Negromonte liga o termômetro do atual nível político do país.

Pedro do Coutto

Ao afirmar em entrevista ao repórter Gerson Camaroti, O Globo de quarta-feira, que se persistir a divisão da bancada do PP quanto à sua permanência no Ministério das Cidades, o conflito pode se deslocar para um desfecho de sangue como retratam as tragédias familiares de Shakespeare, o deputado Mário Negromonte acendeu o termômetro que marca o atual nível político brasileiro.

A seta de luz aponta o porão, para as sombras que envolvem inclusive um comportamento social deplorável. No final da semana passada, Negromonte foi acusado pela revista Veja de instituir e oferecer mesadas de 30 mil reais aos deputados da legenda para afastar as resistências a seu nome. Incrível.

Não negou frontalmente a acusação, como deveria ter feito, mas acusou seu antecessor na pasta, Márcio Fortes de ser o autor da denúncia e de manobrar junto à liderança parlamentar da legenda para derrubá-lo. Este ataque está no contexto da entrevista a Camaroti.Acontece que Mário Fortes foi nomeado pela presidente Dilma Roussef para comandar a Autoridade Nacional Olímpica, que tem a seu cargo a supervisão das despesas federais, estaduais e municipais, não só para as Olimpíadas de 2016, mas igualmente para a Copas do Mundo de 2014.

Assim agindo, Mário Negromonte ameaçou a própria Chefe do Executivo. Duplamente. Com a perspectiva de um duelo de sangue na chamada base aliada e com o ataque a um dos integrantes da equipe governamental. Detonou a explosão.Mais uma. Pois já ocorreram as de Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Nelson Jobim, Wagner Rossi, e está para haver a de Pedro Novais, agora contestado pelo seu próprio partido, o PMDB.

Quatro já foram pelos ares. Dois estão para serem lançados ao espaço das contradições. Claro. Pois não tem o menor cabimento um ministro ameaçar indiretamente à presidente da República personificando seu adversário dentro do próprio Palácio do Planalto.A estatura partidária despencou. Basta comparar o nível dos políticos do passado com os do presente: que declínio. Até na linguagem que sintetiza e exprime o comportamento humano.

Mário Negromonte chegou a afirmar, rebatendo as pressões, o que chama de fogo amigo: imagina, falou ao repórter, se vazar o currículo e, pior, a folha corrida dos deputados. Um deputado contestando os antecedentes de companheiros de bancada, mas – presume-se nitidamente – adversários no jogo do poder.Um jogo rasteiro. Imediatista, sem propósitos construtivos. Apenas em torno de interesses pessoais. Reside nisso, sim, a principal contradição do panorama institucional.

A política abrange a disputa pelo poder, mas não o poder pelo poder, pela ostentação, pelas viagens em aviões de milionários. O jogo do poder, sim, mas pelo poder de realizar algo de interesse coletivo. Isso porque o que legitima e fornece identidade ao seu exercício é a vontade coletiva expressa pelo voto na urna. Como sua origem, pelo voto, a política só fez sentido verdadeiro se for usada como instrumento de ação coletiva e construtiva. Se representar avanços sociais. Não retrocessos, a começar pela forma de conduta e terminar no altar repugnante do egoísmo, da falsidade, do culto aos interesses individuais. Portanto ilegítimos, uma vez que colidem com a ideia maior do compromisso que lhe é inerente.

Pois se a fonte do poder é o voto coletivo, seu exercício não pode estar condicionados à satisfação de interesses individuais, sobretudo desprovidos da ideia essencialmente democrática.Mário Negromonte na entrevista a O Globo, além de ameaçar a presidente Dilma Roussef, exibiu ao país toda uma sequência de contradições. Praticou um retrocesso no tempo e no espaço. Deve sair logo.

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