Em um ano, dvida interna sobe 15% e atinge 2,3 trilhes

Pedro do Coutto

Uma velocidade espantosa: a dvida interna mobiliria do pas (ttulos pblicos em poder do mercado e na carteira do Banco Central) deu um salto da ordem de 15%, passando de 2 trilhes e 18 bilhes, em 2009, para 2 trilhes e 313 bilhes de reais em 2010. Assim, num espao de apenas doze meses, avanou na escala de 295 bilhes.

Impossvel ao governo pag-la. No s pelo volume, mas principalmente porque, enquanto a inflao registradapelo IBGE foi de 5,9 pontos, a dvida, portanto, elevou-se na percentagem real de 9,1%. No houve apenas correo de valores. Houve adio.

Um problema para a economia brasileira, um desafio para a presidente Dilma Rousseff, uma vez que em cima de 2 trilhes e 313 bilhes incide a taxa Selic no valor de 11,25% ao ano. O desembolso ao longo de um exerccio, combase nos valores atuais, passa de 230 bilhes. fcil calcular o reflexo financeiro. Ela atinge praticamente 60% do PIB.

Difcil estimar as conseqncias econmicas e sociais no panorama nacional. O programa de investimentos pblicos para 2011, por exemplo, est projetado em 96 bilhes de reais. Menos da metade do que todos ns, no fundo da questo, pagamos pela rolagem da dvida junto aos bancos. Estes, como se constata, passaram a ganhar muito mais de 2009 para 2010. E agora em 2011. Recebiam 10,75% sobre 2 trilhes e 18 bilhes. Recebem, atualmente, 11,25% sobre 2 trilhes e 313 bilhes.

Um bom negcio, no? Para eles, banqueiros. Pssimo para toda a populao que no consegue escapar da concentrao de renda em consequncia. s cotejar os 11,25% pagos rede bancria, os reajustes salariais, colocando-se a inflao (do IBGE ou da Fundao Getlio Vargas) no vrtice do tringulo. Como redistribuir a renda nacional num esquema assim? Impossvel.

Os dados a respeito do crescimento da dvida interna foram publicados pelo Secretrio do Tesouro, Arno Hugo Augustin na edio extra do Dirio Oficial de 28 de Janeiro, h poucos dias portanto, num quadro comparativo que comea na pgina 13. Os leitores, assim, esto com a mxima sinalizao possvel para conferir as afirmaes. Fonte mais oficial e precisa do que esta no existe. No se trata de interpretao e sim de certeza.

Na edio normal do mesmo dia 28 de Janeiro, Arno Hugo Augustin j tinha publicado o balano financeiro da Unio relativo ao ano passado. Vimos, na ocasio, que as despesas com juros superavam a soma dos recursos destinados Sade (68,3 bilhes) e Educao (59,9 bilhes de reais). No s ultrapassam, como representam praticamente o dobro. Algo absolutamente desproporcional. Sobretudo porque as aplicaes com o desembolso de juros tornam-se pouco reprodutivas. Exatamente ao contrrio doefeito que os investimentos pblicos apresentam como reflexo nos dois setores. A Sade ento no tem preo. Trata-se de vidas humanas. Nada mais precioso.

Mas infelizmente no esta a preocupao da tecnocracia. Para ela, o ser humano, mais importante que tudo, apenas um nmero, um rosto na multido, como no clssico de Elia Kazan, 1959, objeto alis de crnica de Carlos Heitor Cony, Folha de So Paulo de 1 de fevereiro. Nada mais importante do que o ser humano, j que ele o sujeito e o objetivo da histria. Seja ela de um pas, dele mesmo, ou do universo como um todo. A evoluo concreta da espcie humana depende do que se investir nela. Ela mil vezes mais importante do que as mquinas que, por sinal, ela prpria fabrica. Ela, e suas condies de existncia, deveriam vir na frente. No do outro lado das agncias da rede bancria.

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