniciais pretensões hegemônicas.

    Desde que começou a incursão aérea russa, o grupo terrorista Estado Islâmico perdeu quase 40% de sua infraestrutura em consequência dos bombardeios.

    O francês Harlem Desir equivoca-se quando fala de uma “guerra civil”, quando na realidade Síria resiste e enfrenta uma agressão internacional, onde participam mercenários de mais de 50 países, financiados, armados e treinados, entre outros, por seu próprio governo.

    Também não refere-se às discussões de paz surgidas no calor da crise, que levou à mesa de negociações o governo de Damasco e os principais agrupamentos políticos opositores que dentro do país também repudiam a intromissão estrangeira nos assuntos internos sírios.

    Mas impõe-se uma pergunta que deveria responder o secretário de Estado francês de Assuntos Europeus: quem tem enfrentado o Estado Islâmico, a Frente Al-Nusra e todos os grupos terroristas que operam na Síria até hoje?

    Durante mais de quatro anos, em mais de 400 frentes de combate e com perdas humanas que superam 50 mil homens, o Exército Árabe sírio, capitaneado por Bashar Al-Assad, tem resistido a investida de quase 300 mil homens armados e pagos precisamente pelo Ocidente.

    Por sua vez, o ministro britânico Hammond alude aos grupos opositores moderados, aos que chama de rebeldes e até “revolucionários”, sem considerar que está defendendo “fantasmas” que não existem, ou que estão em seus últimos estertores. Daquelas tropas bem armadas, com uniformes novos e reluzentes, deu conta a traição, a ambição, a frustração, e a rivalidade dos grupos radicais extremistas, que não quiseram compartilhar o futuro botim.

    O URSO BRANCO AFUGENTA OS FALCÕES DA GUERRA

    Com a decisão adotada pela Federação Russa, de aceitar a solicitação formal de ajuda militar feita pelas autoridades de Damasco, veio abaixo o mito da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, que em mais de um ano de bombardeios sistemáticos, pouco fizeram contra os grupos terroristas nos territórios da Síria e do Iraque.

    A presença russa na Síria tirou do caminho os verdadeiros gestores do conflito, que até o momento custou a vida de 250 mil pessoas e que agora buscam parar a ação militar do gigante euro-asiático, que está decidido a pôr fim, em cooperação com o exército sírio, a este brutal flagelo.

    Para além dos salões de reuniões europeus, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não passa de vagas declarações ameaçadoras, Estados Unidos retira seus foguetes antiaéreos Patriot da Turquia, e na União Europeia começam a se ouvir outras vozes que buscam terminar este calvário.

    Enquanto o exército sírio, apoiado pelos temidos aviões de combate russos, continua sua ofensiva contra o terrorismo, empenhado em devolver a paz ao seu povo.

    Por Miguel Fernández Martínez*
    *Correspondente da Prensa Latina na Síria.

  2. Rumo à 3ª Intifada: Por que Israel não tem futuro no Oriente Médio
    17.10.2015 | Fonte de informações: Pravda.ru

    “Quero dizer algumas palavras sobre o regime sionista. Depois que se concluíram as negociações nucleares, ouvimos os sionistas dizerem na Palestina ocupada: “Com essas negociações, não teremos de nos preocupar com o Irã nos próximos 25 anos; só depois, pensaremos no caso.”

    Quero dizer-lhes que, para começar, não estarão aí daqui a 25 anos, para pensar sobre coisa alguma. Com a graça e por favor de Allah, daqui a 25 anos já não haverá nem sinal do que hoje se conhece como “regime sionista”. Segundo, durante esse tempo, o espírito islâmico revolucionário, épico, deJihad, não lhes dará sossego nem por um segundo.

    Os sionista já deveriam saber disso. As nações despertaram. Agora já sabem onde está o inimigo. Claro, alguns governos e a propaganda do inimigo quer trocar os lugares, amigos, por inimigos, mas nada conseguirão. As nações – especialmente muçulmanas, especialmente as nações regionais – estão vigilantes e bem despertas.

    Pois é. O regime sionista e os EUA já estão reduzidos ao que se vê.”
    (Discurso do Supremo Líder Aiatolá Ali Khamenei, 9/9/2015)
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    Dia 9 de setembro de 2015, Sayed Ali Khamenei, Supremo Líder do Irã, repetiu o compromisso da República Islâmica, de, por palavras e por atos, libertar a Palestina ocupada e pôr fim ao chamado ‘Estado de Israel’, último ‘estado’ colonizador que resta no planeta, tão vicioso quanto anacrônico. Disse que, apesar do acordo nuclear, não se pode confiar nos EUA, o “Grande Mal e inimigo dos povos”, piores que o próprio demônio, porque não há meio pelo qual seja possível separá-los de suas políticas imperialistas, e que portanto devem continuar a ser considerados inimigos, com os quais qualquer negociação ou contato é proibido. O Irã pode e deve confiar só no seu próprio povo e no próprio desenvolvimento, para se autopreservar contra ameaças e agressões externas, disse o aiatolá Khamenei.

    Quanto à entidade sionista, Sayed Khamenei previu que, dentro de 25 anos, já nem existirá tal coisa no mapa do Oriente Médio, confirmando a posição já há muito tempo afirmada e conhecida da República Islâmica, que se resume na famosa frase de 1979: “Israel é tumor canceroso que tem de ser extirpado para sempre.” De fato, desde a Revolução Islâmica, o Irã sempre foi o principal provedor e apoiador da luta armada contra Israel, ajudando grupos da Resistência Palestina e Libanesa por todas as vias possíveis (financeiramente, militarmente, diplomaticamente, provendo treinamento e expertise, etc.), sempre declarando repetidamente que o Irã ajudará qualquer país ou força que se disponha a lutar contra Israel.

    Em novembro de 2014, no auge da guerra contra ISIS/ISIL e das negociações em Viena do grupo P5 + 1, Sayed Khamenei explicitamente destacou a necessidade de armar os palestinos da Cisjordânia, para abrir nova linha de frente contra Israel e liberar mais territórios ocupados.

    Aproximadamente ao mesmo tempo, Sayed Hassan Nasrallah evocou a mesma questão para as Colinas do Golan sírio, onde em janeiro de 2015, confirmou-se presença de força de alto nível dos Guardas Revolucionários Iranianos. E mesmo depois de firmado o acordo nuclear, Sayed Khamenei confirmou sua posição, dizendo que o apoio que o Irã garante à Resistência é inegociável e só aumentará. Comandantes dos Guardas Revolucionários Iranianos disseram também que funcionários e agentes de Israel não estariam jamais em segurança, em lugar algum do mundo. De fato, ninguém poderia mostrar-se mais seriamente comprometido com a destruição de Israel. Hezbollah e o Irã provaram, mais uma vez, que são mestres na arte de converter qualquer ameaça em nova oportunidade.

    Netanyahu como se poderia esperar manifestou o desespero da entidade sionista nodiscurso que fez na ONU dia 1º de outubro, no qual só falou do Irã. Apesar de suas acusações de que o Irã teria intenções genocidas (Israel começou e há de acabar como a Argélia Francesa, com os colonizadores ocupantes fazendo as malas e voltando ao seu ocidente bem amado, e o único genocídio que ali se viu foi o genocídio das populações palestinas nativas), a performance ridícula e aqueles patéticos 45 segundos do show de desafio ‘com o olhar’, mostram com muita eloquência os medos ‘legítimos’, viscerais, do ilegítimo Estado Judeu – perfeitoalter ego do Estado Islâmico.

    A linguagem corporal e a falta de carisma dizem tudo: ambos, o ISIL e Israel conhecerão o mesmo destino e, felizmente para o mundo, serão extintos.

    O Irã desempenha papel importante nessas duas frentes de luta contra o terror fanático, na defesa dos superiores interesses dos povos da região.

    O que torna essa predição ainda mais relevante que nunca, como disse Sayed Khamenei, é que as nações árabes-muçulmanas afinal despertaram e a última violência atentada contra a soberania das nações do Oriente Médio – o ISIS/ISIL – está sendo enfrentada e derrotada.

    EUA e Israel são agora vistos, mais claramente do que nunca antes, como a raiz de todo o mal na região, e o slogan “Morte a Israel” (e “Morte aos EUA”), embora inicialmente cantados por multidões xiitas (do Irã ao Iraque, passando por Líbano e Iêmen), ecoam profundamente, conscientemente e inconscientemente, no coração da vasta maioria de todos os árabes, muçulmanos e homens, mulheres, jovens e crianças livres desse mundo, e são já afirmados, cada vez mais abertamente, por todos.

    Ilustração disso se vê em muitos vídeos de multidões por todo o planeta que queimam bandeiras de Israel (e dos EUA), mas, também, de modo menos dramático mas talvez ainda mais revelador e eloquente, pelas ruas, em entrevistas que a televisão fez durante um ano em vários países árabes (Tunísia, Egito, Líbano, Palestina, etc.), nas quais as pessoas deveriam responder a uma única e simples pergunta: “Onde se localiza o Estado de Israel?”. E a maioria dos consultados recusou-se, até, a responder.

    A maioria dos consultados protestou já contra os termos da pergunta, porque não existe no mundo nenhum “Estado de Israel”. O que existe não passa de entidade sionista usurpadora, um câncer no Território Ocupado da Palestina, condenada a desaparecer por todos os princípios e todas as leis humanas e mais amplas (ONU, a História, a Moral, a Justiça, etc.): esses fatos se autoimporão eles mesmos a todos, assim como a libertação da Argélia Francesa impôs-se contra militares, colonizadores e franceses comuns, que supuseram, até o último momento, que qualquer resistência seria criminosa e impossível; em seguida, tiveram de render-se à realidade.

    Cairo, 5 de outubro de 2015

    Finalmente, o blefe da Arábia Saudita ‘Guardiã dos Dois Locais Sagrados’ e a chamada guerra ‘sunitas versus xiitas’ foi exposta, e os povos árabes e muçulmanos veem já o regime saudita, claramente, pelo que realmente é e sempre foi, um Cavalo de Troia da hegemonia ocidental, uma heresia, fonte, provedor e mantenedor do terrorismo, outro câncer que ataca o próprio Islã.

    O ISIS nada tem a ver com os ensinamentos do Islã, mas tem tudo a ver com o que dizem Muhammad b. Abd-al-Wahhab e a Casa de Saud, cuja visão aplicam e disseminam.

    Antes da interferência do ocidente, o mundo islâmico sabia lidar com o predecessor deles, Ibn Taymiyya, fanático, mas figura marginal, que passou quase toda a vida nos calabouços de onde jamais deveria ter saído. E, não fosse pelo envolvimento direto do Imperialismo Britânico, o regime da Arábia Saudita jamais teria sobrevivido até o século 20, e o país seria ainda conhecido como Hijaz; e nem as doutrinas Wahhabistas ter-se-iam espalhado pelo mundo, graça a inexaurível capacidade de persuadir que têm os petrodólares.

