A vitória de Kirchner

Sebastião Nery

Amaral Peixoto e Flores da Cunha, interventores no Estado do Rio e no Rio Grande do Sul, conversavam com Getulio Vargas no Rio. Flores da Cunha não sabia o que fazer para enfrentar a crise política lá.

– Volte, pare, pense o que seus adversários gostariam que você fizesse e faça exatamente o contrario.

Deu certo.

Há 60 anos não me engano nas eleições no Brasil ou na America Latina. Leio o Globo todos os dias. Fico sempre contra os candidatos dele e não erro. O Globo nunca acertou uma. Quem ele apóia, perde. Quem ele combate, ganha. Para conferir é só acompanhar a coluna do Segundo Caderno : – “O Globo Há 50 anos”.

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BANQUEIROS                                      

O meio fio da arrogância é o ridículo. O Globo pensa que o mundo é a rua Irineu Marinho. Sempre se mete aonde não é chamado. Não contando, noticiando, opinando, que é sua função e seu dever. Mas interferindo.  

Como o Globo manda no Rio e no Brasil, pensa que pode mandar também no pais dos outros. Intromete-se, imiscui-se. Nos últimos anos, perdeu as eleições na Venezuela, Equador, Paraguai, Peru, Guatemala, El Salvador. Até nos Estados Unidos. E Argentina nem se fala.

Servo, servil e serviçal, está sempre a serviço do FMI (Fundo Monetário Internacional), Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), banqueiros e grandes grupos internacionais, que têm ódio da  Argentina porque foram encoleirados, enfocinhados, dobrados, derrotadas e humilhados pela Argentina desde a vitoria dos Kirchner em 2003.

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CRISTINA

Agora mesmo o Globo  está cada dia mais grotesco, desgrenhando-se. arrancando os cabelos, porque a Cristina Kirchner vai ser reeleita domingo. Transforma em editoriais até friorentas reportagens turísticas lá na Patagônia,  matérias internas inteiras (“Por Dentro do Globo”):

1. – “Cristina Kirchner e o Poder da Ficção – Com a reeleição de Cristina Kirchner no dia 23 tida como certa, as atenções se voltam para os planos da presidente num segundo mandato. A maioria dos analistas aponta o risco (sic) de “aprofundamento do modelo”. levantando a hipótese de um reforço do combate kirchnerista à imprensa profissional independente”.

2. – “Turbulência na Economia Ameaça Segundo Mandato da Presidente – O governo vende aos argentinos, num clima de ficção, que o país vive no melhor dos mundos. E portanto não tem o menor interesse que os meios de comunicação quebrem esse encanto com o peso da realidade”.

3. – “O grande trunfo de Cristina e de seus partidários é o forte crescimento da economia, apoiado no estímulo ao consumo e nas exportações agrícolas. Em agosto , o PIB se expandiu a um ritmo anual de 7,3 % . Mas alguns analistas prevêem que o ritmo se desacelera devido à turbulência da crise mundial. Será difícil manter a ficção por muito tempo porque a inflação, por exemplo, é o dobro do que admite o governo, o que causa uma serie de distorções na economia”. (Globo, 14. 10. 2011).

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ARGENTINA

Se o Globo pudesse, a Argentina afundava de novo, como afundou em 2000 com seu querido e ladravaz parceiro Menem e sua política de “um peso um dólar” e “relações carnais com os Estados Unidos”. (O Brasil, a duras penas, cresce a 3,5%. A Argentina até 10 %).

E o Globo apela para um texto ambíguo, insinuando que a falência de 2000 foi culpa do Kirchner, que ainda era governador lá na Patagônia:

– “A pobreza que afetou o país nos piores anos da crise econômica continua a assombrar os argentinos. No entanto, além de poderosa e alvo de tantas acusações, a família de Cristina continua popular e aparentemente imbatível nas urnas”.

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ECONOMIA

Já que a ética profissional do Globo foi terceirizada, ele devia ao menos respeitar os assinantes (e eleitores de 60 anos, como eu) e lembrar que a Argentina só saiu do buraco porque o Kirchner chamou o FMI e os banqueiros e disse que a verdadeira divida do pais era de 25%, e pagou, e os outros 75% eram especulação, juros sobre juros, extorsão, e não pagou.

Os banqueiros estrebucharam, corromperam, subornaram e até hoje subornam jornais na Argentina e na America Latina, mas continuam de joelhos, “humilhados e ofendidos”, como no romance de Dostoievski. Tiveram que aceitar os 25%, tchau e benção. E a Argentina há 10 anos cresce entre 8% e 10%, sem interrupção. Tem gente de caráter no poder.

A Argentina fez o que a Grécia não teve coragem de fazer. O Globo não se conforma porque Kirchner se elegia e Cristina se elege. Devia perguntar ao marqueteiro norte-americano :  – “É a economia, estúpido!”

 Tem razão a mestra Rosiska Darcy de Oliveira: – “Esses escroques senhores até ontem eram o símbolo mesmo do poder e do sucesso”.

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