Asilados, exilados, refugiados. Pânico e pavor dos ditadores, pela ordem: guerrilheiros, Arraes, Brizola, Jango. Por que tantos foram torturados, assassinados, desaparecidos?

Helio Fernandes

Muitos me escrevem, me telefonam, perguntam as diferenças entre as palavras e a explicação. Na verdade, a culpa é dos que pretendem informar à opinião pública e acabam provocando confusão maior. As palavras asilados e exilados são continuamente usadas por jornalistas, como se tivessem sentidos semelhantes ou até iguais.

Os primeiros asilados da República em 1889 foram os membros da família real. Todos foram expulsos e mandados viver no exterior. Pode até parecer cruel, não havia como mantê-los aqui.

(Quando a Rússia se transformou em União Soviética, com a vitória da Revolução em 17 de outubro de 1917, toda a família real foi assassinada. Menos crueldade e mais insegurança. Como os Romanoffs estavam no poder há 300 anos, e os soviéticos não conseguiam dominar um país daquele tamanho e totalmente dividido, optaram por essa forma).

No Brasil, além da família real, só houve um asilado: o primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto, mas sem base política. O ex-primeiro-ministro e o marechal Floriano, poderoso vice-presidente e ministro da Guerra, estavam apaixonados pela mesma mulher, lindíssima.

O marechal asilou o Visconde, mas ela desprezou o Poder e foi para o exterior com o derrotado. Desespero duplo para o marechal. Não ganhou a mulher e perdeu a autoestima, que era fulgurante.

NOVO ASILO SÓ EM 1930

41 anos depois, o recurso foi utilizado, de forma surpreendente. Houve a eleição (da forma que havia na época, Vargas perdeu para o governador de São Paulo, Julio Prestes (de nenhum parentesco com o próprio). Não se pensou mais em revolução, até o assassinato do governador da Paraíba, João Pessoa, sobrinho do ex-presidente Epitacio Pessoa, que derrotara Rui Barbosa em 1919.

A vitória da Revolução foi fácil em 3 de outubro. Vargas, que seria chefe do governo provisório, não pôde sair do Rio Grande do Sul, teve que ser nomeada uma “Junta Militar”‘. (Dois generais, Leite de Castro e Tasso Fragoso, um almirante, Silvio Noronha. Não havia brigadeiro, o Ministério da Aeronáutica só seria criado em 1941, com um civil, Salgado Filho. Que depois, candidato ao governo do Rio Grande, morreria num desastre de avião).

Getúlio chegou ao Distrito Federal no dia 24, e no mesmo dia assinou decreto asilando nos EUA o já ex-presidente Washington Luiz, fora do Poder. Asilou também um único ministro, Otavio Mangabeira, chanceler. O ex-presidente ficou nos EUA até 1945, Mangabeira veio antes, até se elegeu governador da Bahia. (Embora o grande Mangabeira tenha sido o irmão João, deputado socialista em 1945).

Sofrendo de problemas na garganta, superou tudo, se transformou num orador admirável e admirado. Joel Silveira, um dos maiores jornalistas, chegou da FEB (correspondente dos Diários Associados), foi dirigir a revista “O Mundo Ilustrado”, do Diário de Notícias. Fez entrevista com João Mangabeira e Domingos Velasco, também deputado. Como os dois confessaram que eram socialistas e católicos, Joel colocou no título: “Na esquerda, com Deus”. Notável.

Quando a revista saiu, foram almoçar no Hotel Serrador, em frente ao Palácio Monroe (Senado, criminosamente derrubado pelo general Geisel, que acreditava que era mesmo presidente). Gostaram da fidelidade da revista, mas riram muito do título. Bons tempos aqueles, jornalistas e políticos almoçavam juntos, e tranquilamente dividiam a conta.

O 9 DE JULHO DE
1932 EM SÃO PAULO

Em 1929, com a queda de Wall Street, São Paulo sofreu terrivelmente. Plantando e colhendo 92 por cento de todo o café bebido no mundo (outros dois por cento pelo Estado do Rio e mais dois pelo Espírito Santo), São Paulo entrou em crise. Em 1932, incentivado, insuflado e instigado pelo jornal “Estado de S. Paulo”, dirigido pelo doutor Julio de Mesquita Filha, fizeram o que entrou na História como a “Revolução Constitucionalista”.

As tropas “legalistas” liquidaram a “revolução” rapidamente. Vargas não esqueceu que se julgava “maquiavélico”, e agiu como se fosse. Nomeou interventor de São Paulo Armando Sales, genro do doutor Julio. Aceitaram como se não tivesse acontecido nada, mas Vargas não esqueceu.

O ESTADO NOVO DE 37
E A VINGANÇA DE VARGAS

No dia 10 de novembro, implantou o que chamou de Estado Novo (e o Barão de Itararé definiu, “o estado novo é o estado a que chegamos”), não esperou muito. No mesmo dia, mandou para o asilo em Portugal o próprio dono do “Estado de S. Paulo”. Ele não esquecia mesmo.

Com este decreto, asilou também em Portugal o ex-presidente Artur Bernardes. Ninguém entendeu e muito menos este repórter. Bernardes era extraordinário nacionalista. Como governador de Minas e depois presidente, fez tremenda campanha contra a Hana Minning, que tinha o monopólio do minério de Minas e do Brasil.

O presidente Bernardes voltou em 1945, com 80 anos, se elegeu deputado, para que o filho, também asilado, pudesse ser senador. Este repórter, praticamente com um quarto da idade dele, ficamos amicíssimos, conversávamos diariamente nos quase 8 meses da Constituinte.

Idem, idem, com Pedro Aleixo. Num de seus aniversários, que passou na Casa de Saúde São Vicente, só a mulher, o filho padre, a filha diretora da Biblioteca Nacional e eu. Depois se elegeu vice de Costa e Silva, este “incapacitado”, não pôde governar. Veio nova “Junta Militar”.

O FIM DA DITADURA DE 45
E A CURIOSA ELEIÇÃO, 33 DIAS DEPOIS

Esses dois fatos são rigorosamente históricos. Todos aqueles que ficaram 15 anos no Poder se candidataram. Não houve cassação nem inelegibilidade. E a legislação da época permitia que qualquer cidadão se candidatasse simultaneamente a deputado por seis estados, e a senador por um.

Vargas e Prestes fizeram a festa. Eleitos deputados e senadores (Prestes, no então Distrito Federal, se elegeu ao mesmo tempo deputado e senador), tinham que optar, lógico escolheram o Senado. Os comunistas, que elegeram 14 deputados, ficaram só até 1948. O Partido Comunista teve a legenda cassada, mas todos já estavam longe, ou aqui mesmo, no que eram mestres: a clandestinidade.

Vargas foi apenas duas vezes ao Senado, em 1950 se elegeu presidente. Uma gestão tumultuada, que terminou com seu historicamente genial suicídio. Nesse período só houve um exílio, o de Carlos Lacerda. Aconselhado por Afonso Arinos e Adauto Cardoso, se exilou na Embaixada de Cuba, numa casinha despretensiosa, na Avenida Copacabana.

O embaixador era admirador de Lacerda, a embaixatriz tinha ódio. Lacerda viajou para a Europa, voltaria no final do ano, retomaria o mandato de deputado.

ASILADOS E EXILADOS DO GOLPE
DE 64, SURGIRAM OS REFUGIADOS

Como os golpistas começaram prendendo, torturando, matando e “desaparecendo”, alguns não tiveram tempo para nada, às vezes conseguiam atravessar a fronteira. Foi o caso de Jango e Brizola, que não podiam ficar no Brasil. Foram para o Uruguai.

Jango conseguiu ficar em Montevidéu. Brizola ficou algum tempo em Montevidéu, deu entrevista a um jornal, o governo dos generais exigiu a sua internação. Foi mandado então para uma cidadezinha a 60 km da capital, onde ficou até 1979, quando os generais-ditadores implantaram a “anistia”, que só servia a eles. E que o Supremo reconheceu e ratificou 20 anos depois.

O ACORDO COM ARRAES

Foi o primeiro a ser preso, no próprio dia 1º de abril. Com ele, Seixas Doria, também governador, de Sergipe. Foram mandados imediatamente para Fernando de Noronha. Que fora prisão política (com mais de 100 presos, alguns famosos), depois penitenciária. Nunca ninguém fugiu de lá, não havia embarcação, Natal e Recife, duas cidades muito distantes.

No início de junho apareceu um coronel (fardado), vindo num avião militar. Foi conversar com Arraes. O coronel não perdeu tempo, fez a proposta: “Eu tenho poder total para decidir. Se o senhor aceitar, sai daqui comigo agora, eu o deixo no Recife, o senhor tem uma semana para ir para onde quiser ou escolher, no exterior”.