    Mas hoje, com os desdobramentos na região, especialmente no Iêmen, onde a Arábia Saudita e seus aliados estão sofrendo duros revezes, no que já se configura como derrota esmagadora (como previram ambos, Sayed Khamenei e Sayed Nasrallah); e na Síria, de onde seus ‘procuradores’ estão sendo varridos pela ofensiva conjunta de Síria, Irã, Hezbollah e Rússia, a queda da Casa de Saud já se configura irreversível. Depois virá a libertação de todos os Territórios Palestinos Ocupados (Colinas do Golan, Cisjordânia, Galileia, etc.) – da qual o fim do ISIS é como uma prefiguração -, a destruição final de Israel e o fim da chamada Pax Americana, que nada foi se não a Era do Terror Internacional, e à qual sucederá um mundo multipolar, do qual essas forças maléficas, pelo menos, terão sido varridas. [Imagem]

    As décadas de tortura indiscriminada, brutalização, destruição e assassinatos em massa produzidos por Israel, de terror e humilhações infligidas aos países vizinhos e aos próprios palestinos, tornaram impossível qualquer coexistência entre israelenses e árabes nessa região. Israel foi criada e mantida pela espada e só conseguirá sobreviver enquanto for invencível ou, no mínimo, temida como tal.

    Como Sayed Nasrallah relembrou bem, o próprio Ben Gourion disse que Israel cairá depois de perder a primeira guerra. Dado que até hoje não conseguiu matar o espírito de resistência do povo palestino e o comprometimento do povo árabe, dos muçulmanos e de todo o mundo com a causa dos palestinos, e já preso indiscutivelmente num círculo de revezes e derrotas desde 25/5/2000 e 14/8/2006, até as guerras de Guerras de Gaza de 2008-9, 2012 e 2014, o projeto colonial sionista está condenado. Apenas que, em 1979 e 1982, só os visionários já sabiam.

    Esperemos que esteja em curso realmente uma 3ª Intifada na Palestina e que, como Sayed Khamenei prevê, os ocupantes não tenham um dia de paz e segurança. Esperemos que o povo Palestino finalmente entenda que nenhuma negociação é possível com Israel, que deponha o atual governo corrupto, colaboracionista e infame, e abrace plenamente a Resistência Armada, seguindo o exemplo e as exortações do Hezbollah em 2000 e 2006. Tenhamos fé e nos preparemos para festejar.

    Coragem, Sr. Netanyahu! Embora os terroristas do exército de Israel não tenham a coragem dos terroristas do ISIS, não será preciso afogá-los todos no mar. Sayed Nasrallah prometeu que na próxima guerra que mudará a face do Oriente Médio, só barcos que cheguem à Palestina Ocupada serão impedidos de navegar. Que todos osbarcos que estejam deixando Israel, conduzindo colonos de volta para de onde saíram viajarão livremente. Mas ainda que aconteça de o senhor ser lançado ao mar, verdade é que o senhor e os parecidos com o senhor sempre sabem o momento certo para abandonar navio que naufraga e são excelentes nadadores.*****

    11/10/2015, Salah Lamrani (Sayed Hasan)

  3. Putin está derrotando mais que o ISIS na Síria
    19.10.2015

    Há pouco mais de um ano, em julho de 2014, a Rússia e o presidente Vladimir Putin eram o foco das atenções na Europa e nos EUA, acusados – sem nem sombra de prova – de terem derrubado um avião civil da Malásia, desarmado, sobre o leste da Ucrânia. Os russos só pensariam em restaurar a União Soviética, no apoio que davam ao referendo proposto aos cidadãos da Crimeia para que escolhessem se reintegrar à Federação Russa, em vez de serem incorporados à Ucrânia. Washington e a União Europeia (UE) atacavam a Rússia com sanções. As pessoas falavam de nova Guerra Fria.

    Hoje o quadro mudou, e muito profundamente. É Washington quem está na defensiva, com o que os EUA têm feito na Síria e no Oriente Médio já exposto como ações criminosas, inclusive a geração da recente ‘crise dos refugiados’ na Alemanha e em grandes partes da U

    Como estudioso de política e economia internacionais durante praticamente toda a minha vida adulta, devo dizer que me parecem notáveis a compostura e o controle emocional que Vladimir Putin e o governo russo têm manifestado, diante dos alucinados ataques ad hominem de gente como Hillary Clinton, que comparou Putin a Adolf Hitler.

    Mas é preciso muito mais que compostura e autocontrole para arrancar o mundo da beira, ou como alguns poderiam dizer, já do início da 3ª Guerra Mundial. Aí, é preciso ação brilhante e direta. E então, aconteceu algo extraordinário, nos poucos dias depois do discurso do presidente Vladimir Putin na Assembleia Geral da ONU, dia 28 de setembro em New York.

    O que Putin disse…

    O que Putin disse na Assembleia Geral da ONU deve ser considerado, para pôr sob foco mais claro o que a Rússia fez nos dias imediatamente posteriores. Primeiro, Putin pôs perfeitamente às claras o que significa a lei internacional por trás da Carta da ONU, e que a Rússia se guia escrupulosamente conforme a Carta, em suas ações na Síria. A Rússia, diferente dos EUA, foi formalmente convocada, pelo legítimo governo da Síria, a ajudar o país em sua guerra contra o terror.

    Ante os delegados da ONU e chefes de Estado, Putin disse que”Decisões debatidas na ONU podem ser convertidas em Resolução, ou não. Como dizem os diplomatas, elas “passam ou não passam”. E todas e quaisquer ações que um estado empreenda sem considerar esses procedimentos são ações ilegítimas, colidem com a Carta da ONU e desafiam a lei internacional.”

    E continuou: “Todos sabemos que, depois do fim da Guerra Fria, emergiu no mundo um centro de dominação. E então, os que se viram naquele momento no topo da pirâmide foram tentados a crer que, se somos tão fortes e excepcionais, então sabemos mais e melhor o que fazer que o resto do mundo; assim sendo, por que, afinal, teríamos de reconhecer a ONU, a qual, em vez de automaticamente autorizar e legitimar decisões que pareçam necessárias, tantas vezes cria obstáculos ou, em outras palavras “mete-se no caminho?”

    Na continuação, Putin enviou mensagem muito clara a Washington e aos governos da OTAN, sobre a questão da soberania nacional, anátema para quem abraça o pressuposto ‘Nirvana’ que adviria da globalização, homogeneização de tudo num só nível: “O que é, afinal, a soberania do Estado? Putin perguntou, retórico. E continuou:

    “A soberania tem a ver, basicamente, com liberdade e com o direito de cada pessoa, nação ou estado escolher livremente o próprio futuro. Na mesma direção caminha a chamada legitimidade da autoridade do Estado. Não se deve brincar com elas, nem manipular as palavras. Na lei internacional, nos negócios internacionais, cada termo deve ser claro, transparente, interpretado por critério uniformemente compreendido por todos.”

    E Putin continuou:

    “Todos somos diferentes. E todos devemos respeitar as diferenças. Ninguém tem de encaixar-se num único modelo de desenvolvimento que outro, em algum momento, tenha decidido, de uma vez por todas, e para todos, que seria o único modelo correto. Todos devemos lembrar o que nosso passado nos ensinou. Também recordamos alguns episódios da história da União Soviética. “Experimentos sociais” para exportação, tentativas de impor mudanças dentro de outros países baseadas em preferências ideológicas, quase sempre levaram a consequências trágicas e à degradação, não ao progresso.”

    Poucas palavras que sucintamente expõem tudo que está fundamentalmente errado na ordem internacional de hoje. Nações, principalmente a que se autoproclama “Única superpotência, Hegemon Infalível”, os EUA, arrogantemente, depois do colapso do seu principal adversário, a União Soviética, passou a dedicar-se exclusivamente a construir o que só se pode designar como um império global totalitário, que G.H.W. Bush, no discurso do dia 11/9/1991 ao Congresso, chamou de Nova Ordem Mundial. Acredito firmemente que fronteiras são importantes, que respeitar experiências históricas diferentes é essencial para a paz mundial. Isso é tão verdade entre nações como entre indivíduos. Parece que esquecemos essa simples noção, na desgraça de tantas guerras ao longo das décadas passadas. Vladimir Putin nos obriga a relembrar.

    Na sequência, o presidente russo vai diretamente ao coração da matéria. Expõe a nu as verdadeiras atividades do governo Obama na Síria e no Oriente Médio para armar terroristas islamistas ‘moderados’ e empurrá-los a atacar o que Washington apresenta como sua besta fera: o presidente recentemente, legalmente e transparentemente reeleito da Síria, Bashar al Assad.

    Para Putin, “Em vez de promover reformas, uma interferência estrangeira agressiva resultou na visível destruição de instituições nacionais e, até, de estilos de vida. Em vez de algum triunfo da democracia e de mais progresso, o que obtivemos foi mais violência, mais miséria e um desastre social. E ninguém dá qualquer atenção a qualquer dos direitos humanos, inclusive ao direito de viver.”

    E mais uma vez, em mensagem dirigida a Washington e às Revoluções Coloridas de suas muitas ONGs conhecidas como “Primavera Árabe”, Putin pergunta: “Não posso me impedir de perguntar aos que causaram essa situação: Os senhores dão-se conta do que fizeram?”

    Putin, sem o dizer diretamente, fala do papel que tiveram os EUA e a OTAN na criação do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, observando com precisão a curiosa anomalia que há em o ultrassofisticado novo Tesouro dos EUA, que se dedica a impor sanções a organizações terroristas, ter passado ‘sem ver’ pelas fontes de financiamento do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, pelo ativo comércio de petróleo em que estão envolvidos, facilitado pela própria família do presidente da Turquia, para ficar só nesses. Disse o presidente Putin da Rússia:

    “A situação é mais do que perigosa. Nessas circunstâncias, é atitude hipócrita e irresponsável pôr-se a fazer ‘declarações’ sobre a ameaça do terrorismo internacional, ao mesmo tempo em que os mesmos ‘declarantes’ fingem que não veem os canais por onde caminha o dinheiro que financia e mantém terroristas, inclusive o tráfico de drogas e o comércio ilícito de petróleo e de armas.”

    E o que Putin faz…

    Nas últimas semanas, a Rússia desmontou completamente a agenda diabólica – porque é o que é, diabólica – do governo do presidente Obama, e não só na Síria mas também em todo o Oriente Médio e agora na UE, para onde se dirige a onda gigantesca de refugiados. Abertamente, Putin conclamou Obama a, no encontro que teriam dia 30 de setembro, cooperar para, juntos, derrotarem o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico.

    Obama, tola e obstinadamente, insistiu que, antes de tudo, Assad tem de sair, apesar de Christine Wormuth, subsecretária do Pentágono responsável pela guerra síria, já ter publicamente confirmado a avaliação dos russos quanto ao papel essencial de Assad, hoje, para derrotar o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico.

    Wormuth disse ao Senado dos EUA que os militares de Assad “ainda têm força considerável”, acrescentando que “ainda são a força militar mais poderosa que há lá, em solo. As avaliações mais recentes dizem que o regime não está perigo iminente de cair.”

