A imagem do vaqueiro, segundo Patativa do Assaré

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002) por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples e muito poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme podemos perceber no poema “O Vaqueiro”, profissão para ele gratificante que o destino lhe concedeu.

VAQUEIRO

Patativa do Assaré

Eu venho dêrne menino,
Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou o mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.

Sei que o dotô tem riquêza,
É tratado com fineza,
Faz figura de grandeza,
Tem carta e tem anelão,
Tem casa branca jeitosa
E ôtas coisa preciosa;
Mas não goza o quanto goza
Um vaquêro do sertão.

Da minha vida eu me orgúio,
Levo a Jurema no embrúio
Gosto de ver o barúio
De barbatão a corrê,
Pedra nos casco rolando,
Gaios de pau estralando,
E o vaquêro atrás gritando,
Sem o perigo temê.

Criei-me neste serviço,
Gosto deste reboliço,
Boi pra mim não tem feitiço,
Mandinga nem catimbó.
Meu cavalo Capuêro,
Corredô, forte e ligêro,
Nunca respeita barsêro
De unha de gato ou cipó.

Tenho na vida um tesôro
Que vale mais de que ôro:
O meu liforme de côro,
Pernêra, chapéu, gibão.
Sou vaquêro destemido,
Dos fazendêro querido,
O meu grito é conhecido
Nos campo do meu sertão.

O pulo do meu cavalo
Nunca me causou abalo;
Eu nunca sofri um galo,
pois eu sei me desviá.
Travesso a grossa chapada,
Desço a medonha quebrada,
Na mais doida disparada,
Na pega do marruá.

Se o bicho brabo se acoa,
Não corro nem fico à tôa:
Comigo ninguém caçoa,
Não corro sem vê de quê.
É mêrmo por desaforo
Que eu dou de chapéu de côro
Na testa de quarqué tôro
Que não qué me obedecê.

Não dou carrêra perdida,
Conheço bem esta lida,
Eu vivo gozando a vida
Cheio de satisfação.
Já tou tão acostumado
Que trabaio e não me enfado,
Faço com gosto os mandado
Das fia do meu patrão.

Vivo do currá pro mato,
Sou correto e munto izato,
Por farta de zelo e trato
Nunca um bezerro morreu.
Se arguém me vê trabaiando,
A bezerrama curando,
Dá pra ficá maginando
Que o dono do gado é eu.

Eu não invejo riqueza
Nem posição, nem grandeza,
Nem a vida de fineza
Do povo da capitá.
Pra minha vida sê bela
Só basta não fartá nela
Bom cavalo, boa sela
E gado pr’eu campeá.

Somente uma coisa iziste,
Que ainda que teja triste
Meu coração não resiste
E pula de animação.
É uma viola magoada,
Bem chorosa e apaxonada,
Acompanhando a toada
Dum cantadô do sertão.

Tenho sagrado direito
De ficá bem satisfeito
Vendo a viola no peito
De quem toca e canta bem.
Dessas coisa sou herdêro,
Que o meu pai era vaquêro,
Foi um fino violêro
E era cantadô tombém.

Eu não sei tocá viola,
Mas seu toque me consola,
Verso de minha cachola
Nem que eu peleje não sai,
Nunca cantei um repente
Mas vivo munto contente,
Pois herdei perfeitamente
Um dos dote de meu pai.

O dote de sê vaquêro,
Resorvido marruêro,
Querido dos fazendêro
Do sertão do Ceará.
Não perciso maió gozo,
Sou sertanejo ditoso,
O meu aboio sodoso
Faz quem tem amô chorá.

          (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

 

 