Arraes aceitou na hora, lógico, nenhuma hesitação. No prazo marcado, sozinho, viajou para Paris. Mas não era seu destino. Já estava tudo acertado. Iria para a Argélia, dominada por um governo comunista, chefiado pelo “camarada” Boumediene. Em 1978, ele morreu de uma doença sanguínea, com suspeita de envenenamento. Arraes ficou até 1979, voltou e foi novamente governador, não deu para ser presidente.

MATARAM MUITOS, ASILARAM
POUCOS. SÓ EM 1968, EXILADOS.

Os que não se sentiam bem no Brasil iam embora, era só comprar a passagem e viajar. Os que eram da UNE da resistência (não a de hoje, governista) foram para o Chile, estavam ameaçados mesmo. Ficaram até 1973, houve o golpe também lá, tiveram que sair. Alguns já estavam nos EUA ou na Europa, fazendo cursos.

O regime foi endurecendo, veio o AI-5, ameaça geral. Existiam muitos presos, fizeram o sequestro genial do embaixador americano, os mesmos americanos que patrocinaram o golpe não tiveram dúvidas: deram ordens para os generais atenderem a tudo, imediatamente. Começando por ler na televisão o que os sequestradores mandaram. 19 foram soltos, sequestram o embaixador da Alemanha, liberdade para mais 39.

Diversos deputados foram cercados, perseguidos, ameaçados. Dois eram jornalistas, Marcio Moreira Alves e Hermano Alves, nenhum parentesco. Marcio levou mais de um mês procurando um lugar para sair do Brasil, as fronteiras, vigiadíssimas. Contou tudo, depois, num livro admirável.

Hermano, notável jornalista, viveu os últimos 20 anos em Portugal, onde morreu em 2010. Saiu da seguinte maneira. O senador Afonso Arinos, como chanceler, ficou muito amigo do então chanceler do México, naquele momento embaixador no Brasil.

Arinos ligou para ele, perguntou, “me convida para almoçar”. A resposta era sim. Arinos botou Hermano na mala do carro, seguiu para Botafogo, sede da embaixada, que estava cercada, como todas. Mas parar um carro oficial?

O embaixador foi esperar o senador na porta, dentro da embaixada. Arinos contou o que estava fazendo, o embaixador disse, “o senhor não podia fazer isso”. Chamou se motorista, falou, “guarde o carro do senador, dirija você mesmo”. Não demorou, os três estavam almoçando, Hermano uma semana depois viajando para a Europa.

Waldir Pires, Darcy Ribeiro e outros que trabalharam com Jango, entraram na embaixada da Iugoslávia, o governo não criou problemas, foram todos para a Europa. Samuel Wayner estava na embaixada do Chile (36 pessoas num quarto e sala), conseguiu sair depois de dois meses. Foi para Paris.

EXPLICAÇÕES FINAIS SOBRE
ARRAES, JANGO, BRIZOLA, LACERDA

Arraes – Não tiveram complacência com ele. Tentaram apenas resolver um problema. Preso, não tinham certeza de mantê-lo vivo. Solto, se transformaria em mártir ou ídolo. Separados pela distância, ficaram tranquilos.

Jango – Nenhuma preocupação. Lembravam do Jango ministro do Trabalho, derrubado por alguns desses generais (então coronéis) em 1952, porque dobrou o salário mínimo. Saiu, não protestou, não reagiu. Achavam que teria o mesmo comportamento. Acertaram.

Brizola – Era a grande preocupação, aqui ou no exterior. Foi vigiadíssimo durante 15 anos, sabiam que com ele não haveria diálogo possível. Nem tentaram.

Lacerda – Ficaram felizes por estar do lado deles. Só que o ex-governador não apoiou o golpe e sim a própria candidatura presidencial, obsessão dele e de Brizola. Em 1965, antes da “Frente Ampla”, insistiram que fosse embaixador na ONU. Queriam se livrar dele. Nem conversou.

LACERDA, UM PÉSSIMO ANALISTA

Depois da “Frente Ampla”, foi abandonado por todos, principalmente os militares que o adoravam, agora desprezavam. No AI-5 foi preso no dia 13, cassado e asilado no dia 30. No dia 2 de janeiro, viajou para a Europa, teve a consideração de ir se despedir de mim e de Mario Lago, ficamos muito mais tempo.

Lacerda era um péssimo analista. Quando queria deslindar um problema, era a mim que recorria. Quando sabia o que eu ia dizer, era de mim que ele fugia. Sofreu muito. Jamais imaginou que ficaria tão sozinho e abandonado. Antes de viajar, escreveu artigo extraordinário, com o título: “Carta a um ex-amigo fardado”.

Desesperado, apaixonado, até surpreendido, tentou um encontro de contas com ele mesmo e com os ex-amigos. Não conseguiu. Ficou quatro ou cinco nos na Europa, voltou, se refugiou na Nova Fronteira, editora que adorava. Mas não abandonou a obsessão da Presidência.

Escrevi várias vezes, “gostaria de ver Lacerda ou Brizola na presidência”. Dialoguei com os dois nesse sentido, não tive o menor sucesso. Brizola ainda foi candidato, Lacerda nem isso.

João Goulart acabou com o futuro dos dois e o presente dele mesmo. Jango, discípulo e protegido sempre por Vargas, estaria glorificado para todo o sempre, se tivesse tido o fim do mestre.

Jango praticou o maior erro de todos: suicídio político, se mantendo vivo. Jogou o país na tragédia ditatorial de 21 anos. E ele mesmo, naufragou no ostracismo, sem direito a reabilitação, até mesmo histórica.

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26 thoughts on “Asilados, exilados, refugiados. Pânico e pavor dos ditadores, pela ordem: guerrilheiros, Arraes, Brizola, Jango. Por que tantos foram torturados, assassinados, desaparecidos?

  1. Hélio, a “Junta Militar” que dizes ter sido nomeada, na verdade tomou o poder e nele queria permanecer. Getúlio logo após a tomada dos quarteis do Exército que apoiavam o governo federal no Rio Grande do Sul, fez uma proclamação: Rio Grande do Sul, de pé, pelo Brasil! Não poderás falhar ao teu destino heróico. E desceu acompanhando a tropa em um trem. Deixou Osvaldo Aranha no governo. Quem devia substituí-lo era João Neves da Fontoura seu vice. Góis Monteiro disse a Getúlio que passasse o governo a Oswaldo Aranha; Getulio perguntou, mas a Constituição? Góis: Que Constituição? Estamos numa revolução. Não há mais ordem constitucional. Perto da fronteira de São Paulo a “Junta Militar” que se apossara do governo chegou a nomear interventores. Góis mandou um enérgico telegrama ao Catete. Getúlio imediatamente telefonou a Oswaldo Aranha que pegou um avião e descendo no Rio intimou a “Junta Militar” que queria perpetuar-se no poder a passar o governo incondicionalmente a Getúlio. A batalha que se esperava acontecer em Itararé virou piada.

  2. Ontem assisti um documentário sobre a operação Condor e os assassinatos das lideranças no cone sul.João Vicente, filho do Jango, é um dos entrevistados. Não escapou ninguém, pelo visto. Desde Jango, Jk e Lacerda, até no Uruguai, Paraguai, Bolívia, culminando com o assassinato de Letelier nos EUA, a mando de pinochet. Só arrefecendo com a chegada de Jimmi Carter ao poder na matriz. O arquivo (“toneladas” de documentos), desses crimes estava numa delegacia, em Assunção, Paraguai.

    Hoje, encontrei esse link sobre o assunto, abaixo:
    http://www.documentosrevelados.com.br/categoria/condor-2/page/4/

  3. Magnífica aula de nossa História Política recente. Apenas, análise um pouco dura com relação ao Presidente JOÃO GOULART, e Governador CARLOS LACERDA. JOÃO GOULART, um rico Empresário Rural, tentou fazer um “Estado Novo moderado”, mais ao molde do PERONISMO (República Sindicalista). Contava com apoio de parte das FORÇAS ARMADAS, (que depois se viu bem minoritária), dos Sindicatos, e tentou usar os Radicais Comunistas, etc, até atingir seus objetivos, depois descartar-se deles. Estes, Forças Radicais, Comunistas, etc, pensavam o mesmo do Presid. GOULART, usá-lo até chegar ao Poder, e depois descartá-lo. Nunca passou pela cabeça de GOULART, “armar o Povo”) e fazer Guerra Civil. Quando viu que perdia o controle da situação, forçou a barra nos Comícios da “Central do Brasil” (13 Mar 1964), e depois da crise da Marinha com a rebelião dos Sargentos, fez o Comício do Automóvel Club (30 Mar 1964) dirigido aos Sargentos do Exército, e assim quebrada totalmente a Hierarquia e Disciplina Militar, sofreu a Revolução de 31 Mar 64, e retirou-se para o Uruguai.