    Agora entram em cena os zurros de protesto dos falcões neoconservadores doidos-por-guerras, como o sempre pronto para disparar o gatilho senador John McCain, presidente da organização estatal Instituto Internacional Republicano, braço do Senado dos EUA e exportadora à bala de ‘revoluções democráticas’ Dotação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy). Ouvem-se alguns flácidos protestos do presidente Obama. Isso, porque Washington sente-se profundamente exposta a qualquer investigação que o mundo conduza para descobrir quem mantém os terroristas na Síria em guerra contra governante de governo legítimo, de estado que é membro da ONU, reconhecido pela comunidade internacional. Os doidos-por-guerras norte-americanos acusam a Rússia de estar atacando “a oposição moderada” ou civis.

    As roupas novas do rei

    Putin da Rússia entra na história elegantemente, quase graciosamente, como o menino no conto de fadas clássico de Hans Christian Anderson, de 1837, “As roupas novas do rei”. O menino está ao lado da mãe, entre milhares de aldeões, diante da sacada do palácio de um rei pretensioso e tolo, quando o tresloucado rei aparece à sacada, perfeitamente nu, mas convencido de que estaria vestindo um seu magnífico novo traje. O menino grita, para grande embaraço de serviçais que também fingem que veem alguma roupa: “Mamãe, o rei está nu.”

    O que quero dizer com isso? Nos primeiros quatro dias de bombardeios precisos contra sítios selecionados em território sírio com jatos de combate, os russos lançaram seus impressionantes mísseis Kh-29L ar-terra guiados por laser, que atingem alvos demarcados com precisão de menos de 2m e, com isso, conseguiram destruir centros-chaves de comando do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, depósitos de munição e infraestrutura vital. Segundo relatos oficiais do Ministério da Defesa da Rússia, ilustrado com fotos, os bombardeiros Su-34 atacaram um campo especial de treinamento e depósito de munições do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico próximos de Al-Tabqa, na província de Ar-Raqqah, “posto crítico do ISIS ocupado em agosto de 2014 depois de duros combates. “Resultado da explosão do depósito de munições, o campo de treinamento dos terroristas foi completamente destruído” – informou o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia. Os jatos Su-25 russos também atacaram campos de treinamento do Estado Islâmico em Idlib, Síria, destruindo uma oficina para produção de coletes explosivos.

    Moscou informa que sua força aérea “destruiu três depósitos de munição, combustível e armas dos grupos armados ilegais. Bombas KAB-500 lançadas de aviões detonaram a munição e o armamento”, e usaram-se bombas BETAB-500 capazes de penetrar em concreto, para destruir quatro postos de comando de grupos de terroristas armados do ISIS. As instalações de operação dos terroristas foram completamente destruídas” – acrescentou o porta-voz de Moscou. A aviação da Rússia realizou 20 voos e fez 10 ataques aéreos contra instalações do grupo terrorista ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico nas últimas 24 horas. Na sequência, Moscou anunciou que também haviam sido atingidos postos avançados de outros grupos terroristas, como a Frente al-Nusra, franqueada da al-Qaeda.

    São esses os chamados “moderados” pelos quais tanto choram McCain e os doidos-por-guerra em Washington. Washington andou inventando o que chama de “Novas” Forças Sírias [orig. “New” Syrian Forces (NSF)], as quais, dizem lá, seriam compostas de terroristas “moderados” eufemisticamente referidos como “rebeldes”.

    Imaginem uma conversa de recrutamento. Diz o recrutador da CIA: “Mohammed, você é islamista moderado?” “Oh, claro que sou, caro instrutor que a CIA nos mandou. Por favor, me leve com você, me treine, me arme para a luta contra Assad, ditador sanguinário, e contra o ISIS. Estou com você. Você pode confiar em mim”.

    No final de setembro, noticiou-se que o major Anas Obaid codinome Abu Zayd, depois de completado seu treinamento na Turquia, desertou do programa de treinar-e-armar-e-equipar a Frente al-Nusra (Al Qaeda na Síria), no instante em que pôs os pés na Síria. É inacreditável, mas funcionários norte-americanos confirmaram que Washington não rastreia nem tem qualquer comando-controle sobre os seus agentes contratados jihadistas, a partir do instante em que pisam na Síria. A deserção de Abu Zayd, depois de treinado pelos EUA em técnicas avançadas de combate, é caso típico. Outros elementos das “Novas Forças Sírias” entregaram diretamente suas armas à Frente al-Nusra logo que entraram em território sírio na cidade de Atareb, no final de setembro.

    Essas recentes deserções de “moderados” para unir-se à Al-Qaeda na Síria acontecem menos de duas semanas depois de o general Lloyd Austin III, comandante dos EUA na “guerra contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico”, admitiu, em audiência na Comissão de Serviços Armados do Senado sobre a Síria, que o programa militar dos EUA que pretendia formar 5.400 combatentes treinados em um ano, só formara, até ali, “quatro ou cinco”, que permanecem em solo e ativos em combate. Todos os demais desertaram para unir-se ao ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico ou à Frente Al-Nusra da Al-Qaeda (os “moderados” que os EUA apoiam).

    O que os bem-sucedidos ataques de precisão que os russos conseguiram foi expor a feia nudez do rei sem roupas. Há mais de um ano o governo Obama diz que aplica a mais impressionante força aérea do planeta para, supostamente, destruir os terroristas do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, que já foi descrito como “exército de combatentes esfarrapados correndo pelo deserto calçando tênis de basquete.”

    Curiosamente, até a semana passada, o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico só fez expandir sua rede de poder na Síria e no Iraque, apesar do ‘bombardeio’ norte-americano. Mas agora, em apenas 72 horas, os militares russos voaram apenas 60 missões de bombardeio, com o que atingiram mais de 50 alvos do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico; e bastou isso para pôr os combatentes do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico no que o porta-voz do Ministério de Defesa da Rússia descreveu como “estado de pânico” com já mais de 600 deserções. E, segundo informa Moscou, a luta está apenas começando; e espera-se, segundo Moscou, que se estenda por, no mínimo, três quatro meses.

    O governo Obama treina terroristas da Al-Qaeda/Al-Nusra, supostamente para que enfrentem o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico – praticamente o mesmo que o general (caído em desgraça) David Petraeus fez no Iraque e no Afeganistão, acompanhado pelo coordenador especial de Obama para a luta contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico (que renunciou recentemente ao cargo), general John Allen.

    Os terroristas “moderados” que os EUA treinam e armam estão sendo treinados e armados – como agora já se vê claramente – para tentar derrubar Assad e abrir caminho para uma avançada da Fraternidade Muçulmana sobre a Síria – e real mergulho de todo o mundo na escuridão e nas trevas, se aquela avançada acontecer.

    Agora, a verdade já ESTÁ claramente iluminada aos olhos do mundo – depois dos sucessos notáveis de um punhado de aviões russos em quatro dias de real confrontação contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico. Em apenas quatro dias, aquele punhado de aviões russos conseguiram mais que a ‘coalizão’ liderada pelos EUA “anti-ISIS” em mais de um ano. Assim, afinal, vê-se claramente o sujo jogo duplo que Washington jogou até aqui.

    Agora, aquela máscara hipócrita do governo Obama foi-lhe arrancada com a precisão de um míssil russo Kh-29L guiado a laser. Como o governo alemão e outros governos da UE já admitiram, apesar de forte objeção de Washington, Putin demonstrou que a Rússia é a parte essencial de qualquer solução pacífica para a guerra síria, a qual, por sua vez, tem tudo a ver com solucionar a crise dos refugiados que procuram asilo na Alemanha e em outros países da UE. A Rússia tem portanto muito a fazer rumo a uma paz duradoura para o mundo.

    A Comissão do Parlamento Norueguês para o Prêmio Nobel da Paz, em vez de considerar o patético John Kerry, deveria estar-se organizando para premiar o presidente Vladimir Putin e o Ministro da Defesa Sergey Shoygu da Rússia -, premiação que agregaria importância e dignidade ao prêmio e ao trabalho daquela Comissão.*****

    15/10/2015, F. William Engdahl, New Eastern Outlook

  4. De acordo com declaração do premier malaio Mahathir Mohamad em reunião de cúpula da Organização da Conferência Islâmica celebrada na Malasia em 16 de outubro de 2003: – “Hoje, os judeus dirigem o mundo por procuração. Conseguem que os outros lutem e matem por eles”.
    http://www.dgabc.com.br/Noticia/396894/premie-malaio-faz-discurso-anti-semita-em-conferencia-islamica
    Ao se conjugar essa informação, com as conhecidas pretensões hegemônicas do Sionismo e Radicais Judeus, na ampliação de sua área de influência até conquistarem a “Grande Israel”, é possível se obter uma perspectiva holística mais realista em relação ao cenário e as verdadeiras motivações envolvidas nessa guerra de baixa intensidade, . . . http://thoth3126.com.br/grande-israel/

  5. Caro Jornalista,
    Caro Ednei,

    Ao contrário do que tenta sugerir o missivista, creio que os Estados Unidos conseguiram o que queriam nas referidas guerras, exceto a do Vietnã: Destruíram todos esses países sob o pretexto de
    “caçarem terroristas”. Hoje esses lugares não passam de tribos da Idade Média com armas da Idade Contemporânea, sem um exército ou forças armadas regulares. Não são mais nações.
    Não representam mais ameaças à hegemonia americana. As mortes de inocentes consequentes são efeitos colaterais aceitáveis pelos cidadãos americanos – principalmente quando ocorrem lá “onde o Judas perdeu as botas”…

    Quanto aos grupos terroristas, se eles tivessem sido extintos, quais seriam os argumentos que os americanos usariam para interferir nas terras alheias – hoje sem a desculpa da ameaça comunista?
    Não passam de Cavalos-de-Troia!!!

  6. Bombardeio de escolas, hospitais e mercados, isto tornou-se rotina da força aérea dos EUA
    14.10.2015

    Hospital de Kunduz, no Afeganistão. No seu comentário sobre o tiroteio em massa na comunidade da faculdade de Oregon o presidente Obama disse: “Isto tornou-se rotina”.

    por Paul Craig Roberts

    Assim como o tiroteio da polícia sobre americanos desarmados e não oferecendo resistência.
    Assim como numerosos outros não desejáveis e deploráveis acontecimentos, tais como o arresto dos lares de milhões de americanos, enquanto os “bancos demasiado grandes para falir” são salvos com triliões de dólares, tais como mentiras de política externa que destruíram sete países e trouxeram milhões de refugiados para os EUA e a Europa.

    Além disso há as mentiras de política externa que provocaram o conflito dos EUA e da Europa com a Rússia e as mentiras econômicas que protegeram a extraordinária concentração de rendimento e riqueza dos Um Porcento.

