Presidente da Itaipu Binacional tenta inocentar Gleisi Hoffmann, mas ao fazer a defesa, esqueceu dos principais detalhes.

Carlos Newton

É uma farra do boi, com os políticos dilapidando os cofres públicos com ousadia, sem temor de que essas irregularidades venham a lhes prejudicar no futuro. Agora, surge a informação de que a ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, recebeu ilegalmente R$ 41 mil de indenização da Itaipu Binacional, ao deixar a empresa para se candidatar, pela primeira vez, ao Senado pelo PT do Paraná.

A indenização, equivalente a multa de 40% do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, para efeito de rescisão trabalhista, só é paga quando o funcionário é demitido da empresa, não quando pede demissão, conforme foi o caso de Gleisi.   

Reportagem de Andreza Matais e Filipe Coutinho, na Folha de S. Paulo, mostra que a ministra não soube justificar a demisão e o recebimento ilegal dos 40%, alegando apenas que “foi exonerada de Itaipu, conforme decreto publicado no Diário Oficial de 29/3/2006” e que o valor recebido “a título de indenização do FGTS foi de R$ 41.829,79”. Nem isso é verdade. Este foi apenas o valor da multa de 40% do FGTS, recebida ilegalmente. A indenização foi muito maior.  

Basta comparar com a situação idêntica do atual líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PPS-PR). Ex-diretor da Itaipu, Bueno disse que quando saiu da empresa, em junho de 2004, para disputar a Prefeitura de Curitiba, também lhe foi oferecida a opção da demissão, o que lhe permitiria receber a multa de 40% sobre o saldo do FGTS.

“Na época fui informado que receberia cerca de R$ 40 mil da multa, mas não aceitei. Eu pedi para sair e não iria usar o serviço público para ganhar dinheiro. Para mim não é algo moral”, disse o deputado, afirmando desconhecer se a mesma proposta foi feita à ministra.

No “Diário Oficial” consta que a exoneração de Bueno foi “a pedido”. Não há essa informação na exoneração da atual ministra Gleisi Hoffmann, é claro. Por meio da assessoria de imprensa, a chefe da Casa Civil alega que “foi exonerada de Itaipu, conforme decreto publicado no Diário Oficial de 29/3/2006, e recebeu as verbas legais correspondentes”. Ela não respondeu sobre o motivo da demissão, lógico, pois saiu para se desincompatibilizar e ser candidata.

Os jornalistas entraram em contato com a assessoria da ministra várias vezes por email e por telefone. Não houve resposta sobre por que a ministra recebeu o valor da indenização, já que ela pediu para deixar a empresa a fim de disputar a eleição, e se considerava correto o pagamento.

Itaipu Binacional é a empresa que administra a usina de Itaipu, que gera energia elétrica para abastecer o país. A empresa não quis confirmar a ilegalidade, é claro, e alegou aos jornalistas que, “pelos regulamentos internos da Itaipu Binacional, informações sobre a situação funcional de empregados, ex-empregados, diretores, ex-diretores, conselheiros e ex-conselheiros são consideradas restritas”.

Segundo a empresa, essa informação só poderia ser liberada “mediante aprovação expressa da diretoria ou conselho de administração”. Até parece que se trata de um segredo de Estado ou de assunto de segurança nacional, chega a ser ridículo.

Depois que a falsa demissão virou notícia, de súbito o presidente da Itaipu Binacional, Jorge Samek, lembrou que foi dele a decisão de demitir a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) da diretoria financeira da empresa. Gleisi foi diretora financeira da Itaipu Binacional de 2003 a março de 2006 quando saiu para disputar a eleição ao Senado. O salário na empresa era de cerca de R$ 30 mil.

Segundo Samek, essa decisão contrariou o pedido dela de voltar ao cargo, caso não vencesse a eleição para o Senado, que disputou naquele ano. “Eu, como diretor geral da empresa, disse: Você não volta. Porque o sonho dela era fazer o licenciamento e disputar a eleição e, não sendo feliz na eleição, voltar. Então, tomei a decisão”, disse, acrescentando:  “Você vai e eu vou exonerar você. Sai, levanta teu fundo de garantia e vai, vai para tua campanha”.

Até parece que esse tal de Samek teria poderes para demitir ou contratar algum diretor da Itaipu, cujos cargos são preenchidos diretamente pelo Palácio do Planalto. Mas não há dúvida de que se trata de uma desculpa bem criativa, que ele esqueceu de combinar com o deputado Rubens Bueno e com um outro ex-diretor de Itaipu, Roberto Amaral.

Em junho, o jornal “O Estado de S. Paulo” já havia revelado que o ex-diretor Roberto Amaral também recebera indenização da Itaipu, embora tivesse deixado o cargo de diretor-geral a pedido. Ele recebeu R$ 280 mil, o que foi questionado pela oposição. E la nave va, fellinianamente.

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