    O Gov. CARLOS LACERDA, defendia o desenvolvimento do Brasil via uma “Economia de Mercados Bem Regulada”, com predominância do Capital Nacional (Privado/Estatal), Mercado Interno forte e desenvolvimento AUTÔNOMO. Passada a crise de 64, arrumada a casa, defendia a volta ao Estado Democrático de Direito. Tinha contra si, o Capital Internacional e seus aliados Nacionais. Seu erro foi não ter “Forçado mais” o Alto Comando da Revolução 64, desde o começo e sempre, para a realização das Eleições já programadas para 1965.

    Lembremos no início do mês, de pagar pequena Mensalidade R$ 20/10 ou 5 para mantenimento de nosso bom “Tribuna da Imprensa onLine”. Dados no canto superior direito. Muito Obrigado.

  4. Hélio, o mistro Passarinho que você bem conhece, em entrevista na TV Senado disse: Todos que voltaram do exílio fizeram acôrdo com os militares(Golbery). Menos Brizola que era o único inimigo dos militares. Pergunta o entrevisatador: Até o Arraes? Resposta de Passarinho: Sim, até o Arraes. “Estou convencido que o desenho das próximas eleições se ajustam a terceira fase da abertura política idealizada por Golbery/Geisel: lenta, gradual e SEGURA.É só ver a lentidão/segura que estão tendo em encerrar a Comissão da Verdade”. Se a Comissão da Verdade encerrar-se antes de Outubro de 2014, Dilma perde; se prolongar-se Dilma ganha”.

  5. Prezado Mestre: Brizola tentou resistir ao golpe de 64.
    Ficou em Porto Alegre,nos Aptºdos amigos por mais 3 meses,antes de refugiar no Uruguai.

    obs:Sr. Lafayete,devido à abertura lenta e gradual do General Ernesto Geisel. A ultra direita(Silvio Frota).
    Nadir Figueredo(homem dos copos),não queria a volta do
    Drº BRIZOLA, e tentaram mato-lo.

  6. 1.Todos os jornais da época, inclusive a Tribuna da Imprensa, pediam a saída de Jango. menos a Última Hora, chapa branca.
    2. Se até na democracia tem tortura, como hoje mesmo com o caso Amarildo, e centenas que por aí que jamais será sabida, imagine numa ditadura.
    É bom lembrar que a ditadura cubana, sob a capa da religião socialista, essa mesma em que se escondem os covardes e malandros, para ficarem bem na fita com os ignorantes, matou e torturou mais que todas as ditaduras do cone-sul.
    3. Brizola era o inimigo total da ditadura. Ele sim era alvo de assassinato por ela. Jango, Juscelino e Lacerda morreram de morte morrida, por mais que alguns insistam com essa fantasia.
    4.O Brasil, com essa gente sentimentalizada ideologicamente até o osso, ainda continuará no atraso por mais uns 50 anos no mínimo.
    Os países que progrediram já saíram dessa há décadas e seus povos, bem instruídos, atingiram um grau de ceticismo suficiente para não ter fé em misticismos ideológicos.

  7. “Artur Bernardes, governador de Minas e presidente, extraordinário nacionalista, fez tremenda campanha contra a Hanna Minning, que tinha o monopólio do minério em Minas e no Brasil”, escreveu o Helio.
    Pronto!!! Para os que nos querem colônia dos Estados Unidos ou de qualquer outro país, aí está um quadro que permanece há décadas, graças principalmente aos maus brasileiros de sempre. Brasileiros que aceitam a submissão e a torpe exploração das nossas riquezas, para entregá-las aos grupos estrangeiros. Ladrões do nosso povo!!! E não só a Hanna Minning roubou o Brasil por tanto tempo; também a Saint John Minning Del Rey, a US STEEL e muitas outras. Os mais importantes minérios do mundo, sempre roubados por estrangeiros … com o aval (e ativa participação) de brasileiros como Roberto Campos, e tantos outros, para os quais somos uns idiotas, retardados mentais e imbecis, devemos ficar acorrentados às suas políticas de Lesa-Pátria.
    Helio escreveu durante décadas sobre o roubo descarado, escancarado e super aberto dos nossos minérios: descreveu-os, percentualizou-os, disse para que servem, onde estão, e … destacou: a imensa maioria desses minérios … só o Brasil tem, ou em percentual elevadíssimo.
    Foram páginas e páginas escritas pelo Helio e pelo Bautista Vidal, grande brasileiro!!! Então, ao ler aqui mesmo na Tribuna da Imprensa que “o Brasil não tem condições de firmar-se como grande Nação”, blablabla, dá vontade de chorar no meio-fio e chorar, como dizia o Nélson Rodrigues. Bastaria que o Brasil precificasse o que tem, O QUE É DE SUA PROPRIEDADE!!! DE PROPRIEDADE DO POVO BRASILEIRO!!! E os “mercados” ficariam de joelhos diante de nós, porque somos RICOS DE FATO. Mas … aí vem “os reis das contas furadas”, argumentando que o Brasil deve estar sempre a reboque dos Estados Unidos, etc, pois não temos condições para competir no mercado internacional, que não temos nada, etc. Ora, vale repetir: nossas riquezas – muitas as temos quase que com exclusividade – são gigantescas!!! Só o estado do Pará … só o estado do Pará … tem a maior Reserva Mineral do mundo!!! E tudo é ROUBADO VERGONHOSAMENTE DE LÁ!!!
    Viva Artur Bernardes!!!
    Viva Bautista Vidal!!!
    Viva Helio Fernandes!!!
    Viva o BRASIL!!!

  8. Helio, ontem assisti o filme “O CAPITAL”, do grande COSTA GRAVAS. O tema aborda o funcionamento dos bancos internacionais e suas práticas, suas diretorias sempre trambiqueiras, as negociações que produzem e espalham (conscientemente) tanto Terror pelo mundo e como eles operam sempre em favor deles mesmos, conseguindo fortunas colossais.
    Na cena final, o presidente reeleito do tal bancão (após manobras diabólicas, que causaram imensos prejuízos aos mercados, mas que trouxeram lucros imensos para os acionistas), discursou:
    “Somos uns Robin Hoods ao contrário!!! Roubamos dos pobres para dar para os ricos!!! Eles têm mais é que construir nossas fortunas, mesmo!!!”
    Neste momento, o ator que é presidente vira-se para a câmera e diz:
    “Estão todos como crianças, se divertindo. Mas, um dia, tudo isso explode …”

  9. Bortolotto, você segue como um mastin as pegadas de Lacerda que repercutiu a falacia da “república sindicalista”. Estás encucado com essa “estória” plantada pelos inimigos de Getúlio que eram os mesmos de Jango. Quem da turma fanática do udenismo tentou redimir-se perante a história, foi Lacerda com a “Frente Ampla” que era impossível de dar certo. Ao menos tentou, mesmo que, seu primeiro beneficiário fosse ele. Lacerda tinha lampejos de inteligência e entendeu que fora usado pelos militares e americanos. Na verdade Lacerda foi vítima da “autofagia revolucionária”. Muitos militares, inclusive o sanguinário Burnier, que esteve no palácio( ameaçado de invasão pelo almirante Aragão), para defender Lacerda voltou-se contra ele. O pior de tudo são seus jovens admiradores, a maioria estudantes. Que hoje flanan na passarela política e quando é falado o nome de Lacerda, torcem o nariz. Dou dois exemplos: José Dirceu udeno/lacerdista apoiou a ditadura, voltando-se contra os militares quando Lacerda foi alijado do processo político com sua cassação em 1969. O outro é Chico Buarque, ganhou em primeiro lugar o Festval do Maracanãzinho derrotando Geraldo Vandré em 1968 com dois americanos no juri; depois com a cassação de Lacerda voltou-se contra os militares, fazendo músicas que os militares entendiam como mensagens contra a revolução. Na “Tribuna Escrita”, entrevistado diz Chico sobre sua relação com os militares: Eles enchiam o meu saco e eu enchia o deles. Lacerda não o poupou: Chico faz parte da “esquerda festiva”. Lacerda nos ensina a distiguir e saber o que significa “esquerda festiva”. Festiva era aquela esquerda que dizia ser contra o governo militar mas ficava encrustada gozando de suas benesses. Chico é o exemplo flagrante desse termo: Era contra o governo, mas, ficou bilionário vendendo discos e fazendo apresentaçõe e filmes no Brasil governado por ditadores. Muitos estudantes apoiaram o golpe de 1964. Houve uma inflexão quando da morte de Edson Luis e principalmente com a cassação de Lacerda, voltando-se todos contra os militares.

    • Prezado Sr. ANTONIO SANTOS AQUINO, Saudações.