    Também rotina é a aniquilação por Washington de festas de casamento, funerais e centros médicos com bombas e drones. Dois dias depois de Obama exprimir o seu desespero, frustração e raiva sobre o tiroteio em massa no Oregon, um ataque aéreo estado-unidense atingiu um hospital em Kunduz, Afeganistão. Segundo numerosas notícias, pelo menos 19 pessoas foram mortas, incluindo 12 membros dos Médicos Sem Fronteiras, e outros 37 feridos. O ataque aéreo dos EUA matou uma pessoana mesa de operações e pacientes sob cuidados intensivos arderam até à morte nas suas camas.

    Para Washington, estes assassinatos em massa são apenas “dano colateral”, não garantindo uma declaração presidencial mostrando desespero, raiva e frustração.

    Obama diz que nada pode fazer acerca de tiroteios em massa, mas ele certamente podia cancelar suas guerras ilegais e sanar sua abordagem precipitada e coerciva em relação à Rússia antes de sermos incinerados. Como disse Vladimir Putin na ONU: “Nós [a Rússia] não podemos mais tolerar o estado de coisas no mundo”.

    Putin não mente. Quando ele diz alguma coisa, ele quer dizer isso.

    Alguém em Washington tem de ouvir melhor este homem, porque Washington já não é mais A Única Potência. Há agora três novas superpotências – Rússia, China e EUA – e provavelmente nessa ordem.

    Na América, todas as formas de maldade e corrupção tornaram-se rotina. Bob Dylan disse-nos que o vício e a corrupção tornaram-se rotina : “As vidas do povo hoje são preenchidas a muitos níveis com o vício e os seus ornamentos. Ambição, cobiça e egoísmo têm de provocar o vício… Não vemos as pessoas que o vício destrói. Apenas vemos diariamente o encanto do vício – para todo o lado que olharmos, desde os cartazes publicitários aos filmes, aos jornais, às revistas. Vemos a destruição da vida humana e a zombaria da mesma, para todo o lado que olhamos”.

    O vício é a assinatura de Washington. Um peixe apodrece pela cabeça e Washington levou o nosso país ao vício, cobiça e egoísmo e à ridicularização e destruição da vida humana.

    A Regra de Ouro é “fazer aos outros como gostaria que eles fizessem para ti”. Alegadamente, a América é um país cristão. Isto significa que a América cristã está a seguir o Sermão de Jesus na Montanha de um modo masoquista. Queremos realmente que eles destruam nossa infraestrutura social e económica, matem milhões de nós e transformem a maior parte dos restantes em refugiados?

    Isto é o que a América tem feito ao mundo. Esta é a razão porque Vladimir Putin disse que a Rússia não pode mais tolerar o estado de coisas no mundo e porque perguntou à América: “Percebem vocês o que fizeram?”

    O original encontra-se em sputniknews.com/…

  7. Campanha russa para acabar com a al-Qaeda da CIA
    06.10.2015

    Com cerca de 125 ataques em três dias, a campanha de bombardeio russo continua a ganhar corpo. A mídia-empresa nos EUA agora enlouqueceu completamente, obcecados, todos os veículos e jornalistas, com a ideia de que a Rússia pode estar usando bombas ‘bobas’ [dumb bombs], não guiadas, em vez das “bombas barris” sírias, também não guiadas. Já está virando novo meme de propaganda.

    2/10/2015, Moon of Alabama

    Mas vídeos da base aérea russa mostram que pelo menos alguns dos aviões são armados com bombas KAB-500S-E guiadas por satélite (GLONAST) que são bombas ‘inteligentes’ muito precisas. (Outrasimagens e vídeo da base aérea russa mostram vida bastante confortável, com quartos com ar condicionado, tenda para missa,Gulaschkanonen, padaria, lavanderia, etc. Essa base não é instalação improvisada para ser usada por pouco tempo.)

    E, isso, sem considerar que matar com bombas de precisão é mais humano que matar com “bombas bobas” ou “bombas-barril”. Gaza foi bombardeada pelos israelenses com bombas inteligentes (fabricadas nos EUA). Nem por isso causaram menos destruição ou morticínio. A bomba (fabricada nos EUA) que os sauditas lançaram recentemente sobre o casamento no Iêmen, e que matou 130 pessoas, também era “inteligente” e acertou o centro do alvo, na festa de casamento contra a qual foi disparada.

    Os russos bombardearam, como já informei, principalmente o corredor até a fronteira turca, que está em mãos da al-Qaeda, Ahrar al Shams e mercenários da CIA. Também bombardearam Raqqa, capital síria do Estado Islâmico e mataram uma dúzia de combatentes. Resposta a isso, o Estado Islâmico cancelou as orações da 6ª-feira em Raqqa aparentemente por temer que qualquer reunião de combatentes do Estado Islâmico doravante levará bomba.

    Muito engraçado. Os EUA repetiram durante um ano, que estavam bombardeando seriamente o Estado Islâmico. Mas ninguém nunca cancelou orações da 6ª-feira. Será porque o Estado Islâmico nunca acreditou no que os EUA diziam, mas agora têm medo de que os russos estejam, eles sim, falando sério?

    A Força Aérea síria vinha evitando bombardear junto à fronteira turca, porque temia, com razão, que a Turquia derrubasse o jato sírio. Mas os russos agora podem operar ali. O bombardeio de solo é feito por aviões construídos para isso, Su-24, Su-25 e Su-34, e sobretudo os jatos de combate Su-30M armados com mísseis R-27 ar-ar super rápidos, de médio e longo alcance, para dar cobertura. Essas aeronaves podem derrubar qualquer jato turco que tente atacar os bombardeiros russos. Isso, só para garantir que Erdogan não apareça com alguma ideia estúpida.

    A campanha aérea está também bem coordenada com as forças do governo sírio em terra. De artigo do Wall Street Journal só para assinantes, citado aqui:

    “Milhares de rebeldes reagruparam-se em vários enclaves ao norte de Homs, em cidades como al-Rastan e Talbiseh. Os russos atacaram alvos civis e militares nessas duas cidades e em cinco vilas ao redor, disse Rashid al-Hourani, oficial do exército sírio daquela área, que desertou para o lado dos terroristas em 2012.”

    Disse que os ataques aéreos foram seguidos por fogo pesado de artilharia de várias posições próximas, onde milícias alawitas e xiitas pró-regime, inclusive um grupo apoiado pelo Irã e conhecido como Brigada Ridha, se concentraram durantes os últimos dias.

    O exército sírio atacará em breve, em ação coordenada com a força aérea russa e tentará recuperar territórios no norte, ao longo das rodovias M4 e M5. Mais uma vez essa formação permitirá ataque mais amplo até a fronteira turca. Reforços por terra, do Irã, Iraque e do Hizbullah estão a caminho ou já chegaram. Estamos vendo se configurar ali uma batalha mais ampla.

    O Guardian entra na guerra na função de espalhar boatos de que os Estados do Golfo responderão ao movimento russo, fornecendo mais armas:

    “Evidentemente o movimento russo expõe-se ao risco de contra-ataque que virá de países que apoiam os rebeldes. Segundo analista independente, o contra-ataque pode já ter começado, com os qataris – agindo com permissão da Arábia Saudita – enviando aviões carregados de armas para bases turcas. “Eu esperaria influxo gigante de armas para o norte, para impedir qualquer ataque por terra por forças do regime” – disse o analista. “As apostas são muito altas.”

    E os aviões russos também voam altíssimos. A maior parte deles voa acima de 5km de altitude e não há míssil portátil de defesa aérea [ing.Man-Portable-Air-Defense (MANPAD)] que os alcance. Quem é bombardeado sequer vê ou ouve os aviões chegando. Isso mudará quando o exército sírio atacar e for preciso mais apoio direto em solo; então, os aviões a ser usados são Su-25 e Su-34, para essa finalidade e com cabines blindadas.

    A base aérea russa é protegida por moderna defesa aérea em solo e pelos navios russos no mar próximo. Em solo estão cerca de 1.250 marinheiros russos. Sabe-se que há ali munição e suprimentos para no mínimo três meses. Ninguém se meterá contra essa base e a campanha russa. Nenhuma ação é ali possível sem mobilização de grandes forças, e usar grandes forças é certeza de guerra contra a Rússia nuclear. A Síria é irmã da Rússia (vídeo) e será defendida.

    O governo Obama então decidiu que não interferirá nos ataques dos russos contra mercenários da CIA e seus irmãos de armas, terroristas da al-Qaeda. Serão emitidas declarações cheias de mentiras e só para constar.

    Mas as ladies candidatas à presidência não são lá que se diga, muito brilhantes. Ambas, Hillary Clinton e Carly Fiorina, já se puseram a ‘exigir’ que os EUA implantem à força uma zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria – o que, para começar, iniciaria guerra contra a Rússia e aliados.

    Os mercenários da CIA na Síria – 10 mil homens treinados, armados e assalariados com dinheiro de um programa secreto – estão cooperando diretamente com a al-Qaeda e com o grupo igualmente terrorista Ahrar al Shams. Até o NYT afinal, hoje, reconheceu que sim, estão; em dois artigos. O primeiro diz:

    “Combatentes avançando naquele front não eram do Estado Islâmico, mas do Exército da Conquista, grupo que inclui um afiliado da Al-Qaeda conhecido como Frente al-Nusra, e outros grupos, inclusive vários grupos mais seculares que foram clandestinamente armados e treinados pelos EUA.”

    Um segundo artigo sobre o Exército da Conquista:

    “A aliança consiste de várias facções a maioria das quais são islamistas, inclusive a Frente al-Nusra, afiliada síria da Al-Qaeda, Ahrar al-Sham, outro grande grupo; e mais facções rebeldes moderadas que receberam armas clandestinamente, dos serviços de inteligência dos EUA e aliados”.

    Os grupos que lutam reunidos no Exército da Conquista partilham, é claro, armas, munição e outros suprimentos. Provavelmente, têm ideologias semelhantes.

    CIA, sob comando de Obama, Petraeus e Brennan, armou a al-Qaeda na Síria sabendo o que fazia, e o fez por longo tempo. O NYT há um ano, noticiou que havia mercenários da CIA trabalhando com islamistas, mas o artigo foi desqualificado como ‘coisa menor’, sobre problema pequeno. É muito surpreendente que o artigo intermediário, de 2014, e os dois artigos de hoje no NYT sobre a Síria tenham mencionado aquela relação, mas concentrando-se no show patético dos “cinco rebeldes moderados”, que não passou de detalhe para desviar a atenção.

    O Pentágono está fazendo-se de desentendido quanto às pessoas atingidas, quando os russos bombardeiam posições da al-Qaeda:

    Senador McCain disse que foram atingidos rebeldes apoiados pela CIA. Acho que, quero dizer, presumivelmente, vocês também estão procurando a mesma informação. É verdade? Vocês não têm confirmação? Em que pé estamos nisso?

    COL. WARREN: “Certo, bem… repito que, mais uma vez, Tom, estou dizendo que não achamos que tenha sido gente do ISIL. Você sabe, quem apoia quem, você entende, é que – não, não vou entrar nesse assunto. Principalmente, porque você está citando – você sabe, você não se refere sequer a alguma agência do Departamento de Defesa.”

