A silenciosa ofensiva da extrema-direita contra a democracia europeia

O dilema centrale travar a ameaça enquanto ainda é possível

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Há momentos na história em que o perigo não se anuncia por explosões de violência, mas por rupturas discretas: votos que desestabilizam equilíbrios duradouros, discursos que corroem instituições e uma normalização gradual da intolerância.
A Europa vive hoje exatamente esse momento. A ascensão da extrema-direita — antes vista como um fenômeno periférico — tornou-se força estrutural, capaz de influenciar governos, reescrever agendas e mexer profundamente com o imaginário democrático.

O que está em jogo já não é apenas o crescimento eleitoral de partidos radicais, mas a transformação silenciosa da ordem democrática em algo mais vulnerável, permeável a um autoritarismo difuso e à política do medo. A linguagem que estigmatiza minorias, desumaniza imigrantes, desacredita o jornalismo e tenta subjugar magistrados tornou-se, em muitos países, parte do cotidiano político. O extremismo não avança com rupturas bruscas; infiltra-se aos poucos, como uma rachadura que se estende silenciosamente até comprometer toda a estrutura.

ABANDONO  – A origem dessa crise não está apenas no mal-estar social acumulado. Está, sobretudo, no abandono prolongado de setores que se sentiram deixados para trás por modelos econômicos desiguais, promessas governamentais descumpridas e lideranças políticas que perderam contato com a vida real das populações. É nesse vazio que a extrema-direita floresce, oferecendo respostas aparentemente simples para problemas complexos e apontando inimigos convenientes para canalizar frustrações.

Mas há um fenômeno ainda mais preocupante: a erosão moral e política do centro democrático. Por décadas, governos sucessivos evitaram enfrentar contradições estruturais de suas sociedades — a precariedade laboral, o abandono de regiões periféricas, o envelhecimento populacional, os custos da transição energética. Ao não responderem a essas tensões, deixaram vagas áreas essenciais do debate político, prontamente ocupadas por atores que transformam ressentimento em arma e conflito identitário em estratégia eleitoral. A extrema-direita prospera porque ocupou territórios que o centro abandonou.

À medida que acumula influência, essa nova direita radical segue uma lógica consistente: primeiro, ataca a independência da imprensa, acusando-a de parcialidade; depois, questiona a legitimidade do Judiciário; por fim, tenta redesenhar regras eleitorais, restringir direitos fundamentais e ocupar instituições de controle democrático.
A democracia não desmorona de uma vez; degrada-se por meio de pequenas mudanças estratégicas, sempre justificadas como medidas “necessárias”, “urgentes” ou “em nome do povo”. Assim é que o autoritarismo se normaliza.

SINAIS – A Europa enfrenta esses sinais em várias frentes. Em diversos países, há tentativas discretas de influenciar nomeações de juízes, limitar a atuação de órgãos de fiscalização, pressionar veículos de comunicação críticos ou reescrever regras eleitorais sob o pretexto de garantir “estabilidade governamental”. Ao mesmo tempo, pressões migratórias, desigualdades territoriais, insegurança econômica e os efeitos persistentes da guerra criam um ambiente em que discursos radicais ganham terreno com facilidade.

A crise climática — com seus custos elevados e impactos desiguais — intensifica percepções de injustiça. Paralelamente, a proliferação de desinformação digital e o aumento da polarização reduzem a capacidade coletiva de diálogo, compromisso e moderação.

O maior perigo, no entanto, não está apenas no sucesso eleitoral da extrema-direita. O risco real surge quando partidos democráticos passam a adotar parte de sua retórica — normalizando ideias antes inaceitáveis e empurrando todo o espectro político para posições mais duras. Quando o discurso do medo se torna parâmetro de governança, até a política tradicional se contamina. O extremismo vence não apenas quando chega ao poder, mas quando redefine os limites do possível.

INSTABLIDADE – Portugal — como qualquer país europeu — não está imune a essas forças. A instabilidade do continente influencia o ambiente interno, molda expectativas e pressiona instituições. A crise da habitação, a desigualdade econômica, a fragmentação partidária e a crescente polarização tornam o país vulnerável às mesmas dinâmicas que já remodelam democracias vizinhas. Proteger a democracia exigirá, portanto, muito mais do que declarações formais: é preciso reformas profundas, vigilância cívica e capacidade de antecipação política.

A resposta necessária deve ser firme e estrutural. Passa pelo fortalecimento das instituições públicas, pelo combate efetivo à corrupção, por políticas sociais que reduzam desigualdades e por um compromisso inequívoco com o pluralismo democrático. Inclui também a revalorização do espaço público como ambiente de debate racional e informado — algo impossível sem imprensa forte, educação cívica robusta e transparência governamental.