      Como sempre, o senhor com sua inteligência e experiência, Comentou muito bem. Apenas discordo das duas primeiras linhas na qual o senhor diz que LACERDA repercutiu a “falácia” da “República Sindicalista”, que o Presidente JOÃO GOULART, era acusado de tentar implantar.
      O Presidente GOULART (Reformista), já havia tentado várias vezes, via Congresso Nacional, Intervenção Federal no Estado da Guanabara, onde governava CARLOS LACERDA UDN-GB / ELÓI DUTRA PTB-GB, e não conseguia Votos suficientes. Para implantar suas Reformas de Base, tentava aprovar Emendas Constitucionais, e não conseguia maioria. No seu famoso Comício da Central do Brasil(13 Mar 64), acusou as Forças Armadas e Congresso Nacional de serem controladas por forças Conservadoras Retrógradas que imobilizavam tudo, e propugnava “Reformas Constitucionais”, sem as quais nada se poderia fazer para o bem do Povo. Palavras textuais do Presid. GOULART no famoso Comício, ” Tenho autoridade para lutar pela Reforma da atual Constituição (1946), porque esta Reforma é indispensável, e porque seu objetivo único é abrir caminho para a solução harmônica dos problemas que afligem o nosso Povo”. É lógico que se falava muito em mudar também a Constituição para permitir a re-Eleição, e LACERDA tinha medo que GOULART assim, se re-elegesse eternamente. Depois começou-se a falar em Reformas NA LEI OU NA MARRA. Baseado nisso, não nos parece “exagero”, o que LACERDA pensava, dos Planos do Presidente JOÃO GOULART. Abrs.

    • Sr. Newton. Por favor, retire o texto acima, pois, de fato, apesar de ser detalhista na explicação de como se deu a crise financeira americana, ficou muito longo.

      Retire-o, por favor. E me desculpe.

  10. Como ocorreu a crise financeira americana

    ESCRITO POR LEANDRO ROQUE

    Segundo a imprensa mundial, o mês de setembro de 2013 marcou o aniversário de 5 anos da crise financeira americana. Mas a crise, no entanto, começou realmente um ano antes, em agosto de 2007, quando correntistas correram ao banco britânico Northern Rock para sacar seu dinheiro, levando o banco à falência. Esta foi a primeira corrida bancária em grande escala ocorrida desde 1930.

    São inúmeros os analistas, comentaristas e, principalmente, acadêmicos que já se aventuraram a dar seus vaticínios sobre a crise financeira americana. No entanto, ausente de todos os comentários está aquele componente indispensável para toda e qualquer análise econômica minimamente séria e sensata: a imparcialidade. E presente em todos os comentários está aquele componente do qual, hoje em dia, ninguém abre mão: a propaganda ideológica.

    A melhor maneira de se entender corretamente e de modo fácil todas as nuanças da crise financeira americana é fazendo uma narração cronológica e desideologizada dos eventos. Caberá ao leitor, no final, concluir qual dos dois lados tem razão: se aqueles que dizem que tudo foi causado por uma falta de regulamentação ou se aqueles que dizem que tudo foi causado por excesso de intervenção estatal.

    A tempestade perfeita

    A crise financeira americana — a qual foi gerada pelo estouro de uma grande bolha imobiliária — teve características grandiosas e espetaculares simplesmente porque ela apresentou uma combinação de elementos até então inédita na história de qualquer economia mundial. Nem mesmo a colossal crise financeira japonesa do início da década de 1990 — que também foi gerada pelo estouro de uma bolha imobiliária — apresentou uma conjunção tão harmoniosa de elementos a ponto de produzir um estrago semelhante.

    Até o início da década de 1970, quando os EUA ainda viviam sob alguns resquícios de padrão-ouro, os preços dos imóveis permaneceram praticamente constantes. Durante a década de 1970, os preços praticamente duplicaram, mas isso foi efeito da alta inflação monetária ocorrida naquela década (que ficou conhecida como a década perdida dos EUA), e não especificamente de uma bolha. Já durante a década de 1980 houve um mini-bolha, a qual estourou no início da década de 1990 (aficionados por economia podem pesquisar sobre a retração do mercado imobiliário americano nesta época).

    A partir de 1993, início do governo Clinton, os preços voltaram a subir continuamente. E aceleraram vertiginosamente a partir de 2001 até entrarem em colapso em 2008.

    Logo, partindo-se deste gráfico, dois eventos devem ser analisados:

    1) O que gerou a ascensão de preços a partir de 1993?

    2) O que gerou a súbita aceleração a partir de 2003?

    A década de 1990

    Foi na década de 1990 que duas políticas governamentais voltadas exclusivamente para o setor imobiliário — mais especificamente, para aumentar o número de proprietários de imóveis — foram intensificadas. Digo “intensificadas” porque estas políticas já existiam desde a década de 1970, mas foi somente na década de 1990 que elas ganharam poder total.

    Quais foram estas políticas?

    Fannie Mae e Freddie Mac

    De um lado, havia duas empresas nominalmente privadas, mas que atendiam exclusivamente aos desejos do governo federal. Estas duas empresas se tornaram mundialmente conhecidas em 2008, quando houve a quebradeira: trata-se da Federal National Mortgage Association (popularmente conhecida como Fannie Mae) e a Federal Home Loan Mortgage Corporation (popularmente conhecida como Freddie Mac).

    Essas duas empresas foram criadas pelo Congresso americano e são oficialmente conhecidas como “empresas apadrinhadas pelo governo”, pois usufruem vários privilégios concedidos pelo governo. Primeiro, vamos entender o que elas fazem; depois, veremos por que elas são assim conhecidas.

    Fannie Mae e Freddie Mac são empresas voltadas exclusivamente para o mercado imobiliário. Mais especificamente, elas são empresas que existem para garantir liquidez ao mercado de hipotecas. Elas não emprestam dinheiro para compradores de imóveis; elas apenas compram estes empréstimos dos bancos.

    Funciona assim: um americano vai a um banco comercial qualquer e pede um empréstimo para comprar um imóvel. Ato contínuo, o banco cria dinheiro eletrônico e acrescenta estes dígitos eletrônicos na conta do tomador de empréstimo, que agora utilizará este dinheiro para comprar um imóvel. Por uma questão de regra contábil, sempre que um banco concede um empréstimo, ele está criando um ativo e um passivo: o ativo é o valor do empréstimo, o passivo é o dinheiro que ele deu ao tomador de empréstimo.

    Atenção, pois esta parte é crucial: se um banco concede um empréstimo, o valor do seu ativo aumenta. Quanto mais empréstimos ele concede, maior o valor do seu ativo (e, consequentemente, do seu passivo). Por uma questão de regulamentação bancária (tanto do Banco Central americano quanto do Banco da Basileia), há um limite para o crescimento destes ativos. Em termos técnicos, os ativos têm de manter uma proporção máxima em relação ao patrimônio líquido do banco. Portanto, um banco não pode sair concedendo empréstimos a rodo, pois ele rapidamente atingiria este limite determinado.

    E é exatamente nesse ponto que Fannie e Freddie entram em cena. A função destas empresas era comprar dos bancos comerciais exatamente estes empréstimos (títulos hipotecários) que eles concediam para compradores de imóveis.

    Ou seja: quando um banco comercial concedia um empréstimo imobiliário, ele colocava em seus ativos o valor total do empréstimo. Mas se ele vendesse esse ativo (título hipotecário) para uma terceira parte, este ativo sairia de seus livros contábeis, ele receberia de volta a quantia que emprestou (na verdade, receberia um valor mais alto) e, em seguida, estaria livre para voltar a fazer novos empréstimos sem ultrapassar aquele limite entre ativos e patrimônio líquido estabelecido pelo Banco Central.

    Em resumo: Fannie e Freddie, ao comprarem as carteiras de empréstimos imobiliários dos bancos, permitiam que os bancos dessem continuidade aos seus empréstimos. Em outras palavras, após um banco conceder um empréstimo para um comprador de imóveis, ele podia vender este empréstimo para Fannie ou Freddie. Ato contínuo, este empréstimo não mais estaria nos livros contábeis do banco, o qual estaria agora livre para fazer novos empréstimos.

    Uma vez em posse dos títulos hipotecários, Fannie e Freddie agora eram as responsáveis pelos empréstimos. A relação agora era entre elas e os tomadores de empréstimos imobiliários. Enquanto estes continuassem pagando suas hipotecas, Fannie e Freddie continuariam tendo um fluxo de caixa. Se os tomadores de empréstimos dessem o calote, Fannie e Freddie teriam enormes prejuízos. Seus títulos hipotecários seriam remarcados para um valor zero e o patrimônio líquido de ambas seria severamente afetado.

    Observe que os bancos que fizeram os empréstimos originais estão fora da jogada. Eles não mais são os responsáveis pelo empréstimo e não mais lidam com o tomador do empréstimo. Eles estão livres para voltar ao mercado imobiliário e conceder novos empréstimos. Era uma espécie de moto-perpétuo.

    Fannie e Freddie tinham duas opções: elas podiam manter em suas carteiras os empréstimos que compraram dos bancos (e, assim, aufeririam as receitas) ou podiam empacotar esses empréstimos e vender para investidores ao redor do mundo. Esses empréstimos imobiliários vendidos por Fannie e Freddie para os investidores ao redor do mundo ficaram conhecidos como “títulos lastreados em hipotecas” (as famosas mortgage-backed securities).