    Para mim, isso é confirmação.

    Os israelenses agora também estão admitindo que trabalham, sim com a al-Qaeda:

    Junto com algumas milícias locais, Nusra é encarregada de mais de 100km de fronteira com Israel no lado sírio das Colinas de Golan. Em anos recentes, Nusra suavizou ligeiramente sua ideologia militante, por influência do Qatar e da Arábia Saudita, que dão à Frente apoio financeiro.

    Nusra está em controle da maior parte da fronteira, mas até aqui já alcançou acordo tácito de que não usará suas armas contra o estado judeu.

    Nusra controla a fronteira, porque Israel ajudou-a, atacando o exército sírio em todos os pontos e circunstâncias em que a al-Nusra da al-Qaeda precisou de ajuda.

    A matéria inclui um link para artigo do Jerusalem Post também interessante, sobre o famoso plano Odet Yinon – porque esse plano confirma que o projeto de destruir as nações do Oriente Médio e reduzi-las a semiestados governados por senhores da guerra é supervisionado pela inteligência militar de Israel:

    Há alguns anos, a comunidade de inteligência começou a reavaliar a realidade caótica que emergia no Oriente Médio. Mapas desenhados pelo Departamento de Pesquisa do ministério do Interior mostra os estados substituídos por empresas e organizações. …

    E esse é o plano também para a Síria. Mas agora, com apoio mais decisivo que se organiza para recuperar os territórios sírios invadidos… o plano pode bem vir a fracassar.

  8. Deem bom-dia aos meus mísseis cruzadores
    14.10.2015

    O Novo Grande Jogo na Eurásia avançou saltos e saltos semana passada, depois que a Rússia disparou 26 mísseis cruzadores, do Mar Cáspio, contra 11 alvos no ISIS/ISIL/Daesh por toda a Síria e destruiu todos. Esses ataques do mar foram a primeira vez, que se saiba, em que foram usados operacionalmente os mísseis cruzadores estado-da-arte SSN-30A Kalibr.

    O Pentágono só pôde mesmo lançar olhar enviesado, sobre o ombro, acompanhando o voo dos mísseis Kalibr – que acertam alvos localizados a 1.500km de distância. Aí está. Mensagem curta, clara, compacta de Moscou, dirigida ao Pentágono e à OTAN. Querem meter-se conosco, caras? Talvez, quem sabe, com aqueles porta-aviões enormes e pesadões?

    Mais que isso, além de implantar o que é uma zona de exclusão aéreade facto sobre a Síria e o sul da Turquia, o cruzador Moskva, da Marinha Russa, que transporta 64 mísseis S-300 mar-ar, está agora ancorado em Latakia.

    As proverbiais fontes anônimas nos EUA entraram em surto de hiperatividade, espalhando ‘noticiário’ segundo o qual os russos tiveram quatro mísseis que ‘perderam o rumo’ e caíram no Irã. O Alto Comando da Rússia riu delas: todos os mísseis atingiram o alvo, dentro do raio previsto de 2,40m em torno do ponto demarcado.

    O Pentágono nem sabia que o Kalibr pode ser disparado de navios pequenos (os Tomahawks exigem navios muito maiores).

    O melhor que o Pentágono conseguiu inventar, além da apoplexia generalizada, foi o comandante do North American Aerospace Defense Command (NORAD), almirante William Gortney a dizer que os mísseis cruzadores de longo alcance do Conselho Atlântico da Rússia são nova “ameaça” à defesa nacional estratégica dos EUA.

    A ameaça do míssil cruzador russo é “desafio particular para o NORAD e para o Comando do Norte.” OH! É mesmo?!

    Pode-se falar de mais uma subavaliação monstro do que seja o Novo Grande Jogo. Pode-se argumentar que o desenvolvimento militar da Rússia ao longo dos últimos anos pôs Moscou várias gerações à frente dos EUA. Na hipótese de uma Guerra Quente Mundial 3.0 – que ninguém, exceto os Drs. Fantásticos enlouquecidos de sempre, poderia desejar -, as armas chaves serão mísseis e submarinos, não os porta-aviões monstro à moda dos EUA.

    O Pentágono está apoplético, porque essa mostra da tecnologia russa revelou ao mundo que acabou o monopólio dos EUA sobre os mísseis de longo alcance. Os analistas do Pentágono ainda trabalhavam sob o pressuposto de que o alcance desses mísseis não ultrapassaria 300 quilômetros.

    Além do mais, a OTAN foi avisada: a Rússia pode acabar com eles, num flash – como vi acontecer em conversas na Alemanha, semana passada. A retórica furiosa, do tipo “você está violando o meu espaço aéreo” tampouco tem qualquer serventia.

    Mais uma vez, assumindo-se o cenário “Dr. Fantástico”, a única resposta possível dos EUA se a coisa ficar séria seria lançar seus mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) nucleares; nesse caso, o espaço aéreo da Rússia estará blindado pelos mísseis do sistema antimísseis S-500, cada um com dez interceptadores de mísseis e que não deixarão passar nenhum dos ICBMs dos EUA.

    Idiota e mais idiota ainda, mas moderado

    Assim sendo, passado o choque inicial, o Pentágono reverteu para… vacuidade total, e complementou o humor festivo com as manchetes idiota e muito-mais-idiota que se leem aqui e aqui.

    O ‘El Supremo’ do Pentágono Ash Carter jurou que Washington nunca cooperará com Moscou na Síria, porque a estratégia do Kremlin seria “tragicamente falhada”. Deve-se interpretar que “falhou”, porque em poucos dias a Rússia matou mais doidos salafistas terroristas que toda a Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) comandada pelos EUA (COFUSA) [orig. US-led Coalition of the Dodgy Opportunists (CDO)] em mais de um ano. Alguém ainda lembra que essa Continuous Descent Operation, CDO-2, chama-se oficialmente “Operação Inerente Firmeza ?” [orig. Operation Inherent Resolve?

    E há também um problema adicional com a coisa de “Não quero brincar na mesma pracinha que você”, chamada de “estratégia” no Pentágono; o Ministério da Defesa da Rússia explicou que quem primeiro solicitou ações coordenadas com a Rússia na Síria foi… o Pentágono.

    Para acrescentar irrelevância à vacuidade, o Pentágono anunciou que está arquivando o seu mais recente espetacular fracasso: o programa de $500 milhões para “treinar e equipar” rebeldes “moderados” na Síria, que produziu estonteantes “quatro ou cinco” duros-de-matar preparados para combater contra o ISIS/ISIL/Daesh.

    Assim sendo, acabou-se “mais treinamento”; em vez disso haverá “capacitadores” – palavra-código para “inteligência local” – com a missão de identificar alvos do falso “Califado” para serem atacados pela COFUSA. Serão “instruídos” sobre como interagir com o Pentágono “à distância”.

    E quem conseguiria inventar tudo isso?!

    A parte do “Equipar”, por sua vez, será muitíssimo degradada; restou só um saco de rifles de assalto a serem entregues a uns 5.000 rebeldes “moderados”, rifles os quais, claro, serão imediatamente confiscados pela Frente al-Nusra, codinome “al-Qaeda na Síria”, os rapazes do “Califado”.

    Ash Carter dava sinais de estar satisfeitíssimo com essa sua estratégia magnificamente concebida, orientada para ajudar a “aumentar o poder de combate” daqueles rebeldes “moderados” invisíveis. E jura que Washington “permanece comprometida” com treinar os tais rebeldes “moderados”, mas a toada agora é “por diferentes vias para alcançar basicamente o mesmo tipo de objetivo estratégico”.

    Coube ao atordoantemente medíocre Ben Rhodes, vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA para comunicação estratégica, elaborar sobre o novo foco da magnificamente concebida “estratégia”: “desenvolver relacionamento com líderes e unidades [dentre os grupos sírios armados], e capacitar-se para fazer chegar suprimentos e equipamentos até eles.” Ora! Por que não “desenvolvem o relacionamento” por uma página de Facebook?! Barato e muito mais efetivo.

    Oh, babe, me desconflite

    Apesar de a “desconflitação” entre Washington e Moscou continuar tão conflitada como sempre, há pelo menos uma questão quanto à qual talvez concordem: trabalhar com os curdos no nordeste da Síria, como já admitiram membros do Partido da União Democrática (cur. PYD). O co-presidente do PYD Salih Muslim já disse claramente que “lutaremos ao lado de qualquer um que lute contra o Daesh.”

    Mas as análises feitas pelo PYD continuam a ser anátema para o Pentágono e a Casa Branca. E o PYD sabe algumas coisinhas sobre combater em solo contra terroristas/rebeldes “moderados”. Para oPYD, ISIS/ISIL/Daesh, Jabhat al-Nusra ou Ahrar a-Sham “são sempre a mesma coisa, sem diferença de um para o outro”. Tradução: não há no mundo sequer um, que fosse, rebelde “moderado”. E o PYD também aceita que Bashar al-Assad permaneça no poder por algum tempo, mas só durante um período “transicional”.

    O PYD interpretou perfeitamente o significado da ofensiva da Rússia na Síria. Eles opõem-se firmemente a qualquer zona aérea de exclusão controlada pela Turquia, e agora já têm certeza que não acontecerá. Também sabem perfeitamente que uma brigada do “Sultão” turcomeno, treinada por Ancara – rebeldes “moderados” à moda turca – imediatamente desertará, em massa, para o lado doISIS/ISIL/Daesh.

    Entrementes, em Sochi, o presidente Vladimir Putin da Rússia encontrou-se – outra vez – com o ministro da Defesa da Arábia Saudita príncipe Mohammed bin Salman, o mesmo príncipe-guerreiro que atualmente massacra civis no Iêmen. Os ministros russos de Relações Exteriores Sergey Lavrov e de Energia Alexander Novak participaram da reunião.

    Diplomaticamente, se trata de Moscou e Riad definirem que oISIS/ISIL/Daesh não receba permissão para tomar a Síria. O diabo está nos detalhes. Muitos boatos sobre uma “solução política”. Putin, mais uma vez, mais hábil, impossível: a atual ofensiva visa a “estabilizar as autoridades legítimas e criar condições para construir um acordo político”. A Casa de Saud entendeu o recado: é do jeito da Rússia, ou rua.

    Mas eles ainda flertam com a rua, verdade seja dita – com os proverbiais funcionários sauditas não identificados já confirmando que o príncipe Salman amigo de Putin teria entregue 500 mísseis TOW antitanques aos rebeldes “moderados” do ex-Exército Sírio Livre. Podem apostar que sem demora aparecerão TOWs em mãos de salafistas de vários grupos.

