Retaliação de Trump e embaixada em Jerusalém exibem política externa amadora

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Charge do Fraga (Arquivo Google)

Vera Magalhães
Estadão

Na semana que passou, Donald Trump, o amigão dos Bolsonaro, anunciou a sobretaxação ao aço e ao alumínio brasileiros, nossa política ambiental foi gongada na COP-25 e vimos Eduardo Bolsonaro, que não virou embaixador, mas segue dando pitacos em política externa, voltar a pregar a transferência da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. Resumo da ópera bufa? 2019 foi um ano em que retrocedemos em política externa.

Volto ao tema que já tratei aqui pelo menos em duas ocasiões: logo no início do governo, depois que o olavismo se instalou no Itamaraty e na antessala de Jair Bolsonaro, e às vésperas do discurso do presidente na abertura da Assembleia-Geral da ONU.

MOTIVO DE PIADA– Nas duas ocasiões meu ponto era o mesmo: ideologização extrema e sem amparo no pragmatismo e em dados levaria nossa política externa a ser motivo de piada no exterior. E é nessa condição que chegamos ao fim do ano.

Bolsonaro tascou um “I love you” para seu colega de madeixas alaranjadas um dia depois de subir ao púlpito da ONU e mandar ver em ideologia de gênero, defesa de exploração mineral em reservas indígenas, marxismo cultural e todos os outros clichês do bolsolavismo.

A declaração de amor era apenas mais uma demonstração de subserviência a Trump, depois de o filho 03 desfilar por Washington com um boné ridículo, pai, filho, chanceler e o assessor especial Filipe Martins passearem pela Casa Branca achando que eram da casa e Bolsonaro ensaiar mandar Dudu para um intercâmbio para se aprimorar na arte de fritar hambúrgueres.

SÓ HOUVE PERDAS – Nada disso resultou em ganhos para o Brasil. O país fez uma série de concessões unilaterais aos norte-americanos (a Base de Alcântara, a liberação de visto para cidadãos norte-americanos, a elevação de importação de etanol sem contrapartida), mas assistiu, em retribuição, ao governo dos EUA barrar nossa entrada mais rápida na OCDE, manter barreiras sanitárias à nossa carne e, agora, sobretaxar aço e alumínio.

O caso da nossa relação com a China é emblemático, também. Em meio à guerra comercial de Trump com Pequim, os EUA pressionam para que o Brasil não adote a tecnologia chinesa do 5G.

Em entrevista na semana passada, Filipe Martins mostrou preocupação com o tema, sugerindo que há opções europeias (Nokia? Ericsson? Sério?) à comprovadamente superior tecnologia chinesa. Vamos, de novo, ser subservientes a um interesse que não é nosso?

FAZENDO LOBBY – Gongado para a embaixada, Eduardo foi com o irmão Flávio para Abu Dhabi para engrossar o lobby pela transferência, à custa de rios de dinheiro público, da Fórmula-1 de São Paulo para o Rio. Detalhe: apesar da pinta de surfista e do sotaque, Dudu é deputado eleito por… São Paulo!

Em entrevista a uma emissora israelense, voltou a pregar a transferência da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, uma patacoada para agradar o eleitorado e os aliados evangélicos às vésperas da criação do novo partido, a Aliança pelo Brasil, de forte inclinação neopentecostal.

De novo, os interesses do País sacrificados no altar da ideologia, do obscurantismo religioso e da agenda da família Bolsonaro.

2020 VEM AÍ – O ano de 2020 será tenso no cenário externo. As eleições nos EUA, com Trump favorito, mas pressionado pelo processo de impeachment, o desenlace imprevisível da guerra comercial com a China, o acordo União Europeia-Mercosul precisando ser chancelado e uma recessão global no horizonte, tudo isso exigirá do Brasil, mais do que nunca, maturidade nas negociações e fim de paixões ideológicas ou puramente paranoicas que têm norteado nossa ação diplomática.

Não parece que nosso time olavete esteja minimamente equipado para dar conta do recado, como os resultados vexatórios de 2019 deixaram patente.

10 thoughts on “Retaliação de Trump e embaixada em Jerusalém exibem política externa amadora

  1. O Brasil é um dos poucos países do mundo que existem jornalistas especialistas em tudo, ao contrário dos países civilizados em que existem especialistas somente para cada tipo de questão.

    Viva nóis
    Nóis joga nas onze.

  2. Qual o motivo de estranhar a eleição de Eduardo Bolsonaro por São Paulo? Quantos não paulistas já se elegeram por lá? O Alexandre Frota, tão querido agora da “boa política”, também nasceu no Rio de Janeiro.

  3. Aposto com quem quiser que depois da reeleição do Trump ele cara vira presidente de fato. Sabendo que não tem uma terceira chance para acertar ele vai assinar o tal acordo com os chineses, bom para os dois lados. E talvez até amoleça um pouco com a Eurolândia, porque àquela hora aquela gente já estará fazendo qualquer acordo com o Trump. E nós na ilusão de que o Trump é “amigo” deste boçal. E eeste acreditando que o Trump é amigo dele.

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