    Tradicionalmente, quando uma pessoa pega um empréstimo para comprar um imóvel, cria-se uma dívida entre ela e o banco. Se a pessoa irá honrar sua dívida ou não, é problema do banco. No cenário americano, Freddie e Fannie fizeram com que os bancos não mais se preocupassem com nada disso, pois eles sabiam que, tão logo concedessem um empréstimo imobiliário, Fannie e Freddie estavam lá para comprar este empréstimo a um valor acima do montante concedido.

    Desnecessário dizer que todo este processo — ao facilitar enormemente a compra de imóveis — gerou muito mais empréstimos imobiliários do que normalmente ocorreria. Este direcionamento artificial de recursos para o mercado imobiliário aditivou os preços dos imóveis.

    Freddie e Fannie usufruíam uma linha especial de crédito junto ao Tesouro americano, no valor de US$2,25 bilhões. Esta garantia implícita de proteção conseguiu atrair um contínuo financiamento de investidores — que investiam dinheiro nestas empresas e compravam seus títulos lastreados em hipotecas —, pois estes investidores sabiam que, caso a coisa degringolasse, Fannie e Freddie seriam socorridas pelo governo americano.

    (Para se ter uma ideia da amplitude destas empresas, em setembro de 2008, quando o governo americano efetivamente nacionalizou ambas as empresas, elas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas.)

    Por fim, vale ressaltar que Fannie e Freddie estavam profundamente envolvidas em politicagem. A Fannie, mais especificamente, foi utilizada por políticos democratas que queriam diminuir as exigências que a empresa impunha para conceder empréstimos a pessoas de mais baixa renda. Tudo em nome de estar ajudando os “necessitados”. Em setembro de 1999, ninguém menos que o próprio The New York Times publicou uma reportagem dizendo que a Fannie Mae estava afrouxando as exigências de crédito para as hipotecas que ela comprava dos bancos. Segundo o próprio Times, a iniciativa era perigosa porque iria

    “estender hipotecas para indivíduos cujo histórico de crédito não são bons o suficiente para se qualificarem para empréstimos convencionais. […] A Fannie Mae tem estado sob intensa pressão do governo Clinton para dar sustentação a hipotecas de pessoas de renda baixa e moderada. […] [Embora] as novas hipotecas sejam estendidas para todos os potenciais tomadores de empréstimos, [um dos objetivos do programa é] aumentar o número de proprietários de imóveis entre as minorias e os indivíduos de baixa renda, os quais tendem a apresentar um histórico de crédito pior que os dos brancos não-hispânicos.

    Ao se aventurar, mesmo que temporariamente, nesta nova área de empréstimos, a Fannie Mae está assumindo riscos consideráveis. […] Esta corporação subsidiada pelo governo pode vir a enfrentar problemas caso haja uma recessão econômica, o que levará o governo a socorrê-la.”

    Ou seja, até mesmo o The New York Times já havia percebido o risco envolvido nessa nova empreitada.

    Não é o intuito deste artigo entrar em detalhes sobre o funcionamento de Freddie e Fannie, pois isso tomaria o espaço de um livro. Há uma ampla literatura dedicada exclusivamente ao assunto (neste site há inclusive um artigo dedicado exclusivamente a estas empresas) e nada do que foi dito aqui é controverso. Políticos democratas utilizaram estas agências para garantir que minorias e pessoas de baixa renda, sem nenhum histórico de crédito, conseguissem empréstimos para comprar a casa própria. Estas seriam as mesmas pessoas que, como veremos mais abaixo, começaram a dar calotes nos empréstimos.

    CRA e ações afirmativas

    Mas apenas Fannie e Freddie não seriam capazes de estimular todo o mercado imobiliário, e muito menos o mercado subprime (subprime se refere a tomadores de empréstimo com histórico de crédito ruim). É aí que entra em cena a segunda política governamental: ação afirmativa para empréstimos.

    Fannie e Freddie não eram as únicas entidades utilizadas para reduzir os padrões de empréstimos. Agências governamentais de vários tipos começaram a pressionar os bancos a fazerem empréstimos mais arriscados, e tudo em nome da “igualdade racial”. Caso se recusassem a assumir este comportamento temerário, os bancos poderiam ser legalmente processados por discriminação e racismo.

    Em 1992, um estudo feito pela sucursal do Federal Reserve de Boston afirmou ter encontrado claras evidências de que, mesmo levando-se em conta as diferenças na capacidade creditícia de cada indivíduo, as minorias recebiam menos empréstimos do que os brancos. Tal estudo foi considerado como definitivo por aqueles já dispostos a acreditar em sua conclusão: a saber, que os bancos americanos discriminavam negros e hispânicos — mas, curiosamente, não discriminavam os asiáticos, que recebiam ainda mais empréstimos do que os brancos.

    Este estudo ressuscitou uma lei conhecida Community Reinvestment Act. Trata-se de uma lei criada ainda no governo de Jimmy Carter, no final da década de 1970, e que foi plenamente revigorada no governo Clinton. Esta lei deixou os bancos à mercê de processos por discriminação caso eles não emprestassem para minorias em um volume suficientemente alto, que satisfizesse as autoridades.

    De acordo com as regras do Community Reinvestment Act (CRA), se um banco quisesse fazer qualquer alteração em suas operações comerciais — fusão, abertura de uma filial, entrada em uma nova linha de negócios —, ele deveria primeiro provar aos reguladores que ele, o banco, já fez uma quantidade “suficiente” de empréstimos aos mutuários preferidos do governo — no caso, minorias e pessoas de baixa renda.

    E, a partir de 1995, o governo americano passou a pressionar os bancos para que fizessem empréstimos sem que pudessem verificar critérios minimamente prudentes, como histórico de crédito do tomador de empréstimo, seu histórico de poupança e a magnitude do pagamento da hipoteca em relação à sua renda. Os bancos não podiam nem sequer verificar a renda do mutuário. Adicionalmente, o Banco Central americano havia dito aos bancos que a simples participação deste mutuário em programas de aconselhamento de crédito, muitos dos quais são financiados com fundos federais, poderia ser usada como “prova” da capacidade desse mutuário de baixa renda honrar seus pagamentos hipotecários. Em outras palavras, os reguladores bancários federais exigiram que os bancos fizessem empréstimos ruins baseando-se em padrões de crédito inexistentes.

    Vale novamente enfatizar que nada do que foi escrito até agora é matéria de controvérsia ou de dúvidas. Toda a literatura a respeito do CRA e das políticas de ação afirmativa impostas por este decreto são de conhecimento público. Para detalhes mais profundos sobre o tema, recomendo este artigo, bem como todas as suas referências bibliográficas.

    A década de 2000 — a intensificação de tudo

    Até aqui, falamos apenas sobre duas políticas governamentais voltadas para estimular a aquisição de imóveis: as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, e o decreto CRA.

    Estas duas políticas governamentais ajudam a explicar por que houve uma bolha imobiliária, mas elas por si sós não justificam toda a amplitude da bolha imobiliária. Adicionalmente, como mostrado no gráfico 1, foi só a partir da década de 2000 que os preços dos imóveis realmente dispararam. Por quê?

    Incentivos à especulação

    Em primeiro lugar, é crucial entender a questão dos incentivos. A partir do momento em que os critérios exigidos para se conceder empréstimos imobiliários foram artificialmente relaxados por imposição do governo americano, e a partir do momento em que o próprio governo adotou políticas que estimulavam a aquisição de imóveis, foi apenas uma questão de tempo para que o setor imobiliário se tornasse um território propício à especulação.

    O aumento na demanda por imóveis — estimulado pelo acesso artificialmente facilitado aos financiamentos — gerou um inevitável e contínuo aumento nos preços dos imóveis. Este aumento contínuo, por sua vez, produziu o “inesperado” efeito de atrair especuladores para o mercado imobiliário. Tornou-se extremamente comum um indivíduo adquirir um empréstimo, comprar uma casa, fazer alguns aprimoramentos nesta casa e, apenas um ano depois, revendê-la a um preço muito maior, entregando a hipoteca para o novo comprador que, seis meses depois, faria a mesma coisa que seu antecessor. Ou seja, comprar um imóvel havia virado um investimento altamente rentável e de ganho certo.

    Aqueles que não compravam com a intenção de revender passaram a utilizar suas casas como um caixa eletrônico: sempre que o imóvel se valorizava, o indivíduo ia ao banco e, utilizando o novo valor da sua casa como colateral, negociava um novo empréstimo para gastar em bens de consumo, como carros e televisores de plasma.

    Um arranjo como este perdura enquanto os preços dos imóveis estiverem em ascensão. Se os preços começarem a cair, duas coisas ocorrerão: a revenda do imóvel passará a dar prejuízo e o valor da hipoteca será maior do que o valor do imóvel, o que impedirá qualquer tipo de renegociação com os bancos e deixará o mutuário com um patrimônio negativo. Em suma, todo o esquema especulativo virá abaixo. E não apenas isso: dar o calote e abandonar o imóvel passará a ser a opção mais racional (e, como veremos mais abaixo, foi isso o que ocorreu no final da década.)