    E toda essa ação frenética acontece paralelamente ao centro de coordenação de inteligência Rússia-Irã-Iraque-Síria-Hezbollah, que começou a operar recentemente em Bagdá e já mostrou que não veio para fingir que trabalha. Assim, sim, é que se organiza e comanda inteligência em campo. Um ataque pode ter deixado escapar o “Califa” Ibrahim, mas mandou ao Paraíso vários notáveis do “Califado”. Resumo: o Pentágono não foi convidado e só soube do ataque no Iraque porque alguém lá estava assistindo à CNN. Os registros mostram que o Pentágono não está exatamente entre os dez-mais em matéria de inteligência em campo, no Iraque.

    Fontes xiitas em Bagdá confirmaram pessoalmente a mim, mais uma vez, que a conversa na cidade é que o governo Obama realmente não tem qualquer interesse em combater contra o ISIS/ISIL/Daesh, no máximo sujar a ponta dos coturnos em algum tipo de “apoio relutante”. Isso, porque a “estratégia” do governo Obama – podem perguntar ao coitado daquele Ben Rhodes – permanece atrelada a “Assad tem de sair”, venha sob qual variação semântica vier.

    E quanto à Turquia? Eis aqui a resposta breve. O sultão Erdogan simplesmente não consegue controlar os curdos – nem na Síria nem na Turquia. Também não consegue controlar a Síria. E de controlar Moscou, então, nem se fala. A piada que circula atualmente da Síria ao Iraque e ao Irã é que ninguém precisa atacar a Turquia; basta deixar que rache sozinha. O sultão Erdogan está providenciando.

    Os muitos impasses do Sultão explicam por que o primeiro-ministro da Turquia Ahmet Davutoglu – aquele da antiga doutrina de “zero problemas com os vizinhos” – anda dizendo agora que Ancara está pronta para conversar com Moscou e Teerã sobre a Síria, desde que não se cogite de “legitimar” Assad. Davutoglu também trabalha para desenvolver uma lógica pervertida segundo a qual os ataques aéreos russos aumenta(riam) o fluxo de refugiados sírios para dentro da Turquia. Assim sendo, todos devemos esperar que Ancara expulse do país mais uma onda de refugiados que são mantidos em “campos de contenção” no caminho para a Fortaleza Europa. Na sequência, jogue a culpa em Putin. E nos mísseis de Putin.****

    12/10/2015, Pepe Escobar, Asia Times

  9. Importante manter a França bem longe da guerra síria
    07.10.2015

    Não se observa nenhum sinal de mal-estar em Washington ou em qualquer capital ocidental ante o fato de, no domingo, a França ter feito seu primeiro ataque aéreo na Síria. É momento terrível. Não esqueçam que a França, com a Grã-Bretanha, é a ‘criadora’ da Síria moderna.

    Usar violência contra a prole não é prática rara para a França – é o que continua a fazer na África -, mas mesmo assim tresanda insensibilidade nesse caso, dada a vergonha que ainda cerca o pacto Sykes-Picot. (Em maio do próximo ano, esse capítulo vergonhoso da história colonial da Europa completa 100 anos.)

    Mas o que a França fez é repreensível também por outra razão. O país é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem poder de veto, e violou a integridade territorial de país membro da ONU sem sequer buscar qualquer acordo. As intervenções da França em terras estrangeiras não respondem a qualquer princípio ou moralidade. A Líbia é o caso mais recente de país que a França invadiu, destruiu, impôs o governo que bem entendeu, deixou seu rastro de anarquia e simplesmente lavou as mãos de qualquer responsabilidade sobre o caos que se seguiu.

    Nesse caso, a França fareja que a procura de solução política para o conflito sírio está provavelmente começando; e que ‘ter voz’ no processo. Está no DNA da França, exceto que o que vemos aqui é versão apenas um pouco mais crua do papel pervertido que a França desempenhou durante as negociações sobre o acordo nuclear com o Irã, quando tirou dinheiro da Arábia Saudita e pôs-se a criar obstáculos nas negociações do ‘P5+1 e o Irã’ pelo mais longo tempo que pôde, mas quando o acordo tornou-se fato consumado, a França simplesmente mudou-se para o lado dos iranianos, para o ‘business’.

    A explicação da França é que na Síria está “protegendo nosso [da França] território, impedindo ações terroristas, agindo em legítima defesa”. Ponto. Parágrafo.

    O presidente François Hollande diz que novos ataques na Síria “podem acontecer nas próximas semanas, se necessário”. Em suma, a França mijou no poste sírio e faz dele território seu, para constar. Pode haver ato mais cínico?

    Países cristãos como a França têm história sangrenta de intolerância e violência, que nenhum mascaramento, sob a fantasia de ‘civilização’, consegue esconder. O registro dos atos da França na África é simplesmente abominável. Absolutamente não se pode permitir que a França chegue sequer perto da Síria. Já anda por lá, planando como abutre pelos céus sírios, e provavelmente sente que pode ser hora de pousar.

    O presidente Barack Obama está a poucas horas de uma conversa com o presidente Vladimir Putin da Rússia, em New York, para discutirem o aumento da presença militar de Moscou na Síria (com conhecimento e total cooperação de Damasco). A mídia norte-americana, esmagada sob o pesado tacão do lobbyjudeu associado a Israel, enlouqueceu completamente ante a evidência de que a Rússia pretende reforçar o governo sírio em sua luta contra o Estado Islâmico. E, mesmo assim, nem Obama nem nenhum funcionário de seu governo ou comentarista judeu-norte-americano cuida de emitir uma única palavra de crítica contra o ataque militar unilateral da França, contra a Síria.

    Na essência, na Síria, a Rússia explicita suas objeções às intervenções militares unilaterais do Ocidente – em particular, dos EUA -, sempre para fazer ‘mudança de regime’. A Rússia deveria, na verdade, ter traçado a linha vermelha já há 14 anos, no famoso incidente na base aérea Bagram no Afeganistão, quando os EUA meteram ‘coturnos em solo’ naquele país sem sequer informar ao governo em Kabul. (O então ministro de Relações Exteriores do Afeganistão Abdullah Abdullah, de fato, protestou contra o movimento unilateral dos EUA de introduzir soldados em campo – desgraçadamente, Washington também induziu a Aliança do Norte a crer que o Afeganistão não seria alvo de nenhuma ocupação ocidental.)

    Moscou deveria ter insistido em manter seus aviões em solo em Bagram e em ter voz mais ampla, na guerra contra os Talibã. Sem dúvida, a guerra afegã teria tomado rumo completamente diferente, se os EUA não tivessem ocupado o país – e isso também, só depois de ter ficado claro que as forças da Aliança do Norte que lutavam em solo haviam derrubado o regime dos Talibã. A invasão norte-americana transformou o que fora uma guerra civil em um complicado conflito regional e internacional. A ocupação ainda continua e, tanto quanto se sabe, Washington parece ter decidido manter uma ocupação por EUA-OTAN, sem prazo para terminar, no Afeganistão.

    É preciso dizer que Putin falhará em seu dever como líder mundial, se não disser bem claramente a Obama, na reunião de hoje mais tarde em New York, que as regras postas para intervenções em países soberanos – respeito aos princípios da Carta da ONU – devem ser aplicáveis uniformemente e com coerência. É indispensável que a lei internacional e a Carta da ONU sejam estritamente respeitadas.

    São as intervenções ocidentais que estão na raiz da crise no Oriente Médio. O Ocidente não se pode autoatribuir a prerrogativa de intervir no Oriente Médio Muçulmano, como se as Cruzadas jamais tivessem realmente acabado.

    28/9/2015, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

  10. Ednei
    Segue uma matéria que eu achei muito importante acredito que complemente a sua.

    O autor é: Thierry Meyssan
    Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa.
    A colonização da Pequena Síria

    Na sequência da Guerra e da queda do Império Otomano, o Sherife Hussein das duas mesquitas de Meca e de Medina proclamou a independência dos Árabes. Em conformidade com as promessas de «Lawrence da Arábia» ele proclamou-se «rei dos Árabes», mas é chamado à ordem pela «pérfida Albion».

    Em 1918, o seu filho, o Emir Faisal, proclama um governo árabe provisório em Damasco, enquanto os britânicos ocupam a Palestina e os Franceses a costa Mediterrânica. Os Árabes tentam criar um Estado unitário, multiconfessional, democrático e independente.

    O presidente dos E.U.A, Woodrow Wilson, reconciliou o seu país com o Reino Unido em torno do projecto comum de criação de um Estado judeu, mas, ele opõe-se à ideia de colonizar o resto da região. Retirando-se da conferência de Versalhes, a França faz-se atribuir um mandato, pelo Conselho Supremo Inter-aliados, para administrar a sua zona de influência, aquando da conferência de San Remo. A colonização tinha encontrado um álibi legal: era preciso ajudar os Levantinos a organizarem-se após a queda dos otomanos.

    As primeiras eleições democráticas são organizadas na Síria pelo governo árabe provisório. Elas dão a maioria, do Congresso Geral sírio, a caciques sem verdadeira cor política, mas a assembleia é dominada pelas figuras da minoria nacionalista. Ela adopta uma Constituição monárquica e bi-camarária (cameral-br). Ao anúncio do mandato francês, o Povo revolta-se contra o Emir Faisal, que havia decidido colaborar com os Franceses e os Maronitas do Líbano, que o apoiam. Paris envia a tropa sob o comando do General Gouraud, um dos membros do «Partido Colonial». Os nacionalistas sírios dão-lhe combate em Marjayoun, onde eles são esmagados. Começa a colonização.

    O General Gouraud separa primeiro o Líbano —onde ele dispõe do apoio dos Maronitas— do resto da Síria, que ele se esforça por governar dividindo, e opondo entre si, os grupos religiosos. A capital da «Síria» é transferida para Homs, uma pequena cidade sunita, antes de regressar a Damasco, mas o poder colonial permanece baseado no Líbano, em Beirute. É conferida uma bandeira à colônia, em 1932, que é composta por três bandas horizontais representando as dinastias Fatímidas (verde), Omíadas (branca) e Abássidas (preta), símbolo para os muçulmanos xiitas quanto à primeira, e para os sunitas quanto às duas seguintes. As três estrelas vermelhas representando as três minorias, cristã, drusa e alauíta.

    A França pensa fazer do Líbano um Estado maronita, já que os Maronitas são cristãos que reconhecem a autoridade do papa, e da Síria um Estado muçulmano. Ela não parará de combater os cristãos da Síria Pequena já que eles são maioritáriamente ortodoxos.

    Em 1936, a esquerda acede ao poder em França, com o governo da Frente Popular. Ele aceita negociar com os nacionalistas árabes e promete-lhes a independência. O sub-secretário de Estado para os protectorados do Magrebe e dos mandatos do Médio-Oriente, Pierre Viénot, negoceia a independência do Líbano e da Síria (tal como ele havia tentado fazer para a Tunísia). O Tratado é ratificado, por unanimidade, pelo Parlamento sírio, mas, jamais será apresentado por Léon Blum —membro do «Partido Colonial»— ao Senado.

    No mesmo período, o governo da Frente Popular decide separar a cidade de Antioquia da Pequena Síria e propõe juntá-la à Turquia, o que será feito em 1939. Desta forma, Léon Blum entende livrar-se dos cristãos ortodoxos, cujo patriarca é o titular do Patriarcado de Antioquia, e que os Turcos não deixarão de reprimir.

