1967, O PODER MILITAR NO BRASIL: anlise, exame da situao, concluso apenas temporria. Os civis sempre se submeteram aos militares, at que a partir de 1964, perderam o comando mas mantiveram as mordomias

Foi o general Ges Monteiro (com quem fiz a minha primeira entrevista assinada, l se vo 20 anos), que classificou o Exrcito como o grande mudo. Ges Monteiro, que era um dos intelectuais formados pela famosa Misso Gamelin (o mesmo general que por incompreenso de mtodos e por no perceber que o tempo passa inexorvel e torna obsoletas at as armas e as tcnicas da guerra, levou a Frana melanclica derrota diante dos Exrcitos modernos de Hitler) era irreverente, autoritrio, mas inegavelmente inteligente, e sabia o que dizia.

E por ser sempre o grande mudo, o Exrcito brasileiro continua iludido por alguns militares que falam demais ou almejam demais, e que falam pelo Exrcito, sem procurao e muitas das vezes sem ttulos para isso.

Mas se formos pesquisar na Histria brasileira, sem precisar ir muito longe, veremos que na maioria das vezes, esses que falam pelo Exrcito (alguns mais pomposos ou mais ambiciosos chegam a falar pelas Foras Armadas) no passam de blefadores, de aproveitadores, e algumas vezes de ingnuos que pensam mesmo que representam o Exrcito, e que o que esto dizendo reproduz mesmo o pensamento da maioria dos seus camaradas.

Em 1930, quando Getulio Vargas, Osvaldo Aranha e seus companheiros desceram do Rio Grande numa revoluo que nem eles mesmos sabiam a projeo que alcanaria e as vitrias e as frustraes que seriam semeadas igualmente no seu caminho, o general Sezefredo Passos, Ministro da Guerra de Washington Luiz, entregou ao presidente um relatrio oficial (portanto, uma informao e no um informe) dizendo que o Exrcito estava coeso em torno do seu chefe, que no havia a menor discrepncia nem descontentamento, e que a unidade do Exrcito no se abalaria com inconscincia de um grupo de jovens imaturos.

Antes de travar a primeira batalha sria, Washington Luiz j estava deposto e a caminho do exterior, os revolucionrios instalados no Catete, e o relatrio oficial sobre a unidade do Exrcito em torno do Presidente, um papel sem a menor importncia, sepultado em algum arquivo empoeirado.

Muitas vezes esses relatrios e essas concluses sobre a unidade do Exrcito como um bloco monoltico, so feitos at com a maior boa f.

Mas o problema que os homens que fazem esse levantamento, tm tambm as suas fragilidades e fraquezas, sofrem as deformaes profissionais do meio, tm que enfrentar a rigidez natural de uma profisso onde o superior pode tudo e o inferior obedece ou punido, mesmo que essa obedincia se faa com constrangimento e debaixo da mais completa inibio.

Em suma: esses relatrios valem apenas o que vale o poder de observao de quem os faz, a sua capacidade de conhecer e sentir os homens, e at a autonomia que lhe do para se movimentar dentro de um meio que condicionado por tantas coisas, sendo principais delas, a disciplina, a hierarquia e o respeito quase mstico ou medieval ao superior.

Um s exemplo: quando mais ativa era a disputa militar entre o presidente Castelo Branco e o seu ministro da Guerra Costa e Silva, o primeiro despachou observadores para vrios pontos do pas, para saber se, no caso de uma rutura do sistema, com quem ficaria o Exrcito. Um dos observadores foi o ento coronel Reinaldo de Almeida (hoje general, filho do grande Jos Amrico, uma das maiores figuras da vida pblica brasileira), que voltou eufrico e com informaes inteiramente favorveis ao presidente Castelo Branco.

Quando no dia 5 de outubro de 1965, finalmente houve o choque de bastidores entre o dispositivo Castelo e o dispositivo Costa e Silva, toda aquela regio visitada pelo ento coronel Reinaldo de Almeida, foi uma das mais firmes e categricas a favor de Costa e Silva. lgico que, sendo castelista ferrenho, as suas informaes e informes era sinceras e corretas, mas apenas do seu ponto de vista pessoal de observador. No representavam verdades matemticas, mas sim observaes recolhidas mais um menos precariamente, que as circunstncias ou as necessidades do momento elevavam at inconscientemente categoria de verdades irrevogveis.

