Poltica externa e poder – um histrico de dominao

Adriano Benayon

Ningum se engane: habilidade diplomtica, discursos e boa conversa no poupam pas algum da dominao estrangeira . Muitos brasileiros tm especial interesse pela poltica externa. Temos longa tradio diplomtica, que remonta aos portugueses. Estes tentavam suprir a falta de poder militar com habilidade nas negociaes. Mas s foi possvel conseguir resultados em funo de algum poder nacional prprio e de divergncias ou conflitos entre potncias mais poderosas.

H a histria de uma diplomacia, em geral, vitoriosa, na poca do Imprio e incio da Velha Repblica, liderada pelo Baro do Rio Branco, na fixao dos limites, atravs de pleitos jurdicos submetidos a arbitragem. Mas isso s prevaleceu em relao a vizinhos cujo poder nacional e militar no superava o do Brasil, e quando no contrariava os interesses da Inglaterra. Ademais, os litgios fronteirios com o Paraguai s foram resolvidos aps a derrota desse pas na Guerra da Trplice Aliana.

Na questo com a Guiana Inglesa, os britnicos fizeram que o laudo do Rei da Itlia os favorecesse. Assim, o Brasil perdeu a regio do Pirara, e os britnicos lograram acesso Bacia Amaznica. Depois, com Collor e Jarbas Passarinho, arrancaram a demarcao da regio atribuda a ndios ianommis.

Com ONGS, financiadas pelas potncias oligrquicas, dando as cartas, os brasileiros vm sendo alijados dessas reas dotadas de colossais jazidas de minerais raros, estratgicos e preciosos. FHC cedeu mais espaos quelas potncias, e estas obtiveram, com Lula, a demarcao da Reserva Raposa do Sol, em Roraima.

Portanto, a questo para a qual a estratgia de segurana e defesa nacional deve atentar no so tanto eventuais conflitos regionais, mas, sim, a presso que as potncias hegemnicas extracontinentais exercem sobre o Brasil para controlar os recursos naturais e a economia do Pas.

Isso elas vm conseguindo de h muito, especialmente desde 1954, apossando-se da indstria e dos demais setores. Alm disso, a partir de 1988, ditas potncias tm dados passos sucessivos para retirar do Brasil at mesmo a soberania sobre os riqussimos territrios indgenas e de reservas ambientais, onde instalam o poder de agncias de cooperao, de organizaes internacionais – que tambm controlam e das ONGs.

J no so frequentes, como no Sculo XIX e na 1 metade do XX, os conflitos regionais, embora aconteam, no raro, guerras por procurao, em que pases vizinhos guerreiam entre si, cada um representando interesses de uma potncia mundial.

Desde os anos 70 do Sculo XX, as guerras mais frequentes no deveriam ser assim qualificadas, tratando-se, na realidade, de intervenes militares de potncias superarmadas contra naes praticamente indefesas, que tenham impedido, reduzido ou dificultado a entrega de seus recursos, notadamente o petrleo, nas condies desejadas por aquelas potncias.

Exemplos so as intervenes contra o Iraque, em 1990/1991, e a perpetrada contra o Afeganisto, iniciada em 2001, e contra o Iraque, em 2003. Agora, os ataques de EUA, Reino Unido e Frana sobre a Lbia.

evidente, portanto, que o Brasil est em situao muito difcil, da qual precisa sair, pois o pas que tem em seu territrio os recursos naturais de todo tipo, os mais valiosos do Planeta, e estes vo para o exterior em quantidades cada vez maiores, enquanto os problemas se avolumam: desindustrializao; desnacionalizao; aumento do nmero de pobres; servios pblicos em constante deteriorao; impostos elevados; os juros mais altos do mundo; inflao em alta; cmbio supervalorizado; servio da dvida em R$ 400 bilhes por ano; infra-estrutura, educao e cultura destroadas.

Como sair dessa situao sem contrariar a oligarquia financeira anglo-americana, que busca o governo mundial? Sendo claro que ela no vai gostar de perder o controle da fonte quase inesgotvel de recursos naturais que o Brasil, a mais urgente das prioridades do Pas reindustrializar-se e ganhar crescente domnio sobre as tecnologias utilizadas na produo.