    Por fim, é a divisão da França durante a Segunda Guerra Mundial, que porá termo à colonização. O governo legal de Philippe Pétain tenta manter o mandato, enquanto o governo legítimo de Charles de Gaulle proclama a independência do Líbano e da Síria, em 1941.

    No fim da II Guerra Mundial, o Governo Provisório da República põe em acção o programa do Conselho Nacional de Resistência. No entanto, o «Partido Colonial» opõe-se às independências dos povos colonizados. A 8 de maio de 1945 dá-se o massacre de Setif (Argélia), sob o comando do general Raymond Duval, a 29 de maio o de Damasco sob o comando do general Fernand Olive. A cidade é bombardeada pela Força Aérea Francesa durante dois dias. Uma grande parte do “souk” histórico é destruído. A Assembleia do Congresso do Povo Sírio é, ela própria, bombardeada.
    Abs…

  11. Obrigado Michelle ! Belo artigo, que vem a complementar esta série histórica. Todos são artigos que a imprensa brasileira não publica.

    Abraços.

  12. Carta de SM Rei Abdullah ibn Hussein da Jordânia à revista “American Prospect”, Nova York, EUA

    Data: Novembro de 1947

    “É prazer especial dirigir-me ao público norte-americano, porque o trágico problema da Palestina não será jamais resolvido sem a simpatia dos norte-americanos, sem seu apoio, sem que compreendam. Já se escreveram, contudo, tantas palavras sobre a Palestina -é talvez o assunto sobre o qual mais se escreveu em toda a história-, que hesito.

    Mas tenho de falar, porque acabei por concluir que o mundo em geral, e os EUA em especial, sabem praticamente nada sobre a causa pela qual os árabes realmente lutam. Nós, árabes, acompanhamos a imprensa dos EUA, talvez muito mais do que os senhores pensem. E nos perturba muito constatar que, para cada palavra impressa a favor dos árabes, imprimem-se mil a favor dos sionistas. Há muitas razões para que isso aconteça. Vivem nos EUA milhões de cidadãos judeus interessados nessa questão. Eles têm vozes fortes, falam muito e conhecem bem os recursos da divulgação de notícias. E há poucos cidadãos árabes nos EUA, e ainda não conhecemos bem as técnicas da propaganda moderna. Os resultados disso têm sido alarmantes.

    Vemos na imprensa dos senhores uma horrível caricatura de nós mesmos e lemos que aquele seria nosso verdadeiro retrato. Para que haja justiça, não podemos deixar que essa caricatura seja tomada por nosso retrato verdadeiro. Nosso argumento é bem simples: por quase 2.000 anos, a Palestina foi quase 100% árabe. Ainda é preponderantemente árabe, apesar do enorme número de judeus imigrantes.

    Mas, se continuar a imigração em massa, em pouco tempo seremos minoria em nossa própria casa. A Palestina é país pequeno e muito pobre, quase do tamanho do estado de Vermont. A população árabe é de apenas 1,2 milhão de pessoas. E fomos obrigados a receber, contra nossa vontade, cerca de 600 mil judeus sionistas. E nos ameaçam com muitos mais centenas de milhares.

    Nossa posição é tão simples e natural, que surpreende que tenha sido questionada. É exatamente a mesma posição que os EUA adotaram em relação aos infelizes judeus europeus. Os senhores lamentam que eles sofram o que sofrem hoje, mas não os querem em seu país. Tampouco nós os queremos em nosso país. Não porque sejam judeus, mas porque são estrangeiros. Não queremos centenas de milhares de estrangeiros em nosso país, sejam ingleses, noruegueses, brasileiros, o que sejam.

    Pensem um pouco: nos últimos 25 anos, fomos obrigados a receber população equivalente a um terço do total de habitantes nativos. Nos EUA, seria o mesmo que o país ser obrigado a receber 45 milhões de estrangeiros, contra a vontade dos norte-americanos, desde 1921. Como os senhores reagiriam a isso?

    Por nossa reação perfeitamente natural, contra sermos convertidos em minoria em nossa terra, somos chamados de nacionalistas cegos e antissemitas impiedosos. A acusação seria cômica, se não fosse tão perigosa.

    Nenhum povo da Terra jamais foi menos antissemita que os árabes. Os judeus sempre foram perseguidos quase exclusivamente por nações ocidentais e cristãs. Os próprios judeus têm de admitir que nunca, desde a Grande Diáspora, os judeus desenvolveram-se com tanta liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Espanha enquanto a Espanha foi possessão árabe. Com pequenas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio, em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes.

    Damasco, Bagdá, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram grandes e prósperas comunidades de judeus. Até o início da invasão sionista na Palestina, esses judeus receberam tratamento mais generoso -muito, muito mais generoso- do que o que receberam na Europa cristã. Hoje, infelizmente, pela primeira vez na história, aqueles judeus começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. Muitos judeus estão tão ansiosos quanto os árabes e querem o fim do conflito. Muitos desses judeus que encontram lar acolhedor entre nós ressentem-se, como nós, com a chegada de tantos estrangeiros.

    Por muito tempo, intrigou-me muito a estranha crença, que aparentemente persiste nos EUA, segundo a qual a Palestina sempre teria sido, de algum modo, “terra dos judeus”.

    Recentemente, conversando com um norte-americano, desfez-se o mistério. Disse-me ele que a maioria dos norte-americanos só sabem, sobre a Palestina, o que lêem na Bíblia. Dado que havia uma terra dos judeus no tempo de que a Bíblia fala, pensam eles, concluem que nada tenha mudado desde então.

    Nada poderia ser mais distante da verdade. E, perdoem-me, é absurdo recorrer ao alvorecer da história, para concluir sobre quem ‘mereceria’ ser dono da Palestina de hoje. Contudo, os judeus fazem exatamente isto, e tenho de responder a este “clamor histórico”. Pergunto-me se algum dia houve no mundo fenômeno mais estranho do que um grupo de pessoas pretender, seriamente, reclamar direitos sobre uma terra, sob a alegação de que seus ancestrais ali teriam vivido há 2.000 anos!

    Se lhes parecer que argumento em causa própria, convido-os a ler a história documentada do período e verificar os fatos.

    Registros fragmentados, que são os que há, indicam que os judeus viviam como nômades e chegaram do sul do Iraque ao sul da Palestina, onde permaneceram por pouco tempo; e então moveram-se para o Egito, onde permaneceram por cerca de 400 anos. À altura do ano 1300 a.C. (pelo calendário ocidental), deixaram o Egito e, gradualmente, dominaram alguns -mas não todos- os habitantes da Palestina.

    É significativo que os Filisteus -não os judeus- tenham dado nome ao país. “Palestina” é, simplesmente, a forma grega equivalente a “Philistia”.

    Só uma vez, durante o império de David e Salomão, os judeus chegaram a controlar quase toda -mas não toda- a terra que hoje corresponde à Palestina. Esse império durou apenas 70 anos e terminou em 926 a.C. Apenas 250 anos depois, o Reino de Judá já estava reduzido a uma pequena província em torno de Jerusalém, com território equivalente a 1/4 da Palestina de hoje.

    Em 63 a.C., os judeus foram conquistados pelo romano Pompeu, e nunca mais voltaram a ter nem vestígio de independência. O imperador Adriano, romano, finalmente os subjugou em cerca de 135 d.C. Adriano destruiu Jerusalém, reconstruiu-a sob outro nome e, por centenas de anos, nenhum judeu foi autorizado a entrar na cidade. Poucos judeus permaneceram na Palestina; a enorme maioria deles foi assassinada ou fugiu para outros países, na Diáspora, ou Grande Dispersão. Desde então, a Palestina deixou de ser terra dos judeus, por qualquer critério racional admissível.

    Isto aconteceu há 1.815 anos. E os judeus ainda aspiram solenemente à propriedade da Palestina! Se se admitir esse tipo de fantasia, far-se-á dançar o mapa do mundo!

    Os italianos reclamarão a propriedade da Inglaterra, que os romanos dominaram por tanto tempo. A Inglaterra poderá reclamar a propriedade da França, “pátria” dos normandos conquistadores. Os normandos franceses poderão reclamar a propriedade da Noruega, “pátria” de seus ancestrais. Os árabes, além disso, poderemos reclamar a propriedade da Espanha, que dominamos por 700 anos.

    Muitos mexicanos reclamarão a propriedade da Espanha, “pátria” de seus pais ancestrais. Poderão exigir a propriedade também do Texas, que pertenceu aos mexicanos até há 100 anos. E imaginem se os índios norte-americanos reclamarem a propriedade da terra da qual foram os únicos, nativos, ancestrais donos, até há apenas 450 anos!

    Nada há de caricato, aí. Todas essas aspirações e demandas são tão válidas e justas -ou tão fantasiosas- quanto a “ligação histórica” que os judeus alegam ter com a Palestina. Muitas outras ligações históricas são muito mais válidas do que esta.

    De qualquer modo, a grande expansão muçulmana, dos anos 650 d.C., definiu tudo e dominou completamente a Palestina. Daquele tempo em diante, a Palestina tornou-se completamente árabe, em termos de população, de língua e de religião. Quando os exércitos britânicos chegaram à Palestina, durante a última guerra, encontraram 500 mil árabes e apenas 65 mil judeus.

    Se uma sólida e ininterrupta ocupação árabe, por 1.300 anos, não torna árabe um país… o que mais seria preciso?

    Os judeus dizem, com razão, que a Palestina é a terra de sua religião. Parece ser o berço da cristandade. Mas, que outra nação cristã faz semelhante reivindicação? Quanto a isto, permitam-me lembrar que os cristãos árabes -e há muitas centenas de milhares de cristãos árabes no mundo árabe- concordam absolutamente com todos os árabes, e opõem-se, também, à invasão sionista da Palestina.

    Permitam-me acrescentar, também, que Jerusalém, depois de Meca e Medina, é a cidade mais sagrada no Islam. De fato, nos primórdios de nossa religião, os muçulmanos rezávamos voltados para Jerusalém, não para Meca.

    As “exigências religiosas” que os judeus fazem, em relação à Palestina, são tão absurdas quanto as “exigências históricas”. Os Lugares Santos, sagrados para três grandes religiões, devem ser abertos a todos, não monopólio de qualquer delas. E não confundamos religião e política.

    Tomam-nos por desumanos e sem coração, porque não aceitamos de braços abertos talvez 200 mil judeus europeus, que sofreram tão terrivelmente a crueldade nazista e que ainda hoje -quase três anos depois do fim da guerra- ainda definham em campos gelados, deprimentes. Permitam-me destacar alguns fatos.

    A inimaginável e imperdoável perseguição aos judeus não foi obra dos árabes: foi obra de uma nação cristã e ocidental.

