Caminhando no calçadão de Copacabana no feriado

Jacques Gruman 
Acabo de fazer uma caminhada na avenida Atlântica. Quem mora no Rio, pode visualizar. De um lado, o paredão de cimento e concreto, feio, sem personalidade, cara e coroa dos que destruíram Copacabana. Do outro, exuberante Natureza, que chega a ofuscar a vista. No meio, asfalto quente, todo tipo de desrespeito ao espaço público. Bicicletas e skates circulam no meio de pedestres, o que é terminantemente proibido. Pais ensinam filhos a desrespeitar as regras de convivência, estimulando a criançada a pedalar onde não pode. Ciclistas em bólidos de duas rodas passam a jato, criando insegurança numa hora que escolhemos para relaxar.

Guarda Municipal e Polícias Civil e Militar perambulam em veículos modernos, fingindo que não é com elas. Não repreendem os faltosos, não se dão ao trabalho de organizar a bagunça, nem lhes passa pela cabeça iniciar uma campanha pedagógica para mudar a cultura do vale-tudo. Batemos de frente com um coquetel ácido, que mistura incompetência governamental, o malfadado jeitinho brasileiro e a absoluta certeza da impunidade. Atenção: somos nós quem pagamos os salários das otoridades. Por que não podemos demiti-las ?

Por falar em salários, é dos nossos impostos que entra a dinheirama que sai por poros caixa-preta. Quando aparece um tecnocrata chapa branca e garante que não pagamos tanto, que há países onde se paga muito mais, deveria ser posto em camisa de força e mandado, rapidamente, para uma carpintaria, onde talvez dessem um jeito em tamanha cara de pau. Ele esquece, convenientemente, o outro lado da equação: como são usados os recursos drenados da população?

O sistema público de saúde é indecente (à revelia do que disse certo político ufanóide, em 2006, hoje caixeiro viajante de grandes empresários; não devo ser o único que se lembra: “O sistema público de saúde no Brasil está próximo da perfeição”), a educação continua sendo grande vergonha nacional, a infraestrutura e os serviços oferecidos ao público têm qualidade pornográfica.

Na Dinamarca, chega-se a pagar quase 60% de imposto de renda (para rendas anuais superiores a US$ 80 mil). Em compensação, os dinamarqueses dispõem de uma rede de segurança que vai do parto até o cemitério. Isso inclui saúde e universidade gratuitas, ambas conhecidas pela excelência. Os pais de todas as faixas de renda recebem cheques do governo para ajudar nos custos com creche ou bercário. Os idosos têm direito a acompanhante gratuita.

Por que não podemos reivindicar, por exemplo, tratamento dinamarquês ? Somos inferiores ? Estamos condenados ao pântano da corrupção, dos maus costumes pessoais e públicos ?

 (artigo enviado por Mário Assis)

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3 thoughts on “Caminhando no calçadão de Copacabana no feriado

  1. Gostaria apenas de dizer que o Brasil ainda não é uma nação, é só um amontoado de gente, mas tenho esperança de que um dia isto mude e mudará mas só se nós fizermos o que tem de ser feito.

  2. Concordo com a maior parte do exposto pelo articulista. Mas não há como comparar Brasil com Dinamarca, dos 60% de imposto (nem com a Alemanha, 50% de imposto, ou qualquer outro). São ótimos países, mas que se construíram ao longo das suas trajetórias. O Brasil precisa construir a dele. Infelizmente, no entanto, parecemos um povo sem ser nação. Sem sentimento de nação. A não ser quando se trata de futebol ou quando falam mal do país (e aí muitos se doem e reclamam respeito, sem antes, ao menos, indagar a si se o país merece tal respeito).

    Be happy.

  3. O problema do Brasil é a falta de guilhotinas…

    Ah cara, ia ser um saco também se os policiais ficassem brigando com as pessoas que andam de bike, skate e etc… fora da faixa.

    O POVO BRASILEIRO ESTÁ GRITANDO POR UMA DITADURA! MAS SE ESQUECE DE QUE TEM MEIOS PARA MUDAR AS COISAS SEM ESSA ALTERNATIVA!

    Sempre esperamos que alguém nos mande fazer algo, ser assim ou assado.

    Quando sairemos da adolescência enquanto povo?

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