One thought on “A imagem do vaqueiro, segundo Patativa do Assaré

  1. PROSA ENTRE ASPAS DE DENTES FALHOS

    Esta divagação foi estabelecida entre o Sr. Resignaldo (Nardoca)¹ e o Sr. Brasílio (Brasoca), a bordo de duas canoas sobre o Rio Pericumã, em 20/05/2007. Aqui os nomes foram mascarados. R – Resignaldo. B – Brasílio.
    R – Bom dia, Brasoca! Cumo Passô?
    B – Eu tô cumo carne da pá: nim bem, nim má. E a tua familha, cumo tá?
    R – Lá in caza tomo naquele diáro conforme Djôs quisé. Só a “patroa” qui tá cum pobrema de mãe do corpo: é dô pulas cadêra, é ingrisia pulo istome……naquele rojão de mulhé.
    B – Iscuta! E vassês danão dero côbro nesse pobrema de Dona Biata?!
    R – Ê, ê! Nós já levemo ela na caza dum curadô, o disgraçado cumeu meu derradêro capado. Pur lá ele impazinô o bucho dela de gororoba, e milhora qui é boa, nim uma!
    B – Pur quê tu non faz uma ventura no hospitá?
    R – Já, já butemo ele lá. Lá o reméido qui ela bibia era disculhambação de mético e infermêra. Inté qui eu me danei e disse: qué sabê – eu vô tirá Biata daquele inferno prela murrê in caza mermo! Assim cumo assim ela tem qui murrê um dia! Aí qui eu cumprei caxão, ropinha de viage dela, tá tudo diriltinho só isperano a hora.
    B – Rapá, e tu já tratô da apusentação dela?
    R – Rapá, pra non dizê qui eu non tô me mexeno, eu já fui no Dotô Jefe (Jeferson), qui é o dono da terra a donde nós mora, pra mode ele batê os papé pra intonce eu levá no sinicate!
    B – Nardoca, eu non sei. Mas finado Zezinho (Djôs te chame lá!), ele me cuntô qui no sinicate tem um cabrinha qui se agente sortá uma “babinha” prele, ele dá esses papé apruntinho!
    R – Rapá, non é pra duvidá! Purquê hoje in dia esses “branco” son tudo safado. Inda onte eu tava uvino no ráido: “pulico² roba coza, juiz² furta loza, guverno² passa a canhota nisto, naquilo ôto. E é uma danação qui só Djôs! Mas esses acunticido ton tudinho sentado na Sagrada Iscritura; só se ingana quem qué! E o certo é qui cada quá vai iscapano cumo póde! E pur falá nisso, eu vô vê se eu cuchicho cum esse camarada do sinicate.
    B – Mas olha, Nardoca, non vai suprá meu nome pur lá, heim!
    R – Póde dexá cumigo Brasoca, qui eu tenho queda pressas coza. Purquê, rapá, do jeito qui as cozas ton orrive, agente tem qui dá os pulo da gente! Hoje o ganho non dá nim pra cumprá o pão de cada dia. Non sei cumo o pobre inda véve!
    B – Nardoca, tu tá ulhano aquela môita lá culá?
    R – Quá?!
    B – Aquela adonde tem uma ispinhêra!
    R – Ah! En-en-in! Já sei!
    B – Pôsé. Ontionte eu larguei cangaço numa japeçoca qui tava lá, chega³ a muleca caiu qui chiô! Tamém foi cumo nós pudemo tumá um cardinho. De lá pra cá nós vem tintiano cum um mingozinho, uma fruta, e assim agente vai se interteno!
    R – Rapá, quêdê aquela tua burra famosa?
    B – Hum, essa?! Eu vindi pra Zeca de Luca, e inté hoje esse disgraçado danão me deu este tustão!
    R – Hum! Hum! Hum! Esse cara é quinim uma cubana num ligêro. É purisso qui a cafurenga dêlhe tá quaje matano ele só de incangalhá!
    B – Rapá, o sol tá a pino. Prosa tá boa. Eu vô me abreviá, qui eu inda vô passá pula quitanda pra cumprá uns aviamento: um sabãozinho, um corozene, uma caxa de fófe e um purgante de água venência. Eu quero vortá prô cento inda cum tempo!
    R – Intonce nós fica assim! Despôs nós assunta milhó!
    B – Inté logo!
    R – Se Djôs quisé!
    GLOSSÁRIO: -Cangaço: espingarda bate-bucha ou punheteira
    -Cento (centro): sembal, campo, jangal,
    -Cubana: Formiga de cor castanha que causa danos à lavoura.
    -Djôs: Deus.
    -Ligero (ligeiro, rápido): roça pequena.
    -Cubana tem cunho ideológico. Nas décadas de 60/70, Cuba exportava sua revolução, cuja porta de entrada e vetor de propagação eram os camponeses. Então, para repassar aos campesinos a idéia de que cubanos não prestavam, o governo militar alcunhou as formiguinhas de cubanas. Algo como dizer: “A coisa tá russa!” Para dizer que russo é sinônimo de ruim (por serem comunistas também). “A coisa tá preta!” Para rotular os negros etc.
    ¹OCA: entra como sufixo nos vocábulos dos falares desta Região. Encerra algo ou alguém doméstico, íntimo; pois o termo provém do guarani, significando casa. Assim, o João de casa vira Joca; a Joana, Janoca; o Pedro da nossa intimidade transforma-se em Pedroca, no coloquial, e por aí vai…….
    ² No falar matutês, o falante costuma omitir os artigos definidos (o,os,a,as) que antecederia o nome da figura ou das figuras centrais do causo. No exemplo acima: pulico, juiz, guverno…. Como se tal omissão fosse para reforçar a coisa dita.
    ³ O verbo CHEGAR também, na maioria das regiões do Brasil, tem o seu uso equivalente a um advérbio de intensidade ou como um recurso expletivo para consubstanciar a expressão. Ex: “Eu dei-lhe um tapa nesse macho, CHEGA moleque desabou!” Seria: “Eu dei-lhe uma tapa nesse macho, QUE ele desabou!”
    *NA RADIODIFUSÃO: OS LOCUTORES DE PROGRAMAS VOLTADOS PARA O CAMPO DOMINAVAM BEM ESTA LIGUAGEM, OU SENÃO APRENDIAM, QUANDO LIAM CARTAS E AVISOS.

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