A democracia não está perdida — mas está fragilizada. E é na fragilidade que os autoritarismos prosperam. Evitar uma regressão democrática passa por reconstruir a confiança dos cidadãos, devolvendo-lhes segurança econômica, expectativas realistas e a convicção de que o sistema democrático ainda é capaz de entregar justiça.

CONSEQUÊNCIA POLÍTICA – A ascensão da extrema-direita não é destino inevitável; é consequência política. E tudo aquilo que é consequência pode ser transformado. A questão essencial já não é “como chegamos aqui?”, mas “quais escolhas faremos agora?”.

O futuro da democracia europeia não depende apenas das urnas, mas da determinação coletiva em proteger seus alicerces — antes que o silêncio da resignação se torne o som final de uma era que acreditávamos ter superado.

13 thoughts on “A silenciosa ofensiva da extrema-direita contra a democracia europeia

  1. O 7×1 de Lula e Trump no clã Bolsonaro

    Coitado dos “mitos”. Acharam mesmo que o laranjão era brother

    Uma coisa é a ignorância, que é perdoável. Outra coisa é a burrice, que não é perdoável, e pior ainda quando advém da arrogância, da prepotência, da mania de achar que todos são estúpidos e só ele – justamente o burro – é o único iluminado a caminhar pelo planeta.

    Quando Dudu Bananinha se mandou para os EUA com os bolsos cheios do dinheiro do papis, ou melhor, dos idiotas úteis que cantam hino nacional para pneus e enviam sinais luminosos pelo celular aos ETs, a fim de conspirar contra o país, mal sabiam ele, Jair e os demais zeros o que estava por vir.

    Em lives semelhantes às dos terroristas do Oriente Médio, com estética brega, palavras chulas e ameaças do fim do mundo, Eduardo Bolsonaro, o camisa dez de Lula, jactava-se pelo tarifaço trumpista imposto ao Brasil, pelas sanções diplomáticas contra ministros do STF e pela aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane – aquela do contrato de 129 milhões de reais com o Banco Master; aquele do rombo bilionário devidamente blindado por Dias Toffoli.

    Gol da Alemanha

    Mais ainda: ele e o outro comparsa aloprado, Paulo Figueiredo, sempre ecoados pelos bolsonaristas radicais – da família ou não – passaram a autoproclamar-se interlocutores íntimos de Donald Trump.

    Eram bravatas e ameaças diárias, repetidas com fervor pela bolha da extrema direita e comemoradas como um gol do clube de coração.

    Tornou-se praxe, em Banânia, após a goleada acachapante da Alemanha sobre o Brasil, na Copa de 2014, comparar o placar do jogo – sonoros 7×1 para os chucrutes – com fracassos retumbantes.

    Contem comigo

    Com a química entre o chefão petista e o bufão cor de laranja em grau de ebulição, o Brasil assistiu, quase incrédulo, às tarifas extras serem retiradas e, agora, pela primeira vez desde a sua criação, à lei que sanciona severamente criminosos mundo afora ser revista em favor do casal xandônico.

    Pois é. Jair Bolsonaro foi preso preventivamente, e o Brasil não se transformou em um campo de batalha como prometiam os incautos, como, por exemplo, Nikolas Ferreira, o deputado TikToker mineiro. Ou seja, 1×0 e contando.

    O mesmo patriarca do clã das rachadinhas e das mansões milionárias foi condenado a mais de 27 anos de prisão pela trama golpista. Anotem aí: 2×0.

    Reveillon na Disney

    Ato contínuo, cumpre pena não mais em sua casa, em um condomínio de classe média alta de Brasília, mas numa cela improvisada, com pouco mais de 10 metros quadrados, na Polícia Federal do DF. Placar: 3×0.

    Com tudo isso acontecendo, o pai do Ronaldinho dos Negócios, que estava praticamente morto, mas não enterrado, eleitoralmente falando, estanca a trajetória de queda de sua aprovação e passa a ser melhor avaliado, segundo as pesquisas de opinião. Atenção, não perca as contas: 4×0.

    Daí Trump elogia Lula publicamente e manda Jair Bolsonaro para o limbo: 5×0. Em seguida, revoga as tarifas – 6×0 – e libera Moraes e sua esposa-advogada-prodígio para visitarem o Mickey e o Pateta, ou até mesmo virar o ano na Times Square, em Nova York. Chegamos no 7×0.