    Agências de classificação de risco

    Mas o que tornou possível essa contínua especulação? O que fez com que Fannie e Freddie fossem capazes de comprar e revender títulos lastreados em hipotecas ininterruptamente? Como dito acima, em setembro de 2008, ambas as empresas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas. De onde vieram os fundos que permitiram isso? Resposta: de duas fontes.

    Em primeiro lugar, não se pode de modo algum ignorar a função deletéria exercida pelas agências de classificação de risco, como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s. Sem elas, a bolha imobiliária certamente teria sido menor. Qual foi o estrago que elas fizeram?

    Para entender, voltemos àquele exemplo prático dado logo no início do artigo. Um americano típico, John Smith, vai a um banco qualquer e consegue um empréstimo para comprar um imóvel. Ato contínuo, este banco irá revender este empréstimo (que é um ativo) para Fannie e Freddie. Ambas terão a opção de ou manter este ativo ou revender este ativo. Na maioria das vezes, como mostram os números do parágrafo acima, elas mantinham este ativo em suas carteiras. Porém, em vários casos, elas empacotavam estes ativos e revendiam para investidores de todo o mundo, em sua esmagadora maioria grandes conglomerados financeiros e grandes bancos de investimento.

    Bear Stearns, Lehman Brothers, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Merril Lynch, Morgan Stanley, Citibank, Bank of America eram os compradores americanos mais famosos, ao passo que Barclays, Royal Bank of Scotland e Northern Rock (Reino Unido), BNP Paribas e Société Générale (França), Credit Suisse e UBS (Suíça), e Deutsche Bank (Alemanha) eram os mais famosos compradores da Europa.

    Esta prática de empacotar ativos e revendê-los é chamada de securitização. O principal problema com esta securitização é que ela misturava ativos bons (mutuários com bom histórico de crédito) com ativos ruins (mutuários sem nenhum histórico de crédito) no mesmo pacote. Logo, quem comprava um pacote contendo ativos bons também acabava por tabela adquirindo ativos ruins. Qualquer calote dos ativos ruins afetaria sobremaneira os balancetes destas instituições.

    Portanto, a pergunta inevitável é: como estes grandes bancos foram seduzidos a comprar estes ativos (tecnicamente chamados de derivativos de crédito) contaminados? Resposta: porque agências de classificação de risco, como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s, deram classificação máxima (AAA) para estes ativos.

    O que nos leva à próxima pergunta: por que estas agências cometeram erros tão crassos? As respostas variam. Há quem diga que, como durante todo o período os preços dos imóveis só faziam subir e os títulos lastreados em hipotecas estavam gerando grandes retornos, com pouquíssimos calotes, as agências optaram pela decisão superficial de classificá-los de maneira extremamente favorável. Há também quem diga que todos os departamentos do governo federal americano que possuíam ligações com o setor imobiliário e que estavam incentivando políticas de compra de imóveis fizeram pressão neste sentido. Neste caso, as agências de classificação de risco simplesmente não quiseram se opor a iniciativas politicamente populares.

    O que realmente se sabe é que estas três agências de classificação de risco são um cartel estritamente regulado pela SEC (a CVM americana). É a SEC quem permite a existência destas três agências, e é ela quem regulamenta e decide quem pode e quem não pode entrar neste mercado.

    Na prática, isso significa que não pode surgir concorrência externa, pois o governo não deixa. Quem vai ter cacife para bancar uma agência de classificação de risco que seja genuinamente independente neste cenário altamente regulamentado? Há um longo e extenuante processo burocrático-regulatório, de modo que é impossível surgir uma agência para confrontar as classificações destas três grandes.

    Portanto, é perfeitamente plausível imaginar que estas três agências não iriam querer criar turbulência política e se indispor com o governo americano rebaixando a classificação dos títulos hipotecários. Isso poderia colocar em risco seu privilegiado cartel (totalmente protegido pelo governo americano) e, consequentemente, afetar seus portentosos lucros. O fato é que estas agências merecem toda a culpa que lhes foi atribuída. Elas estavam apenas fazendo o que o governo lhes mandava.

    O principal culpado de tudo

    No entanto — e este é o tema desta seção — absolutamente nada disso teria sido possível caso não houvesse uma entidade com o poder legal de criar dinheiro do nada e injetar este dinheiro no setor bancário para que os bancos pudessem continuamente criar mais empréstimos. Sem uma entidade alimentando todo este sistema com dinheiro criado do nada, não teria sido possível que (1) os empréstimos bancários para a aquisição de imóveis aumentassem continuamente por 15 anos; (2) que os preços dos imóveis disparassem, alimentando todos os tipos de atividades especulativas; (3) que Fannie Mae e Freddie Mac fossem capazes de atrair um volume cada vez maior de dinheiro de investidores por contarem com a proteção implícita do governo; (4) que o decreto CRA fosse bem-sucedido em obrigar os bancos a continuamente fazer empréstimos para pessoas com histórico de crédito duvidoso.

    Em suma: sem um Banco Central criando dinheiro e dando este dinheiro aos bancos para que estes concedessem empréstimos — e, com isso, fizessem com que a quantidade de dinheiro na economia americana aumentasse continuamente —, não teria como haver uma bolha imobiliária. Certamente, não uma bolha destas proporções.

    Todo este novo dinheiro criado pelo Banco Central americano (Fed) e multiplicado pelo sistema bancário por meio do processo de reservas fracionárias foi majoritariamente canalizado para o setor imobiliário. E, para intensificar ainda mais as distorções, os critérios excessivamente frouxos para a concessão de empréstimos — critérios estes gerados por políticas governamentais criadas exatamente com este propósito — fizeram com que especulações e compras imobiliárias excessivas parecessem investimentos geniais.

    Portanto, eis o resumo: as medidas governamentais visando à redução dos padrões de empréstimos em conjunto com os privilégios usufruídos pelas para-estatais Fannie Mae e Freddie Mac desviaram para o setor imobiliário uma fatia extremamente volumosa de todo o dinheiro que o Banco Central e o sistema bancário do EUA estavam criando. Para tornar a tempestade ainda mais perfeita, as agências de classificação de risco contribuíram para a bagunça concedendo classificação máxima para todos os títulos imobiliários oriundos deste arranjo, principalmente aqueles títulos de emprestadores sem nenhum histórico de crédito. Isso fez com que os grandes bancos americanos, e também os grandes bancos estrangeiros, comprassem títulos hipotecários em quantias volumosas, permitindo que Fannie e Freddie continuassem dando liquidez ao mercado imobiliário, perpetuando a bolha.

    Mas foi o Fed, em última instância, quem tornou possível todo o boom artificial do setor imobiliário, e foi todo o dinheiro por ele criado quem forneceu o principal estímulo à subida estrondosa dos preços dos imóveis vista na década de 2000.

    Anatomia do colapso

    Tendo em mente todo este arranjo, e sabendo como tudo funcionava, podemos agora ver como tudo ocorreu.

    A bonança

    Todo o processo começou a ser desencadeado no final do ano 2000, quando houve o estouro da bolha das empresas de tecnologia. Temendo uma iminente recessão, o Fed aumentou suas injeções de dinheiro no sistema bancário para gerar uma redução nos juros. Estas injeções de dinheiro foram intensificadas logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Durante este período, a taxa básica de juros da economia americana caiu de 6,5% para 1%. E assim ficou até meados de 2004.

    Este aumento na base monetária deixou os bancos repletos de dinheiro para ser emprestado. E emprestar foi o que eles fizeram, e majoritariamente para o setor imobiliário.

    Vale observar que, de 2000 a 2008, o crédito total aumenta incríveis 100%, de US$3,5 para US$7 trilhões. Isso significa que o sistema bancário, estimulado pelo Fed, jogou US$3,5 trilhões na economia americana em apenas 8 anos. Para a aquisição de imóveis foram direcionados “módicos” US$2 trilhões (de US$1,5 trilhão para US$3,5 trilhões).

    Ou seja, dos US$3,5 trilhões jogados na economia, US$2 trilhões foram para o setor imobiliário. Acrescente a isso todas as medidas governamentais citadas ao longo deste artigo, e realmente não há absolutamente nenhum motivo para se estranhar a bolha imobiliária que foi formada.

    Isso explica toda aquela elevação de preços observada no gráfico 1. De 1993 a 2006, os preços dos imóveis se apreciaram acentuadamente. Em alguns mercados específicos, até mesmo os preços das moradias mais simples se tornaram astronomicamente altos. Esta subida nos preços estimulava novos investimentos em mais construções de imóveis, o que gerava um aumento na oferta de imóveis. E este aumento na oferta de imóveis viria, mais à frente, a exercer uma pressão baixista nos preços dos imóveis.