A campanha da FEB na Itlia exerceu uma influncia enorme sobre o Exrcito brasileiro, renovando-o, reformulando-o, livrando-o da influncia perniciosa das Misses Francesas. Antes da FEB, o Exrcito brasileiro vivia exclusivamente em funo de dois fatores: ordem unida pela manh, e depois do almoo, o montono e intil esforo de montar e desmontar um antiquado fuzil FM.

A FEB modificou tudo isso, imps uma nova mentalidade, modernizou (tanto quanto era possvel) seus armamentos, seu fardamento (ento estupidamente inadequado para um pas tropical), introduziu novas formas de comportamento. Mas mesmo a FEB, no pde livrar o Exrcito brasileiro da insegurana psicolgica natural de um Exrcito de pas subdesenvolvido. Essa segurana material e psicolgica, s a independncia econmica pode trazer.

E tudo isso influa e influi muito ainda hoje (talvez ligeiramente menos) no comportamento dos militares em relao a eles mesmos e em relao aos civis. H uma desconfiana surda entre eles, h uma disputa tremenda em torno da marcao de pontos para a promoo por merecimento, e a, concordo, o sistema, erradssimo, que estimula essa concorrncia.

Por exemplo: um oficial que sirva em Cceres, na Clevelandia, em Fernando de Noronha e em outros lugares como esses marca mais pontos do que os companheiros que sirvam em lugares no to distantes nem to desertos. E que mrito pode ter o fato de servir num lugar desses? Por que um oficial h de ser promovido na frente de outro apenas porque acumulou pontos dessa maneira intil e sem nenhum valor?

Nos Exrcitos dos paises subdesenvolvidos, onde durante geraes e geraes no acontece uma s guerra, a frustrao muito grande, pois a profisso de militar a guerra, e no faz-la equivale inutilidade quase total. Da o derivativo para a vida civil, as ambies, o desaguar para a poltica, que pelo menos uma forma de realizao.

Alm do episdio citado acima, de Washington Luiz, a Histria brasileira est cheia de outros episdios semelhantes. Em 1945, quando j estava praticamente deposto, Getulio ainda falava na unidade do Exrcito, que est firme comigo. Foi preciso que o general Cordeiro de Farias, ento seu amigo e um homem que manteve a lucidez que fez dele general aos 40 anos, tendo permanecido na ativa como general durante 24 anos (ambos os fatos rigorosamente inditos no Exrcito Brasileiro) lhe dissesse: Presidente, o senhor j est deposto, todos os generais esto contra o senhor. Foi s ento que Getulio compreendeu que estava abandonado por todos e que teria que voltar para So Borja.

Mas foi novamente a ingenuidade dos principais chefes do Exrcito, que transformou essa deposio numa ligeira viagem no somente de ida, mas com volta triunfal apenas 33 dias depois, pois deposto a 29 de outubro, Getulio, em 2 de dezembro se elegia deputado por 7 estados e senador pelo Rio Grande do Sul.

Os polticos ligados a Getulio, (todos os Interventores tambm depostos no 29 de outubro se elegeram governadores, deputados ou senadores, sem nenhuma exceo) tinham iludido mais uma vez os lderes militares e haviam ficado com o Poder, fingindo apenas terem concordado com a deposio de Vargas.

Ficam 33 dias no ostracismo, e com a matreirice, a habilidade e a tradicional falta de escrpulos, acrescentaram inconscientemente (o hbil sempre inconsciente em relao ao futuro, s sabe ver e preservar o presente) mais uma gota no copo que iria transbordar finalmente em 1964.

