Brizola, cabo Anselmo e sindicalistas expuseram Jango ao golpe de 64

Pedro do Coutto

Em artigo publicado na edição de O Globo de quinta-feira, o jornalista e historiador José Augusto Ribeiro comenta a crise política aberta no país pela renúncia de Jânio Quadros e reaberta, um ano depois, portanto em 62, com a queda do gabinete parlamentarista que tinha Tancredo Neves como primeiro ministro de João Goulart. Ribeiro considera essencial esse episódio para o desfecho de 64 que implantou a ditadura militar, os anos de chumbo e dos porões do arbítrio e da tortura. A meu ver, neste aspecto exagera.

O autor, com quem trabalhei no Correio da Manhã  e também no Globo, vai ao passado e recorda que, na passagem de 61 paea 62, ano eleitoral, o deputado Martins Rodrigues, líder do PSD na Câmara, conseguiu aprovar emenda obrigando a desincompatibilização dos ministros que fossem se candidatar, portanto inclusive a do premier. Foi, ele tem razão, um fator de desestabilização, mas não o principal que levou ao golpe que depôs o presidente da República.

Várias contradições, a meu ver, foram as causas principais para a ruptura institucional e o corte antidemocrático. Por exemplo: o ímpeto de Leonel Brizola em querer mudar a Constituição para tornar-se elegível, já que era cunhado de Goulart. Radicalizou o processo, anunciou a criação dos grupos de onze espalhados a torto e a direito, o que em si sintetizava uma ameaça à ordem das coisas. Ao mesmo tempo, numa atitude inédita, lançou-se candidato a ministro da Fazenda. Por fim, passou a atacar o próprio João Goulart, colocando-o sob fogo cruzado. De um lado ele, de outro Carlos Lacerda.

O presidente não podia suportar sem perder sua capacidade de ação, a qual, diga-se de passagem, não era das maiores.De Leonel Brizola, passamos ao cabo Anselmo, personagem repugnante, entregou sua mulher, Soledad, à repressão. Era um agente duplo, da direita, infiltrado na esquerda. Mas  era uma personalidade forte. Ajudou a agredir a hierarquia militar.

Do cabo Anselmo aos sindicalistas. Estes, por leniência de Jango, passaram a ter exacerbada presença nas engrenagens do poder. Como disse, eu era repórter do Correio da Manhã. Fiz uma pesquisa sobre a ocorrência de greves. Houve mais de 150 em 1963. Praticamente uma para cada dois dias úteis. Era demais. Jango desapropria a refinaria de Capuava, do grupo Soares Sampaio, anuncia o decreto da reforma agrária, coloca multidão na rua, comício de 13 de março na Central do Brasil.

Marinheiros incentivados por Anselmo, reúnem-se no Sindicato dos Metalúrgicos. Presos, o governo os solta num sábado, 28 de março de 64. Dois dias depois, Jango Goulart vai ao encontro de sargentos no Automóvel Clube. E diz textualmente: “Não permitirei que em nome da disciplina sejam cometidas maiores indisciplinas”.O governador Carlos Lacerda acusa o governo de ingressar na estrada do comunismo. Estabelecia-se um clima de perigo iminente. Atingida a hierarquia militar, com apoio internacional norte-americano, como Marcos Sá Corrêa comprovou anos depois no Jornal do Brasil, o cadafalso para Jango estava armado.

Em 63, ele assinava a regulamentação da  lei que reduzia a remessa de lucros de empresas para o exterior e sancionava a lei que criou a Eletrobrás. O abandono de comando do PTB, partido de ambos, lhe foi fatal.Goulart confiou demais no seu dispositivo militar, no cabo Anselmo, nos líderes sindicais que, de esquerdistas já estavam vivendo como conservadores. Vestiam-se de tropical inglês, hospedavam-se em hotéis de luxo.

Não foi Martins Rodrigues quem, através de emenda à lei eleitoral da época, o derrubou. Foi a traição de falsos aliados, a precipitação de amigos, a contradição da qual não soube libertar-se, que o levaram à queda. E proporcionaram aos militares a condição de tomar o poder. Nele permaneceram vinte e um anos. JK, cassado, não pode retornat à presidência em 65. Foi um desastre.

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