    Um de lambuja

    “Mas e o 1, Ricardo? O gol de honra dos Bolsonaro?”

    É o infame PL da Dosimetria, uai. Ainda que seja um gol impedido, aos 54 do segundo tempo, sob a análise do VAR.

    Coitado dos “mitos”. Acharam mesmo que o laranjão era brother.

    O Antagonista, Opinião, 13.12.2025 15:45 por Ricardo Kertzman

  2. A fúria de Michelle com a candidatura de Flávio Bolsonaro

    Filho mais velho de Jair Bolsonaro se lançou à Presidência da República depois de dizer que tinha a bênção do pai

    Michelle Bolsonaro não admitirá em público, mas ficou furiosa por não ter sido consultada sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto.

    Líder do PL Mulher e nome mais forte do clã, segundo as pesquisas, a ex-primeira-dama confidenciou a aliadas que esperava ter sido ouvida antes do movimento deflagrado por Jair Bolsonaro e o filho.

    “Ela não ficou satisfeita com a forma como tudo ocorreu. É o principal ativo eleitoral do PL, deveria ter sido ouvida”, diz uma fonte que acompanha os movimentos de Michelle.

    Fonte: Revista Veja, Política,13 dez 2025, 17h05 Por Robson Bonin

    “Tradução simultânea”: Levou um sonora ‘pé na bunda’ do ex-mito e filhos.

    Tem ainda a saída da candidatura a deputada distrital por Gama em 2026.

  3. Viva a Democracia da “esquerda” na América Latina: Brtasil, Cuba, Venezuela, Nicarágua, Colômbia.

    Poderia dar uma melhor contribução refletindo sobra a nossa Democracia.

    A Democracia européis, secular e estável, não corre nenhum perigo, como a nossa que é álibi para a manutenação da censura, da persiguição e genocídio dos adversários.

  4. Vamos falar de coisas sérias?

    Enquanto a Índia está buscando, com sua Missão de Semicondutores, visando a autosuficiència através de investimentos em design e fabricação verticais, tornando-se autônoma nesta área essencial, Lula , o soberanista, ao que tudo indica, entregará nossas terras raras sem beneficiamento, para beneficiar seu projeto totalitário, reacionário e atrasado de domínio das oligarquias retrógradas.

    Mais um mandato e tornará o Brasil um pária tecnológico, em sitiuação de irreversibilidade.

    Quer que voltemos para a Era da Máquina de Escrever, assim mantem seus Blocos Reservados Eleitorais de analfabetos funcionais, famélicos que votam no seu aparato pra comerem.

  5. A democracia agoniza, em seus estertores finais, sequestrada por uma extrema esquerda convencida de que lhe pertence por direito exclusivo, como propriedade privada e indivisível. Seja lá o que entenda por esquerda e direita, a sinistra abomina qualquer expressão contrária que possa ser manifestada pela destra. Ainda que ambas componham um mesmo organismo político, uno e indissociável, empenha-se em extirpar o contraditório, ignorando que a supressão de uma parte conduz, inexoravelmente, ao colapso do todo.

  6. O que acaba com a democracia é a vagabundagem,
    roubalheira, corrupção, falta de vergonha na cara de muitos políticos, justiça parcial e tantos outros quesitos que o povo observa, mas não tem o poder de mudar.
    Então passa a sonhar com um salvador da pátria que recoloque as coisas no lugar.
    Democracia não se cria no meio da podridão.

    • Fidel, o estabelecido e plantado “freio modêlo”, trouxe progresso à Cuba? Chaves e Maduro, à Venezuela? O Barba, ao Brasil?
      PS. Seus seguidores, submetem-se aos mesmos patrões e apátridas agendas!
      A fuga de dissidentes e abandono em seus destinos, serve à quem?
      Quem são os patrões das drogas, que debilitam a saudável força de trabalho do mundo?
      Quem controla os órgão de defesa, vigilancia e segurança, senão prepostos dos mesmos “cabeças” internacionais?
      Acordem, patativas!

  7. Por que esses idiotas não falam da ofensiva da esquerda sobre outros países e regiões. O principal agente nesse sentido agora é a China com seu projeto de domínio. Em especial lançaram agora um plano de suas ações para a América Latina e o Caribe

  8. Tá bão, o socialismo é a ultima esperança europeia antes que a direita a destrua.
    A esquerda quebra a dentadura nas não abandona essa rapadura.
    Já encheram o saco com a narrativa que os Estados Unidos estava decadente e quebrando, agora vão vender seu peixe podre na Europa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *