Mais 0,25 na Selic custam 5 bilhões de reais por ano ao governo

Pedro do Coutto

O Comitê de Política Monetária decidiu na quarta-feira elevar em mais 0,25% anuais a Taxa Selic, que rege a remuneração paga pelo governo aos Bancos para girar a dívida interna mobiliária do país. Quer dizer: títulos do Tesouro e papeis do Banco Central que se encontram em poder da rede bancária. Como o montante do endividamento interno atinge – em números redondos – 2 trilhões de reais, o custo adicional de 0,25 representa uma despesa de mais 5 bilhões de reais por ano.

Marta Beck e Wagner Campos, em O Globo, Eduardo Cucolo, Folha de São Paulo, Fábio Graner, O Estado de São Paulo, publicaram amplas matérias a respeito da decisão, mas esqueceram de ajustá-la ao volume da dívida.
Pois este é o efeito concreto da medida que faz com que os juros reais debitados à conta do Tesouro alcancem 6% ao ano. Sim. Porque os juros são de 12,5%, mas a inflação do IBGE está em 6,5 pontos paraos últimos doze meses. Neste plano um contraste: os juros reais pagos pelo executivo são de 6%. Os cobrados para financiamentos, através do BNDES, são negativos na escala de 0,5% também para doze meses. Isso porque a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) está em apenas 6% ao ano livre da incidência da inflação.

Ótimo negócio, portanto, captar um financiamento a menos de 0,5% e aplicá-lo a 6% a mais. Como os prazos de carência para o início dos pagamentos são de dois anos, só a liberação do crédito, aos preços de hoje, produz uma rentabilidade de 12% sobre o capital obtido. Mas esta é outra questão.

O fato preponderante, mas esquecido pelos especialistas econômicos, está no óbvio aumento da despesa pública. Não sei porque ignorado, quando está na cara. Curioso é que os mesmos especialistas vivem criticando o governo Dilma Rousseff pelo aumento dos gastos. E centram as restrições nas despesas de pessoal. Mas não falam nos juros pagos aos banqueiros, tampouco nos reajustes dos preços das obras públicas. Quando ocorre um escândalo em série, como o que envolve o Ministério dos Transportes, os críticos monetaristas se fecham em copas. Nada dizem.

Talvez em face da esperança, no mínimo, de poderem amanhã ou depois trabalhar para o sistema financeiro. Nada afirmaram por exemplo, a respeito da tentativa do Pão de Açúcar em obter financiamento de 3,9 bilhões de reais do BNDES para formar uma fusão com o Carrefour na busca de livrar-se indiretamente do compromisso que mantém com o grupo Casino.

No Brasil, a resistência em pagar salários é enorme. Financiar o capital é outra conversa. As operações são sempre facilitadas. Não se trata – explico eu – de substituir uma faculdade por outra de sentido oposto. Nada disso. Trata-se de harmonizar as duas vertentes do processo de desenvolvimento econômico. Caso contrário, predomina a ideia de que investir em máquinas, computadores, na tecnologia avançada, torna os investimentos na máquina humana menos importantes.

Entretanto, esses investimentos são decisivos, como sustentou o presidente Roosevelt a partir de 1933, quando seu plano de ação superou os efeitos da crise de 29 e tornou os EUA o país mais avançado do mundo. Investir no ser humano, velho conhecido nosso, como costumava dizer Nelson Rodrigues, é essencial. Esta, inclusive, a filosofia do grande empresário Henry Ford, que morreu em 1947, mas até hoje é um capitalista de vanguarda.

No Brasil, infelizmente, a ideia mais forte não é essa. Ao contrário. Na ditadura militar de 64 a 85, principalmente no reinado de Delfim Netto, quando os salários foram fortemente rebaixados. Assim também no curto período Collor e no longo espaço de Fernando Henrique. Os  resultados são visíveis. Alta renda de um lado, favelizaçao de outro. É preciso ver tanto a árvore quanto a floresta.

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