A Bahia viu primeiro

Sebastião Nery

Quando o navio “Príncipe Real”, à frente das naus portuguesas, entrou na baía de Salvador, o príncipe Dom João VI não entendeu nada. O cais estava inteiramente deserto. Tudo que ele viu foi um pessoa só, “uma única autoridade, o governador, representante colonial da Coroa, postado nas docas de um porto deserto de um povoado colonial”.

“Houve uma certa inquietação à bordo, à medida que a esquadra se aproximou de seu destino. Nenhum navio de reconhecimento fora enviado de antemão e não se sabia ao certo que impacto teria na colônia a súbita chegada da família real. Os exilados haviam esperado que houvesse multidões para lhes dar as boas vindas, mas o cais parecia deserto quando as naus entraram na baía de Salvador.”

“Ao subir a bordo do “Príncipe Real”, o governador disse ao príncipe regente que ele é que mandara esvaziar as ruas, nas imediações das docas, inseguro dos desejos do regente. Dom João lhe disse que desejava ver seus vassalos do Novo Mundo e, uma vez espalhada a notícia, as ruas encheram-se aos poucos de espectadores curiosos.” Era 22 de janeiro de 1808.

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SALVADOR

Perdoem os nativos invejosos. O Brasil foi descoberto duas vezes. E ambas na Bahia. Pedro Álvares Cabral chegou a Porto Seguro em 22 de abril de 1500. Mas só 308 anos depois, com Dom João VI descendo em Salvador em 22 de janeiro de 1808, o Brasil começava a nascer como país.

Salvador era a cidade mais populosa do Império Português, “com um traçado semelhante ao da cidade do Porto ou, em menor escala, ao da própria Lisboa. Trilhas íngremes subiam em ziguezague pela escarpa de 60 metros. Havia igrejas opulentas, conventos e prédios do governo espalhados pelas colinas da cidade, seguindo o que tinha sido uma estratégia medieval de construir cidades fortificadas em colinas”.

“Salvador era uma cidade mais africana que européia. Suas ruas eram povoadas por uma população predominantemente negra e mulata”. Parece que Caymmi, Caetano e Gil ainda não cantavam por aqui.

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DOM JOÃO

Ficaram um mês descansando em Salvador. “Passadas as cerimônias de boas-vindas, dom João, seu filho Pedro e sua mãe, a rainha Maria I (a Louca), desembarcaram para uma semana de recuperação no palácio do governador. Dona Carlota não os acompanhou, permanecendo mais cinco dias à bordo, antes de se mudar para o prédio do Tribunal de Justiça. Ao chegar a Salvador, dona Carlota era uma mulher abatida. Amargurada, tomou-se de ódio pelo país e por seu povo.”

“Nas saídas com o filho Pedro, dom João levava sua carruagem às partes altas da cidade, seguido por multidões de vassalos. Os laranjais estavam em flor, desprendendo um doce aroma que circulava pelas plantações dos arredores. Distribuía moedas entre os que acompanhavam sua carruagem, concedia perdões, conferia honrarias e ouvia petições.”

“As restrições coloniais foram afrouxadas, mediante a expedição de licenças de fabricação e a fundação de uma escola de Medicina e Cirurgia.”

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NO RIO

Em certa ocasião, visitaram Itaparica, uma grande ilha na baía, repleta de praias, coqueirais e trilhas na mata e ali passaram uma noite.

Dom João voltou frustrado porque não encontrou lá o João Ubaldo. No dia 8 de março de 1808, a família real desembarcou afinal no Rio de Janeiro, elevada, da noite para o dia, da condição de capital colonial para a de capital do Império, com 60 mil habitantes. Então menor do que Salvador, ainda assim o Rio era um porto colonial de dimensões consideráveis para os padrões da época”.

Dom João ficou morando no Rio, mas a Bahia é que viu primeiro.

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PERO VAZ-2

E é assim que começa a história do Império Português no Brasil, com a chegada de dom João VI há mais de 200 anos. Há muita coisa, e boa, para ler, até para fazer a justiça histórica que o Brasil deve ao gordo comedor de frango, mas estadista, dom João.

O primeiro e mais importante documento histórico é o “diário de bordo” do oficial inglês Thomas O’Neil, o Pero Vaz de Caminha de Dom João VI: “A Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil” (J.Olimpio).

Ainda não li (é o terceiro da minha lista domjoânica) o best-seller “1808 – como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, de Laurentino Gomes (Ed. Planeta do Brasil).

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OBRA-PRIMA

Todas as citações que fartamente fiz estão em um livro magnífico, avalisado pela autoridade de Claude Levi Strauss: “Uma obra-prima, escrita com erudição e grande talento literário. Fascinante”. “Império à deriva – a corte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821”, de Patrick Wilcken, tradução de Vera Ribeiro (Editora Objetiva).

Patrick Wilcken é um jornalista e historiador nascido na Austrália, radicado em Londres e que já passou longos períodos no Rio. Todo seu livro é baseado em documentos brasileiros e portugueses e em pesquisas no Ministério das Relações Exteriores britânico. Magistral.

 

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