O golpe no teria sido feito se o Sr. Jango Goulart tivesse atrs de si, enfileirados, e no apenas no papel como simples e duvidosos dados estatsticos, os 95% do Exrcito que Assis Brasil e os outros conselheiros diziam que ele tinha. S olhando para trs e vendo no apenas meia dzia de generais e de coronis, mas todo o Exrcito formado a perder de vista e pronto para lhe dar apoio e segurana, a ento, e s ento, possvel que o Sr. Joo Goulart pudesse cometer as loucuras que cometeu. Mesmo assim, eu pessoalmente ainda acharia discutvel, porque conhecendo a Histria como conheo, sei que pelo menos depois da implantao da Repblica, s uma vez o Exrcito deu um cheque em branco a algum: foi em 1937 a Getulio Vargas, para implantar a ditadura.

Mas a, era a situao internacional de pr-guerra que dominava os acontecimentos, e pouco mais de 1 ano depois a guerra estourava mesmo, s terminaria em 1945. E to certas estavam as Foras Armadas nesse episdio, que terminada a guerra, dias depois do regresso da FEB, o Exrcito retirava o apoio dado a Getulio e ele tinha que voltar melancolicamente para So Borja.

A derrubada de Getulio em 1945 obra exclusiva do Exrcito, ajudado logicamente por alguns civis corajosos. Agora, acontece exatamente o contrrio: alguns civis apavorados e subservientes amedrontam o Exrcito, em nome do combate ao comunismo, agradam e servem aos americanos.

Em 1961, foi a vez de um frvolo peralta se enganar com o Exrcito: o Sr. Janio Quadros. Eleito com a maior votao j obtida por um candidato, esperana de um povo e um pas, mas dominado por sonhos loucos e ambies desvairadas, fingiu que renunciava para que as Foras Armadas o carregassem no colo, e o recolocassem no governo com os poderes discricionrios que ambicionava.

Num abrir e fechar e olhos, os polticos envolveram o Exrcito, e o sr. Janio Quadros, que havia sido eleito legitimamente, viu-se de uma hora para outra mergulhado no ostracismo do qual no se livrar nunca mais, pois a decepo que os homens provocam no povo est exatamente na proporo da esperana que despertam. E poucas vezes na Histria brasileira um homem provocou tanta esperana quanto Janio Quadros.

O ex-presidente foi outra vtima dos pssimos observadores, que depois de conversarem com trs ou quatro generais, depois de percorrerem 5 ou 6 regies militares, chegam e dizem para o governante, sigilosamente: Olha, Presidente, 95% do Exrcito est com o senhor…

O ltimo que acreditou nesses levantamentos feitos s vezes na melhor das intenes, foi o Sr. Joo Goulart. Quando Assis Brasil, Osvino, Albino Silva, Jair Dantas Ribeiro e outros, lhe diziam que 95% do Exrcito est conosco, e Jango acreditava, era mais um passo que ele dava para o ostracismo, para o caos, para a derrubada do regime dito democrtico.

Quando ele achava que o Exrcito estava a seus ps, pronto a apoiar todas as suas maluquices, foi derrubado, e nossa Histria se enriqueceu com uma nova frase que a posteridade guardar para sempre: Quer dizer, Assis Brasil, que 95% do Exrcito estava comigo?

Era um amargo e amargurado desabafo, era uma censura, mas era tambm uma constatao, e uma advertncia para futuros ocupantes do Poder: o Exrcito no d cheque em branco a ningum, sejam civis ou militares os ocupantes do Poder.

Mas as lies da Histria pouco frutificam, principalmente no Brasil, e no se passar muito tempo antes que novos dispositivos, que no papel se mostram invencveis e monolticos, sejam destroados pelos acontecimentos que tm mais fora do que qualquer prognstico.

O maior e mais formidvel Exrcito j formado nos tempos modernos (a Werhmacht de Hitler) estacou diante de Stalingrado e de Moscou, paralisado por obstculos que nenhum general poderia prever. Quando a capital russa j estava vista, quando os poderosos Exrcitos de Hitler estavam a 45 km de Moscou e j enxergavam as altas torres do Kremlin, um punhado de heris cismou de no entregar as duas cidades, e todos os planos minuciosamente estudados e reestudados pelos crebros da OKM, esbarraram em detalhes que ningum podia no s prever como sequer imaginar. E isso na guerra, que uma arte mais comum aos militares do que a poltica. (Embora eu esteja convencido, depois de ler e reler cuidadosamente as autobiografias de Rommell e de Guderian, que a guerra muito mais complexa e difcil at mesmo do que imaginam os mais famosos generais).