    O colapso

    A partir de meados de 2004, com a economia americana já recuperada da recessão de 2001, o Fed começou a reduzir o ritmo de injeções de dinheiro no sistema bancário. Consequentemente, os juros começaram a subir.

    Este aumento da taxa básica de juros de 1% para 5,25% afetou as taxas de juros dos empréstimos imobiliários. Os juros das hipotecas com taxas ajustáveis saem de uma mínima de 3,5% no início de 2004 e vão para quase 6% em meados de 2006. Já os juros das hipotecas convencionais, de 30 anos, vão de 5,5% para quase 7% neste mesmo período.

    Este aumento dos juros esfriou a demanda por imóveis. Uma redução na demanda por imóveis em conjunto com um acentuado aumento na oferta de imóveis gerou o inevitável: no final de 2006, os preços começaram a cair.

    A queda nos preços — na realidade, a percepção de que os preços não mais iriam aumentar — arrefeceu toda a atividade especulativa. Pessoas que haviam comprado imóveis para especular viram que a festa havia acabado. O que elas fizeram? Simplesmente pararam de pagar suas hipotecas. Deram o calote. Por quê? Porque elas haviam pegado empréstimos extremamente generosos, que não exigiam absolutamente nenhum pagamento de entrada. Elas simplesmente abandonaram seus imóveis. Não perderam nada.

    Já outras pessoas pararam de pagar suas hipotecas simplesmente porque o aumento dos juros havia tornado impossível continuar honrando suas prestações.

    A combinação destes dois fatores fez com que os calotes totais nos empréstimos imobiliários disparassem. Começou timidamente em 2006. Disparou em 2007. Foi para a estratosfera em 2008.

    De 2005 até o final de 2008, os calotes pularam de US$20 bilhões para US$170 bilhões. Um aumento de 750% em 4 anos.

    A partir daí, o resto é história. O aumento nos calotes fez com que todos os bancos de investimento que haviam comprados títulos lastreados em hipotecas repentinamente não mais auferissem essa receita. O valor destes ativos caiu para zero. Uma redução nos ativos sem uma concomitante redução nos passivos fez com que vários destes bancos sofressem uma brutal redução em seu capital (patrimônio líquido). Com o capital afetado, os bancos simplesmente pararam de conceder novos empréstimos, inclusive entre eles próprios no mercado interbancário. Isso gerou o famoso problema do congelamento do mercado de crédito. (Veja no gráfico 3 como a linha azul se torna plana no primeiro semestre de 2008). Consequentemente, vários bancos começaram a enfrentar sérios problemas de liquidez.

    Essa crise começou a se tornar mundialmente visível em agosto de 2007. No dia 9 daquele mês, o banco francês BNP Paribas anunciou que estava suspendendo saques em dois dos seus fundos que haviam investido volumosamente em títulos lastreados em hipotecas americanas. Isso afetou o banco britânico Northern Rock, que dependia exatamente destes fundos de investimento para conseguir liquidez. Incapaz de conseguir um empréstimo de curto prazo no mercado bancário, o Northern Rock recorreu ao Banco Central da Inglaterra para pedir um empréstimo de 3 bilhões de libras. Tudo parecia estar indo bem, exceto por um detalhe: um informantedentro do Banco da Inglaterra alertou a BBC sobre a operação no dia 13 de setembro de 2007. A notícia de que o banco estava insolvente se espalhou como fogo na pólvora e, na manhã seguinte, houve uma corrida bancária ao Northern Rock, com correntistas ávidos para sacar seu dinheiro. Foi a primeira corrida bancária em larga escala desde 1930. O governo britânico anunciou que iria garantir todos os depósitos do banco. No dia 17 de fevereiro de 2008, após o governo recusar várias ofertas de aquisição pelos outros bancos, o Northern Rock foi nacionalizado.

    Daí por diante, todo o castelo de cartas começou a desabar.

    O banco de investimentos Bear Stearns se tornou insolvente em março de 2008. O Tesouro americano orquestrou sua aquisição pelo JP Morgan.

    No dia 7 de setembro, Fannie Mae e Freddie Mac foram nacionalizadas completamente.

    Na semana seguinte, o Fed orquestrou a aquisição do Merril Lynch pelo Bank of America.

    No dia 15 de setembro, o Lehman Brothers anunciou sua falência. Não houve socorro.

    No dia seguinte, a seguradora AIG, de alcance global, também anunciou que estava sem dinheiro. O caso da AIG é interessante. Ela repentinamente se descobriu sem dinheiro não porque havia investido em títulos lastreados em hipotecas, mas sim porque havia emitidos seguros contra o calote de hipotecas (os chamados “credit default swaps”). Sempre que uma instituição era caloteada por algum devedor, ela recorria à AIG, que havia emitido apólices contra esses calotes hipotecários. Com a súbita disparada nos calotes, a AIG repentinamente foi para o vermelho.

    E por que a AIG havia emitido tantas apólices de seguro contra calotes de hipotecas? Porque ela havia sido informada pelo governo de que os preços dos imóveis jamais cairiam, e havia também sido informada pelas três agências de classificação de risco e que os títulos lastreados em hipotecas eram AAA — isto é, extremamente confiáveis e seguros. Ou seja, em troca desta segurança prometida, a AIG emitiu várias apólices e coletou uma boa soma em prêmios. Até que tudo se reverteu, e todos os bancos foram correndo reclamar suas indenizações.

    No total, até o fim do ano de 2008, o Fed viria a emprestar US$125 bilhões para a AIG em troca de 80% da empresa. Segundo o The New York Times, esta foi “a mais radical intervenção no setor privado em toda a história do Banco Central”.

    Após todas estas intervenções, o Fed assumiu uma postura totalmente inaudita em toda a sua história: ele simplesmente passou a comprar todos os títulos hipotecários em posse dos bancos. Ou seja, ele passou a imprimir dinheiro e dar aos bancos em troca dos títulos hipotecários em posse destes bancos. Isso limpou o balancete dos bancos e fez com que a base monetária explodisse. No entanto, e felizmente, todo este aumento da base monetária não se converteu em expansão do crédito. Ou seja, os bancos não jogaram este dinheiro na economia. A quase totalidade do aumento da base monetária transformou-se em “reservas em excesso”. “Reservas em excesso” são as reservas que os bancos mantêm voluntariamente depositadas junto ao Fed, além do volume determinado pelo compulsório.

    Toda esta nova política adotada pelo Fed resultou em um generoso e gratuito subsídio para o sistema bancário. No final, não apenas seus lucros dos tempos da bonança foram mantidos, como os prejuízos ainda foram socializados. Atualmente, os bancos de Wall Street operam em um regime de risco quase nulo: eles fazem empréstimos hipotecários, revendem os títulos das hipotecas para o Fed, recebem o dinheiro de volta (com um lucro), e ainda deixam boa parte deste dinheiro recebido do Fed depositado no próprio Fed, que está pagando 0,25% ao ano sobre este montante.

    Por causa de toda a intervenção governamental, toda a lambança acabou valendo a pena para os bancos.

    Conclusão

    Não é o escopo deste artigo fazer digressões sobre como o governo americano e seu Banco Central deveriam ter atuado durante a crise. Crises bancárias é um assunto vasto e complexo, e merece um artigo à parte (um esboço pode ser visto aqui e um mais completo aqui). Tampouco houve o intuito de fazer algum juízo de valor. A única intenção foi mostrar, sem ideologias ou partidarismos, como realmente se desenrolou todo o processo que levou à formação de uma bolha imobiliária, como se deu seu estouro e como isso afetou todo o sistema bancário.

    De posse de todas as informações aqui contidas, o leitor deve se fazer as três seguintes perguntas:

    1) Todo este arranjo apresentado configura um sistema totalmente desregulamentado, um genuíno laissez-faire, ou, ao contrário, representa um sistema fortemente intervencionista, no qual políticos, burocratas e reguladores determinavam regras e agitavam em prol de suas conveniências?

    2) Um sistema bancário que goza de uma garantia implícita dada pelo governo — de que haverá socorro caso as coisas deem erradas — tende a apresentar comportamentos mais temerários ou mais prudentes?

    3) Sem um Banco Central criando dinheiro e permitindo aos bancos manterem suas expansões creditícias de modo crescente, será que tudo isso teria sido possível?

    As respostas a estas perguntas têm de estar claras antes de se iniciar qualquer debate a respeito da crise.

    Leandro Roque é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil, onde este artigo foi publicado originalmente.

    (transcrito do Mídia sem Máscara)

  11. Valdenor de Dousa Leandro Roque o que temos com com a crise americana? Vocês deviam ir discutir a crise lá no EEUU. Chega de bajular o Tio Sam. Chega de lambe-lambe; isso é vergonhoso. Naturalizem-se americanos e vão para lá.

  12. Bancos se preparam para calote nos EUA

    Os bancos americanos abasteceram caixas automáticos com recursos adicionais, os investidores se livraram de títulos do Tesouro e os índices de ações dos EUA despencaram ontem, num sinal de crescente inquietação diante do risco de Washington dar um calote em sua dívida nos próximos dias deste mês.