Sem isso, no existe defesa nacional, e, sem esta, um pas no tem como assegurar seus direitos, nem em casa, nem nas relaes internacionais. Spinoza, grande filsofo do Sculo XVII, est mais atual que nunca: o direito decorre do poder.

Na guerra das Malvinas, os msseis Exocet, importados da Frana tornaram-se incuos, porque a Frana cedeu Inglaterra os cdigos dessas armas.

Outra lio: estava-se em 1982, e o governo militar argentino havia feito muitas concesses e prestado servios poltica imperial dos EUA na Amrica Central. Acreditava, assim, que os EUA ajudariam ou ficariam neutros na guerra contra a Inglaterra. Nada disso: a oligarquia britnica e a norte-americana so associadas, e seus pases, membros da OTAN. Assim, os EUA forneceram informaes de satlites e outras a seus parceiros imperiais.

Essa lio corroborada pelo caso do Iraque, que, apoiado potncias ocidentais, e mais a Rssia, movera guerra contra o Ir, que durou de 1980 a 1988. Nem assim, o Ir foi derrotado.

Depois, o Iraque caiu na cilada anglo-americana, convidado a invadir o Coveite, pretexto para o massacre da guerra do Golfo, em 1990, quando torrentes de msseis e bombas com pontas de urnio destruram os armamentos e cidades iraquianas, imolando centenas de milhares de militares e civis, alm de causar letal contaminao nuclear.

Depois, Sadam tomou algumas iniciativas positivas para seu pas, que desagradaram a oligarquia anglo-americana. Fortemente pressionado, voltou a fazer concesses, abandonando o programa nuclear e abrindo as instalaes s inspees da Agncia Internacional de Energia Atmica. Mas o Iraque sofreu nova e brutal agresso, invadido, em 2003, aps novos ataques destruidores.

A Lbia tem em comum com o Iraque o fato de possuir estupendas jazidas de petrleo leve. Alm disso, o governo de Gadfi foi um dos raros a investir em infra-estrutura produtiva e no bem-estar coletivo a maior parte das receitas de exportao, desde os anos 60, quando esse lder de um pas atrasado e tribal derrubou a monarquia vinculada a potncias estrangeiras.

Entretanto, Gadfi resolveu melhorar sua imagem no Ocidente e fez concesses a interesses imperiais, alm de ter renunciado a desenvolver seu programa nuclear, o que no livrou a Lbia dos brutais ataques armados que lhe esto sendo infligidos.

Como no caso do Iraque, isso provavelmente estimulou esses ataques. Moral da oligarquia anglo-americana: Voc se desarmou? Ento, melhor. Assim, nossas foras atacaro com mais facilidade.

Intil, portanto, se no contraproducente, tentar conciliar-se com o Imprio. Ningum se engane: habilidade diplomtica, discursos e boa conversa no poupam pas algum da dominao estrangeira e de sofrer brutais intervenes armadas, se no tem capacidade militar dissuasria.

Entre os golpes militares telecomandados, recorde-se a queda do Presidente Vargas, o ltimo a ter tido xitos significativos protegendo os interesses nacionais. Em 1952, ele no eliminou na origem as traies de Joo Neves da Fontoura, Ministro das Relaes Exteriores, e do General Pedro Aurlio de Gis Monteiro, Chefe do Estado-Maior das Foras Armadas.

Esses negociaram acordo militar com os EUA, lesivo ao Pas e denunciado pelo governo de Geisel em 1977. Esse acordo fez o Brasil adquirir material militar sucatado nos EUA, pagar por ele preos altssimos e ficar importando peas e sobressalentes. Ademais, retardou o desenvolvimento e a fabricao desse material no Brasil.

A negociao foi feita sem conhecimento do Ministro da Guerra, Estillac Leal, que, ao dela saber, se demitiu, no tendo sido sustentado por Vargas. Nesse momento, o presidente comeou a cavar sua sepultura, por no ter tomado as medidas que se impunham: desautorizar a assinatura do acordo e demitir os que se comportaram como agentes do Imprio.

Estillac Leal era lder da corrente nacionalista do Exrcito e fez muita falta a Vargas, pois os servios secretos estrangeiros j estavam montando a conspirao que levou sua derrubada em 1954.

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