A rigor, que eu saiba, s um homem nos ltimos 40 anos no Brasil, acertou no julgamento que fez sobre a fora do dispositivo militar que o apoiava e a extenso desse dispositivo: foi o ento Ministro da Guerra Arthur da Costa e Silva. To seguro era o seu julgamento, que podendo depor o Sr. Humberto de Alencar Castelo Branco na madrugada de 5 para 6 de outubro de 1965, esperou um ano, convencido da invencibilidade do seu dispositivo militar.

Podendo ficar com o Poder na hora, como ditador, preferiu dar um ultimatum para que o Poder lhe fosse entregue um ano depois, e foi para casa dormir, que afinal j eram 5 horas da manh e ele passara a noite acalmando seus camaradas, que no s queriam como at exigiam que ele ficasse com o Poder na mesma hora.

Costa e Silva acertou em cheio, e nesse particular temos que render as nossas homenagens capacidade de previso e pacincia (uma ligada outra) do ex-Ministro da Guerra. E um ano depois, por mais que esperneasse, por mais que manobrasse, por mais que exercitasse o seu reconhecido gnio poltico, o ento presidente Castelo Branco teve que se contentar em ser sucedido por Costa e Silva, sabidamente a ltima coisa que desejava.

Agora, curiosamente (a Histria tem dessas coisas), o ento Ministro da Guerra presidente da Repblica, e novamente se fazem clculos sobre a fora do dispositivo militar que o sustenta. Eu diria a S. Exa, que no deixasse de atentar para um detalhe precioso: um Ministro da Guerra pode ser sustentado por um dispositivo militar, mas um Presidente da Repblica no. Por mais canhes e tanques e metralhadoras que tenha um Presidente, ele no se sustenta se no tiver o apoio popular. Mesmo nas ditaduras declaradas, os ditadores no desprezam o contato e o dilogo com o povo.

Portanto, em vez de se dedicar tarefa de contar efetivos militares para saber se tem maior ou menor apoio, o que o presidente da Repblica deveria fazer com urgncia era promover a unio do Exrcito com o povo, restabelecendo um dilogo que indispensvel, que est dentro da melhor tradio brasileira, vem desde o Imprio.

S. Exa. tem condies excepcionais para isso, se no se deixar levar (como no episdio do meu desterro, que acabou causando uma comoo nacional, e no controvertido e nada lisonjeiro confinamento do Sr. Juscelino) por observadores que no sabem observar, e por conselheiros, que esto mais interessados na discrdia do que na unio geral.

S existem duas espcies de poder: o militar e o civil. Se o presidente quer ficar tutelado pelo Poder militar, faa logo a opo, instale a ditadura no Brasil (pois Poder militar sinnimo de ditadura) e veja onde vai acabar. Ms se quiser fazer a abertura legtima e indispensvel para o Poder civil, precisa primeiro se convencer que governar no uma arte solitria, que governar exige dilogo, que dilogo exige partidos, opinio pblica, oposio organizada validamente, em suma, redemocratizao do pas, no nas bases antigas, no em forma de revanchismo, mas para que exista um governo politicamente forte, consciente, objetivo, sabendo o que quer.

Para terminar: tenha o dispositivo militar que tiver (e quem que tem capacidade para avaliar a sua extenso, a sua solidez e em que direo ele caminha?), o presidente no ir muito longe se tentar consolidar o seu governo apenas em bases militares. Ao contrrio, se caminhar na direo do povo, se formar um governo poltica e civilmente vlido, o dispositivo militar ter que acompanh-lo, haja o que houver.

Esta a opo que se oferece ao Sr. Costa e Silva. Mas como tentar convenc-lo disso, se ele parece querer fazer tudo ao mesmo tempo (e portanto no far nada), cercou-se do vazio em matria de inteligncia e lucidez, parece convencido da eficcia do exerccio solitrio do Poder? Ao cercar-se do vazio, ao desprezar a inteligncia, logo no incio do seu ltimo governo, em 1951, Getulio Vargas ditou a sua prpria sorte poltica. A Histria parece que se repete, 16 anos depois.

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