  13. ISSO É BOM. SERVE MUITO BEM PARA MUDAR O FOCO! POR EXEMPLO, só nos últimos 03
    meses(JULHO, AGOSTO, SETEMBRO) deste ano, segundo analistas que não se baixam diante do governo, a INFLAÇÃO já atingiu a cifre de mais de 17%. É mole!

  14. Pessoal é engraçado. Quando falam de esquerda, e aí incluem lulla (que é tão neoliberal quanto fhc, pinochet, fujimori e margareth tatcher juntos), buscam sempre exemplos negativos. Se for pra mencionar exemplos negativos não sobra nada da direita.
    Parece q nunca ouviram falar da Suécia, q teve o socialista Olof Palme seguidamente eleito por mais de 47 anos, como primeiro ministro. Terminando sua vida pública ao ser assassinado quando retornava do trabalho caminhando para casa.

  15. JÁ PESQUISEI QUASE TUDO E ATÉ AGORA NÃO ENCONTREI NENHUM DOCUMENTO OFICIAL, ASI-LANDO, EXILANDO OU ATÉ MESMO MANDADO ALGUÉM EMBORA DO BRASIL. FORAM PORQUE QUISERAM.

    POSSO, INCLUSIVE CITAR O EXEMPLO DO MEU PAI: QUANDO ECLODIU O MOVIMENTO DE 64,
    MEU VELHO PAI ERA PRESIDENTE DO SINDICATO DOS ESTIVADORES. QUANDO FOI ANUNCIADO NA
    CIDADE QUE O DELEGADO DO TRABALHO MARÍTIMO CHEGARIA NO DIA SEGUINTE, NO INTUITO, SE-
    GUNDO SE COMEnTAVA, DE REALIZAR UMA DEVASSA NOS SINDICATOS. O MEU VELHO PAI, FOI O
    ÚNICO QUE RECEBEU A REFERIDA AUTORIDADE NA PORTA DO SINDICATO. ISSO DITO PELO PRÓPRIO DELEGADO. E O MEU PAI DEU UMA REPOSTA PRONTA: “quem não deve, não teme”. SEQUER FOI
    CASSADO E NEM PODIA. ESTAVA TUDO EM RODEM E EM DIA!

    OS QUE FUGIRAM, alguma coisa devia ou temia em face de algum malfeito.

    POR TER ESSE EXEMPLO, É QUE SEMPRE DIGO: “ELES SÃO FUGITIVOS E NÃO EXILADOS”. FO-
    RAM PORQUE QUISERAM E MUITO DELES SE DERAM BEM, COMO O PRÓPRIO ARRAES.

  16. Wagner Pires, saudações.
    Tenho assistido diariamente os debates na TV, entre democratas e republicanos. Aquilo … não é fazer política. Há ódio nos olhos, há ódio nas falas, há ódio no ar. Será que vale a pena torcer para que encontrem uma solução? Ou será melhor para o mundo arcar de uma vez com todas as super ruidosas consequências de “mais uma” quebradeira dos Estados Unidos, e partir para um modelo menos perverso e cruel para todos nós???
    Eles, nos próximos dias, tentarão elevar o teto da dívida … outra vez!!! Para continuar a gastança desenfreada!!! Até quando???

  17. Pois é Almério. 2º maior parceiro comercial do Brasil, maior economia do planeta com US$17,0 trilhões de PIB, não vai ser bom para ninguém se houver outra quebradeira. As coisas não estão boas por lá.

  18. Valdenor de Douza, saudações
    Casas eram invadidas!!!
    Não havia julgamento algum, nem processo nem nada!!!
    Pessoas nas ruas eram pinçadas para dentro de carros … e nunca mais apareciam!!!
    Funcionários públicos concursados eram afastados e perdiam tudo (alguns de suicidaram).
    Havia perseguição!!! Havia campos de concentração!!! Havia tortura e morte, com gargalhadas dos algozes!!!
    Tempos terríveis, aqueles de 1964 até 1985.
    Meu pai foi assassinado pelo carrasco Delfim Netto, um Terrorista!!! E era um homem simples, nunca se meteu com política!!! O senhor, pelo que percebo, ignora por completo o que aconteceu aqui na ditadura de 1964.

  19. Walter, a educadora Amy Chua esteve na TV/CNN, no programa “Piers Morgan Tonight”.
    Perguntou:
    Quem tem cartão de crédito aí, levante o braço. Todos levantaram.
    Quem usou neste fim de semana o cartão?
    Todos novamente levantaram o braço
    Quem está negociando o limite, por falta de condições para pagar, para poder usar mais?
    Todos levantaram … novamente.
    Quem está renegociando o limite … etc
    Quase todos levantaram o braço.
    Para eles, o verbo “gastar” sem planejar, sem organizar, sem compatibilizar com os recursos que têm … é absolutamente normal. “Faz parte”.
    Alimentar os gastos de trilhões de dólares com invasões e guerras … tem sido uma rotina nas últimas décadas. Eis o resultado. Cabe ao Brasil buscar novos emparceiramentos, bons emparceiramentos. Aguardemos.

  20. Ilustre Mestre Helio Fernandes,

    Sáude e Paz!

    Sem o intuito de esgotar o tema e sem o preparo e a memória assombrosa do insigne jornalista, a propósito da “diáspora” dos perseguidos pela ditadura, recorremos às “Confissões” de Darcy, o qual relatou sua fuga como segue:

    ” […] No dia 4 de abril chegou lá meu queridíssimo amigo Rubens Paiva, para tirar-me do Brasil. Esse era o bravo Rubens, trucidado pela ditadura, especificamente pelo serviço de repressão da ditadura, creio que do Exército. Rubens era um homem muito forte, devem ter usado de violência extrema para quebrar suas forças e matá-lo. Apanharam-no quando vinha do Chile, de uma visita que fez a Fernando Henrique [“O Sociólogo de Safardana” – HF], a mim e a outros amigos exilados lá. Saíra de minha casa para pegar o avião. Levava uma carta que lhe entregaram e é possível que o tenham torturado até a morte para saber detalhes da organização a que era dirigida a carta. Ele não sabia.

    Rubens Paiva havia conseguido que uma avioneta Cessna, de propriedade de Jango, pousasse no aeroporto de Brasília para pegar a mim e a Waldir Pires. Combinaram com a torre de nos deixar passar. Efetivamente, nos deram luz verde, mas nosso piloto queria autorização verbal, que não podiam dar sem se comprometer demais. Afinal, o forcei a decolar.

    Fomos ter a uma fazenda de Jango em Mato Grosso, perto da Bolívia. Lá dormimos uma noite, olhando as coisas e conversando com os peões e carregando a avioneta com gasolina de caminhão e enchendo latas que levamos conosco. Na manhã seguinte, um voo longuíssimo nos levou às florestas do lado paraguaio do rio Paraná, a um campo de pouso usado por contrabandistas. Lá, trasladamos a gasolina das latas para o avião e retomamos o voo. Várias horas mais voamos até alcançar Tauperi, já dentro do terrítório uruguaio. Havia uma forte tempestade elétrica que não permitia ir adiante. O piloto forçou um pouso entre ovelhas.

    Por acaso, desembarcamos junto a um hotel de turismo, que tinha uma bela piscina de água quente. Eu e Waldir caímos na água, era um descanso de reis. Mas aí nos chamaram. Um sargento uruguaio chegara para nos prender. Ao saber por Waldir que não éramos contrabandistas, que éramos perseguidos pedindo asilo político, sua atitude transmudou. Encheu-se do orgulho dos uruguaios como protetores de todos os perseguidos da América. No dia seguinte conseguiu um carro que nos levou para Montevidéu.

    Lá, bem instalado num hotel, fui procurado dois dias depois por Cassinone, reitor da Universidade da República, única do Uruguai, orgulhosa de seus 150 anos. O reitor me passou um pito por não ter me apresentado logo à universidade e combinou uma entrevista em seu gabinete para contratar-me como professor de antropologia, em regime de dedicação exclusiva. Era o exílio, a nova vida que se abria à minha frente.”

    Quanto a Waldir (belíssimo quadro, no meu humilde entendimento), após ser demitido do governo do “ex-príncipe” (Chagas) [ocupou as pastas da CGU e Ministério da Defesa], os “cacifes-companheiros” do partido negaram-lhe a candidatura ao senado pela Bahia. Nas últimas eleições municipais, sem o menor apoio e à revelia da vontade desses “donos-do-partido”, foi eleito vereador de Salvador, o que, certamente, honra aquela Câmara.

    Cordiais Saudações,
    Christian.

  21. Bortolotto, a história não pode ser policiada, deve ser lida, estudada e interpretada. Não preciso dizer mais nada, “você querendo ou não defendeu Jango que queria reformas de base dentro da constituição”. Quanto a intervenção foi pedida uma vêz. O que interessa historicamente saber é o por quê foi pedida.

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