A ardente paixão de Rubem Braga pela sua bela prima Lili

Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (1913-1990), sempre afirmou que a poesia é necessária, tanto assim que escreveu vários poemas, entre eles este “Poema em Ipanema, numa Quarta-feira sem Esperança”, que retrata o seu amor e a sua paixão por sua bela prima Lili.

POEMA EM IPANEMA, NUMA QUARTA-FEIRA SEM ESPERANÇA
Rubem Braga

Podias ir à proa de barcos antigos
Cortando ventos salgados
Com espumas fervendo em teus seios de virgem
Figure étroite en proue de bâtiment
Galga esgalga
Lili

És menina nos bicos dos seios e
na pevide do sexo —
estranhamente pequenos os três,
como botões de irrevelada flor.
És menina na voz tímida, saccadée,
Nervosa e doce.

És mulher na arquitetura de teus braços
longos como asas de ave do mar
na ousada arcadura de teus ombros
na firmeza de tuas coxas e na longura
nobre de tuas pernas.

De todas as primas feias da roça que eu já tive
és uma insensatamente linda.
Gostaria de ver-te em um vestido de chita —
entretanto desenhado por Chanel —
úmido nos seios e nos lombos
porque terias saído de um banho de rio
descalça, com um pouco de lama e areia
entre os artelhos.
Teus olhos luzindo na sombra do bambual
eu te daria pitangas de sangue
jabuticabas de um negrume azul com
a polpa de um branco azul —
cor elusiva — como és —
e cajus, sapotis.
Te ensinaria nomes de passarinhos de nossa terra mas
não prestarias atenção e eu
te amaria de um amor tão complicado apaixonado
brasileiro e chato
que sumirias de mim em uma esquina de Saint-Germain
deixando-me apenas de lembrança a úlcera de teu estômago
doendo e ardendo para sempre em meu desatinado coração,
Lili.

                (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

8 thoughts on “A ardente paixão de Rubem Braga pela sua bela prima Lili

  1. 1) Bela poesia. Braga = grande escritor, jornalista, poeta.

    2) Licença: em 3 de junho de 1956 começou a circular o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, impresso de saudosa memória.

    3) Fonte: Biblioteca Nacional, Agenda, 1993.

  2. Salve o Mestre Rubem Braga! Aqui entre nós, baixinho, as crônicas dele é que são insuperáveis.Dentre elas, assim de pronto ,lembro de Despedida.Por esta amostra valerá a pena ir atrás também da poesia.
    Agora…. um sujeito como eu, para quem, na meninice, o tempo não passava nunca e as férias jamais chegavam , entre as primas janeiras em praias nordestinas e as primas juninas na serra fluminense – todas lindas e pra quê tanta prima , Santo Deus ? – diante dessa poesia se lembra de:

    João e Maria
    Chico Buarque

    Agora eu era o herói
    E o meu cavalo só falava inglês
    A noiva do cowboy
    Era você além das outras três.

    Eu enfrentava os batalhões
    Os alemães e seus canhões
    Guardava o meu bodoque
    E ensaiava um rock para as matinês.

    Agora eu era o rei
    Era o bedel e era também juiz
    E pela minha lei
    A gente era obrigado a ser feliz.

    E você era a princesa
    Que eu fiz coroar
    E era tão linda de se admirar
    Que andava nua pelo meu país.

    Não, não fuja não
    Finja que agora eu era o seu brinquedo
    Eu era o seu pião
    O seu bicho preferido.

    Vem, me dê a mão
    A gente agora já não tinha medo
    O tempo da maldade
    Acho que a gente nem tinha nascido.

    Agora era fatal
    Que o faz-de-conta terminasse assim
    Pra lá deste quintal
    Era uma noite que não tem mais fim.

    Pois você sumiu no mundo
    Sem me avisar
    E agora eu era um louco a perguntar
    O que é que a vida vai fazer de mim.

    https://www.youtube.com/watch?v=yd1R2LiD-as

    • Moacir, eu cantava esta música com a Nara Leão. Ela, claro, no disco.

      Também era fã da Nara, eu usava até franja, tal como ela.

      Quando conheci meu ex-marido em um apartamento na Tijuca, foi ele que me abriu a porta. E logo perguntou: “É a Narinha?”

      Eu tinha um namoradinho de quem gostava. Não teve jeito. Era maio. Poucos dias depois, cinco talvez?, meu ex estava na minha casa. Um 27 de maio. A mesma data em que nos casamos.

      Nara foi embora cedo, muito cedo. Eu lia tudo sobre ela. Acho que foi Ruy Castro que falou sobre Nara em um de seus livros. Ela é Carioca ou Chega de Saudade? Não tenho mais a menor ideia.

      Preciso abrir meu ‘baú de ossos’, como o livro do Pedro Nava. A memória está desbotada que só.

  3. Jovem ainda, antes dos 18, talvez 15?, 14?, também não sei, eu vivia com os livros Quadrante, em que havia textos do Braga misturados a outros. Seleção de crônicas.

    Também tinha A Borboleta Amarela, texto que dá nome ao livro. Era Editora Sabiá? Tinha Sabino no meio? A memória não ajuda. Não lembro mais, mas lembro deste trecho de um dos livros. Sei de cabeça, não sei se está formatado no estilo de Rubem. Ou se faltam palavras.:

    “E se entre meus leitores há alguém que na passagem do ano viveu esse momento na tristeza, na desesperança, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: Vinde. Vamos tocar janeiro, e fevereiro, e março, abril e maio, e tudo o que vier. Durante o ano a gente o esquece e se esquece. É menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim. E com sombra e água fresca. E quem vô-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando, vosso mal terá cura. E, se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa..O fim é um grande sossego e um imenso perdão.”

    Rubem Braga é um deslumbre.

  4. Nossa, Paulo Peres. Você hoje trouxe o poeta da crônica que também fazia poesias, mas o forte dele era a crônica. Tenho todos os livros dele. Olha que ele tinha vocação para ser rapaz, como ele próprio diz:
    Parece que erraram a conta
    “Janeiro de 1963: faço 50 anos. Não é divertido. Para falar com franqueza, eu preferia (e obscuramente tenho vontade de dizer: eu merecia) fazer quarenta anos. Esta a idade que me apraz imaginar que possuo. Não tenho saudade de meus 30 anos, quero dizer _ não teria vontade de voltar a ser como eu era aos 30 anos _ e muito menos aos 20. Mas, 40 acho que faria uma boa conta.

    Sei que não adiante reclamar, mas acho que fui roubado. Contaram-me dez anos a mais. Naturalmente somaram tudo, tudo, inclusive o tempo que passei, vamos dizer, perdendo tempo. Por exemplo: andando atrás de mulher que não queria saber de mim. Isso não devia valer. Que me marcassem agora 45 anos vá lá. Cinqüenta, francamente, acho um pouco demais, e um pouco demasiado de repente. Parece que não há remédio senão aceitar. Aceito resmungando, como quem paga, de má vontade, uma conta de bar que está achando exagerada.

    Cinqüenta anos… Uma injustiça, sem dúvida alguma. Logo comigo, que tinha tanta vocação para ser rapaz!” (Publicado em A traição das elegantes.

  5. Carmen, Rubem Braga foi um solteirão convicto, não é?
    Amor, nada a ver com casamento. Foi apaixonado pela Tonia Carrero.

    E enfrentou com galhardia o câncer que o matou. Não tinha jeito, para que se tratar?
    Quando soube, nada fez.

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