    A guerra que arruinou a Europa e tornou impossível que esses judeus se recuperassem foi guerreada exclusivamente entre nações cristãs e ocidentais. As mais ricas e mais vazias porções do planeta pertencem, não aos árabes, mas a nações cristãs e ocidentais.

    Mesmo assim, para acalmar a consciência, essas nações cristãs e ocidentais pedem à Palestina -país muçulmano e oriental muito pequeno e muito pobre- que aceite toda a carga. “Ferimos terrivelmente esta gente”, grita o Ocidente para o Oriente. “Será que vocês podem tomar conta deles, por nós?” Não vemos aí nem lógica nem justiça. Não somos, os árabes, “nacionalistas cruéis e sem coração”?

    Os árabes somos povo generoso: nos orgulhamos de “a hospitalidade árabe” ser expressão conhecida em todo o mundo. Somos solidários: a ninguém chocou mais o terror hitlerista do que aos árabes. Ninguém lastima mais do que os árabes o suplício pelo qual passam hoje os judeus europeus.

    Mas a Palestina já acolheu 600 mil refugiados. Entendemos que ninguém pode esperar mais de nós -nem poderia esperar tanto. Entendemos que é chegada a vez de o resto do mundo acolher refugiados, alguns deles, pelo menos.

    Serei completamente franco. Há algo que o mundo árabe simplesmente não entende.

    Dentre todos os países, os EUA são os que mais pedem que se faça algo pelos judeus europeus sofredores. Este pedido honra a humanidade pela qual os EUA são famosos e honra a gloriosa inscrição que se lê na Estátua da Liberdade.

    Contudo, os mesmos EUA -a nação mais rica, maior, mais poderosa que o mundo jamais conheceu- recusa-se a receber mais do que um pequeníssimo grupo daqueles mesmos judeus!

    Espero que os senhores não vejam amargura no que digo. Tentei arduamente entender este misterioso paradoxo. Mas confesso que não entendo. Nem eu nem nenhum árabe.

    Talvez tenham ouvido dizer que “os judeus europeus querem ir para a Palestina e nenhum outro lugar lhes interessa.”

    Esse mito é um dos maiores triunfos de propaganda, da “Agência Judaica para a Palestina”, a organização que promove com zelo fanático a emigração para a Palestina.

    É sutil meia-verdade; portanto, é duplamente perigosa.

    A estarrecedora verdade é que ninguém no mundo realmente sabe para onde esses infelizes judeus realmente querem ir!

    Imaginar-se-ia que, tratando-se de questão tão grave, os americanos, ingleses e demais autoridades responsáveis pelos judeus europeus teriam pesquisado acurada e cuidadosamente -talvez por votos-, para saber para onde cada judeu realmente deseja ir. Surpreendentemente, jamais se fez qualquer levantamento ou pesquisa!

    A “Agência Judaica para a Palestina” impediu-o.

    Há pouco tempo, numa conferência de imprensa, alguém perguntou ao Comandante Militar norte-americano na Alemanha o que lhe dava tanta certeza de que todos os judeus quisessem ir para a Palestina. Sua resposta foi simples: “Fui informado por meus assessores judeus.” Admitiu que não houvera qualquer votação ou levantamento. Houve preparativos para uma pesquisa, mas a “Agência Judaica para a Palestina” fez parar tudo.

    A verdade é que os judeus, nos campos de concentração alemães, estão hoje sob intensa pressão de uma campanha sionista, por métodos aprendidos do terror nazista. É perigoso, para qualquer judeu, declarar que prefere outro destino que não seja a Palestina. Essas vozes dissonantes têm sofrido espancamentos severos e castigos ainda piores.

    Também há pouco tempo, na Palestina, cerca de 1.000 judeus austríacos informaram à organização internacional de refugiados que gostariam de voltar à Áustria e já se planejava o seu repatriamento.

    Mas a “Agência Judaica para a Palestina” soube desses planos e aplicou forte pressão política para que o repatriamento não acontecesse. Seria má propaganda, contrária aos interesses sionistas, que houvesse judeus interessados em deixar a Palestina. Os cerca de 1.000 austríacos ainda estão lá, contra a vontade deles.

    O fato é que a maioria dos judeus europeus são ocidentais, em termos de cultura e práticas de vida, com experiência e hábitos urbanos. Não são pessoas das quais se deva esperar que assumam o trabalho de pioneiros, na terra dura, seca, árida da Palestina.

    Mas é verdade, sim, pelo menos um fato. Como estão postas hoje as opções, a maioria dos judeus europeus refugiados, sim, votarão por serem mandados para a Palestina, simplesmente porque sabem que nenhum outro país os acolherá.

    Se os senhores ou eu tivermos de escolher o campo de prisioneiros mais próximo, para ali vivermos a vida que nos reste, ou a Palestina, sem dúvida também escolheríamos a Palestina.

    Mas dêem alternativas aos judeus, qualquer outra possibilidade, e vejam o que acontece!

    Contudo, nenhuma pesquisa ou escolha terá alguma utilidade, se as nações do mundo não se mostrarem dispostas a abrir suas portas -um pouco, que seja- aos judeus. Em outras palavras, se, consultado, algum judeu disser que deseja viver na Suécia, a Suécia deverá estar disposta a recebê-lo. Se escolher os EUA, os senhores terão de permitir que venha para cá.

    Qualquer outro tipo de consulta ou pesquisa será farsa. Para os judeus desesperados, não se trata de pesquisa de opinião: para eles, é questão de vida ou morte. A menos que tenham certeza de que sua escolha significará alguma coisa, os judeus continuarão a escolher a Palestina, para não arriscarem o único pássaro que já têm em mãos, por tantos que voam tão longe.

    Seja como for, a Palestina já não pode aceitar mais judeus. Os 65 mil que havia na Palestina em 1918, saltaram hoje para 600 mil. Nós árabes também crescemos, em número, e não por imigração. Os judeus eram apenas 11% da população, naquele território. Hoje, são um terço.

    A taxa de crescimento tem sido assustadora. Em poucos anos -a menos que o crescimento seja detido agora- haverá mais judeus que árabes, e seremos significativa minoria em nossa própria terra.

    Não há dúvida de que o planeta é rico e generoso o bastante para alocar 200 mil judeus -menos de um terço da população que a Palestina, minúscula e pobre- já abriga. Para o resto do mundo, serão mais alguns. Para nós, será suicídio nacional.

    Dizem-nos, às vezes, que o padrão de vida árabe melhorou, depois de os judeus chegarem à Palestina. É questão complicada, dificílima de avaliar.

    Mas, apenas para argumentar, assumamos que seja verdade. Neste caso, talvez fôssemos um pouco mais pobres, mas seríamos donos de nossa casa. Não é anormal preferirmos que assim seja.

    A triste história da chamada “Declaração de Balfour”, que deu início à imigração dos sionistas para a Palestina, é complicada demais para repeti-la aqui, em detalhes. Baseia-se em promessas feitas aos árabes e não cumpridas -promessas feitas por escrito e que não se podem cancelar.

    Declaramos que aquela declaração não é válida. Declaradamente negamos o direito que teria a Grã-Bretanha de ceder terra árabe para ser “lar nacional” de um povo que nos é completamente estranho.

    Nem a sanção da Liga das Nações altera nossa posição. Àquela altura, nenhum país árabe era membro da Liga. Não pudemos dizer sequer uma palavra em nossa defesa.

    Devo dizer -e, repito, em termos de franqueza fraterna-, que os EUA são quase tão responsáveis quanto a Grã-Bretanha, por essa “Declaração de Balfour”. O presidente Wilson aprovou o texto antes de ser dado a público, e o Congresso dos EUA aprovou-o, palavra por palavra, numa resolução conjunta de 30 de junho de 1922.

    Nos anos 1920, os árabes foram perturbados e insultados pela imigração dos sionistas, mas ela não nos alarmou. Era constante, mas limitada, como até os sionistas pensavam que continuaria a ser. De fato, durante alguns anos, mais judeus deixaram a Palestina, do que chegaram -em 1927, os que partiram foram o dobro dos que chegaram.”

    FONTE: texto recebido por este blog ‘democracia&política’ (via leitor Probus) oriundo de tradução de Caia Fittipaldi do documento “COMO OS ÁRABES VÊEM OS JUDEUS”, escrito pelo Rei Abdullah da Jordânia em novembro de 1947 e enviado à revista “American Prospect” de Nova York, EUA . Postado no blog “Grupo Beatrice” ((http://grupobeatrice.blogspot.com/2010/06/aos-cidadaos-norte-americanos.html) [imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

    Postado por Tereza Braz

      • Pois sim, Ricardo Sales, a carta é de 1936 e já mostrava a opressão dos alauítas, que na altura tinham uma pátria própria, separada da Síria. A carta é sincera e comovente.

        Hoje o quadro geopolítico mudou, e é justamente Assad quem protege não só os alauítas (de que faz parte), como os cristãos. Se o EI ALQaeda derrubarem Assad, certamente massacrarão os alauítas e os cristãos, por eles julgados “infiéis”. A Rússia sabe disso, e é um dos motivos porque está combatendo ao lado de Assad. Os Estados Unidos querem derrubar Assad. Mas quem irão colocar no lugar do presidente sírio ? Vão fazer como na Líbia, matando Khadaffi, e gerando o caos, ou como no Iraque, matando Saddam Hussein e também instalando o caos ? Libia e Iraque estão invadidos pelos extremistas do Estado Islâmico. Nem Assad, nem Khadaffi nem Sadam Russein foram ou, no caso de Assad é santo. Todos praticaram muitos crimes. Mas é preciso uma política dos vencedores, com diplomacia, para trocar estes líderes tirânicos por outros líderes que tenham respaldo popular. Talvez façam isso com o apoio da Rússia. O que os Estados Unidos fizeram foi um tremendo fracasso. Só fizeram proliferar o terrorismo, que agora financiam !

  13. Prezado Ednei Freitas,
    Descartar a Rússia como parceira dos Estados Unidos em terrorismo na Síria é um atentado ao bom senso, à verdade, à isenção, por favor!
    Não há mocinhos entre americanos e russos, só bandidos.
    E como podes esquecer o Afeganistão, o Vietnã russo?
    As mortes que os aviões russos e suas belonaves produzem entre o povo sírio, não somente seguidores do Estado Islâmico?
    Ora, condena-se as mortes provocadas pelo Tio Sam, mas elogiamos os assassinatos cometidos pelos russos?
    Não entendo.
    Mais a mais, por que motivos a águia e o urso precisam intervir na Síria?
    Acreditar que um defende o ditador Assad e, o outro, quer a sua queda, é crer na Fada do Dente, pois ambos estão matando o povo árabe indiscriminadamente sob este pretexto absolutamente falso.
    E pedem desculpas com a cara mais deslavada quando “erram” o alvo.
    Olha, Ednei, afora as matanças produzidas pelas duas potências, o resto é o resto, pois, a meu ver, a questão precípua aborda o lado humano, que se antepõe à política, então como justificar e apoiar a matança do lado russo e acusar e repudiar a chacina americana?
    Saudações.

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