Um samba de situação-limite, na inspiração de Martinho e João de Aquino

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Martinho e Gabriel, filho do parceiro João de Aquino

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O escritor, cantor e compositor Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila (Isabel), nascido em Duas Barras (RJ), expressa na letra de “Pensando Bem”, em parceria com João de Aquino, uma mistura de revolta e resignação de um casal numa situação-limite sugerida. Este belíssimo samba foi gravado por Luiza Dioniozio, no CD Devoção, em 2009.

PENSANDO BEM
João de Aquino e Martinho da Vila

Irmão
A gente não tem nem mais o que comer
Trabalho não há também pra laborar
Então o que é que a gente vai fazer

Mulher
Eu acho que a gente vai ter de roubar
Sair pelas ruas botar pra quebrar
De fome é que a gente não pode morrer

Não sei
Pensando bem acho que não vai dar
Roubar contraria as leis do Senhor
E a justiça dos homens vai nos condenar

4 thoughts on “Um samba de situação-limite, na inspiração de Martinho e João de Aquino

  1. Otimo, Paulo Peres! Trouxe-nos a ginga do outro de Vila – Martinho. Seu jeito vagaroso de acompanhar a música dançando, uma delicia.
    Desde “O pequeno burguês” que curto Martinho da Vila. Ele era um sargento e tinha um colega que se formara em Direito, mas não convidou ninguém para a formatura. Todos deram um gelo no colega, até que um dia ficou tudo esclarecido. O formando, nem nem foi receber o canudo porque , a situação , não permitia . Na verdade, nem mesmo ele havia ido ao baile de formatura. Salário de sargento era baixo e não dava para comprar paletó, beca, anel e outras exigências formais para participar do evento. Informou, ainda, que recebera o “canudo”, posteriormente, diretamente do diretor da faculdade.

  2. Lúcio Barbosa :

    Tá vendo aquele edifício moço
    Ajudei a levantar
    Foi um tempo de aflição, era quatro condução
    Duas pra ir, duas pra voltar
    Hoje depois dele pronto
    Olho pra cima e fico tonto
    Mas me vem um cidadão
    E me diz desconfiado
    “Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar”
    Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido
    Dá vontade de beber
    E pra aumentar meu tédio
    Eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer
    Tá vendo aquele colégio moço
    Eu também trabalhei lá
    Lá eu quase me arrebento
    Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar
    Minha filha inocente veio pra mim toda contente
    “Pai vou me matricular”
    Mas me diz um cidadão:
    “Criança de pé no chão aqui não pode estudar”
    Essa dor doeu mais forte
    Porque que é que eu deixei o norte
    Eu me pus a me dizer
    Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava
    Tinha direito a comer
    Tá vendo aquela igreja moço, onde o padre diz amém
    Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo
    Lá eu trabalhei também
    Lá foi que valeu a pena, tem quermesse, tem novena
    E o padre me deixa entrar
    Foi lá que Cristo me disse:
    “Rapaz deixe de tolice, não se deixe amedrontar
    Fui eu quem criou a terra
    Enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar
    Hoje o homem criou asas e na maioria das casas
    Eu também não posso entrar”

  3. Muito triste esta música, Virgilio. Triste e bonita. Foi gravada também por Zé Geraldo, Zé Ramalho e outros. Este é um cidadão brasileiro de ontem e de hoje. Nada mudou.

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