Cruzeiro: a tcnica perdeu para a ttica

Pedro do Coutto

Na noite de quarta-feira, no estdio Magalhes Pinto, na deciso da Taa Libertadores da Amrica, a histria eterna do futebol registrou mais um episdio em que a tcnica e a arte perderam para a ttica. a explicao ao mesmo tempo mais simples e mais clara para a vitria do Estudiantes de La Plata sobre o Cruzeiro. O tcnico Adilson Batista no soube traar para o time o caminho lgico para que sasse do esquema de ocupao intensa de espaos do campo estabelecido pelo treinador Alejandro Sabatella. No soube ou ento no foi seguido pela equipe.

Do tnel para o gramado existem sempre diferenas a decifrar. Mas ns, torcedores e observadores, claro, s podemos analisar base do que assistimos nas quatro linhas. No temos os bastidores. Os bastidores so para os profissionais. Em todos os espetculos, sejam esportivos, sejam artsticos, existem os mistrios, os enigmas. Alis, o futebol est cheio deles. o esporte mais livre e fascinante do mundo exatamente por isso. A comear pelo fato de o objeto da disputa, que a bola, encontrar-se permanentemente exposto. S numa ocasio deixa de ser assim: quando est nas mos do goleiro e ele com os ps no cho. Fora disso, livre o choque fsico, cabendo interpretao do juiz consider-lo normal ou no.

Um labirinto que apresenta ao longo de sua magia exemplos em que a ttica neutralizou a tcnica e reduziu a diferena entre a arte o esforo humano de menor brilho. A maioria dos torcedores, claro, no tem condies de decifrar desafios no campo do pensamento. Por este motivo natural, a ttica sempre foi um verdadeiro tabu.

Mas, ao longo do tempo, diminuiu em consequncia das tradues passadas s multides pelo comentarista Joo Saldanha, que em 70 assumiu o comando da Seleo Brasileira. Mas dele foi afastado por Joo Havelange, ento presidente da antiga CBD, hoje CBF, sendo substitudo por Zagalo que se tornou tricampeo do mundo. Mas esta outra questo. Saldanha, a sua grande contribuio cultura esportiva, identificou er traduziu, com o poder de comunicao que tinha, os quadros tticos do futebol. Depois dele, compreendeu-se melhor o 4-2-4, o 4-3-3, o 4-4-2, as posies do lbero e do cabea de rea nas aes defensivas. Porm o futebol continuou evoluindo, sobretudo em matria de preparo fsico, e hoje pode-se dizer que as equipes no tm mais somente onze jogadores. Mas sim 13 e 15, conforme os momentos. Os dois laterais defendem e atacam ao mesmo tempo, AO contrrio de antigamente. E, pelo menos dois homens de meia cancha, antes chamados armadores, voltam para apoiar a defesa.

Os jogadores, hoje, correm muito mais do que corriam ontem.

O Estudiantes de La Plata correu mais do que o Cruzeiro. Combatia o Cruzeiro s a partir de sua intermediria, fechando espaos e atuando de contra ataque. O Cruzeiro foi na onda. E, ao avanar, no se preocupava com a solidez da defesa. No diminuiu os espaos, isso fundamental, entre a ofensiva e a defensiva. As estocadas do time argentino transcorriam pelas estradas abertas aos lanamentos de meia distncia. Adilson Batista no conseguiu compactar a equipe.

Isso de um lado. De outro, os mineiros cometeram um erro grave em matria de futebol: centralizaram demais as jogadas com Kleber. timo jogador, integrante da Seleo de Dunga, mas no futebol ningum vence sozinho. um jogo de equipe. Alejandro Sabatella concentrou a marcao argentina nele, o espao para o Cruzeiro ficou curto e tudo se complicou. Bola na trave no final do jogo? Houve o chute de Tiago Ribeiro. Se entra, a partida iria para a prorrogao. Mas a histria do futebol est repleta de bolas na trave. E de tticas neutralizando a tcnica. O Cruzeiro perdeu a Taa para si mesmo. No soube se livrar de uma teia em ritmo de tango.

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