Se a Câmara aprovar o impeachment, Senado não terá como negar

Renan já começou a dizer que não é governo nem oposição…

Jorge Bastos Moreno
O Globo

Se a Câmara aprovar o impeachment, o Senado não terá condições políticas de negar a continuidade do processo contra a presidente da República, por crime de responsabilidade. A chamada Câmara Alta anda muito em baixa, já que nela habitam importantes atores da Lava-Jato, a começar pelo seu presidente. Logo, falta-lhe lastro de credibilidade e, principalmente, coragem cívica para o confronto com a outra Casa e com a parcela da sociedade favorável ao impedimento de Dilma Rousseff.

Mesmo considerada pelo próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha, outro personagem de Curitiba, como “apenas um rito de passagem, pois o que importa é a votação do plenário”, a decisão da Comissão do Impeachment terá um peso muito maior do que se pensa na votação de domingo, até porque ela impede moralmente qualquer fechamento de questão contra a matéria, salvo no caso do PT e do seu indefectível coadjuvante PCdoB, mas que dispensam a utilização desse instrumento de disciplina partidária.

SEM APOIO

O clima exacerbado da comissão na segunda-feira, principalmente a subida de tom do ministro José Eduardo Cardozo e o exasperado discurso do líder do PT, Afonso Florence, revelaram que o governo não dispõe do decantado apoio para barrar o impeachment.

Da mesma forma, a oposição não conseguiu fechar a segunda-feira com os 342 votos que precisa para desalojar a presidente. Espera tê-los ao longo da semana e prevê que eles cheguem a 380.

É preciso que surja até lá um fato novo, capaz de mudar radicalmente os resultados. Dizia-se que, se surgir, esse fato só prejudicaria o governo. Mas, na segunda-feira, o vazamento do áudio do vice Michel Temer fez tremer a base oposicionista.

EXEMPLO DE COLLOR

Logo, chegou-se à conclusão de que Temer estava docemente constrangido com o acidente. Entre tantas conveniências do vazamento estava o compromisso do vice, já reafirmado em entrevista ao Globo por Moreira Franco, de que, assumindo, não vai acabar com os programas sociais do governo.

É preciso não se esquecer das surpresas das grandes votações, inclusive no impeachment de Collor, como o caso do então deputado Onaireves Moura, que ofereceu um jantar para o presidente às vésperas da votação, e depois dessa última ceia, disse não à permanência do seu comensal.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGOnaireves é Severiano ao contrário. Foi um dos muitos parlamentares que traíram Collor em 1992. Sete anos antes, em 1985, na eleição indireta para a Presidência, Paulo Maluf “negociou” votos com grande número de parlamentares e levou uma lavagem de Tancredo Neves. Como se sabe, Collor e Maluf jamais cobraram essas contas, digamos assim. Dilma é a próxima vítima e também será traída. Esses acontecimentos políticos fazem lembrar uma criação histórica de Nelson Rodrigues, meu companheiro de redação em O Globo e muito amigo de Pedro do Coutto – a peça “Perdoa-me por me traíres”. (C.N.)

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