A Boca Família

Sebastião Nery

Camilo de Holanda, presidente da Paraíba (antes de 30 os governadores eram chamados de presidentes), tinha uma namorada. A namorada era mulher de um sargento do Polícia Militar. Uma vez por semana, já de propósito, o tenente-comandante dava prontidão noturna no quartel. E o velho Camilo, sem sustos, saía do palácio e ia ver seu amor.

Uma noite, Camilo ia chegando à casa dela e viu, pendurado numa cadeira da sala, o dólmã do sargento. Voltou furioso ao quartel:

– Tenente, e minhas ordens?

– Que ordens, presidente?

– Prontidão rigorosa, que a segurança pública está ameaçada.

O tenente mandou tocar a corneta. Dentro de pouco tempo, o batalhão estava todo lá, de prontidão absoluta. Não faltava ninguém. Meia-noite, Camilo voltou lépido:

– Tenente, relaxa a prontidão que a ameaça à segurança já passou.

A ameaça era ele.

***
CALCINHAS

O general Jorge Felix, chefe do gabinete de Segurança Institucional do presidente Lula, humorista primoroso, disse que “quanto menor a transparência, maior a segurança” (“Veja”). Camilo de Holanda também achava a mesma coisa. E as calcinhas do carnaval na Sapucaí, nem se fala.

Desde 2003, no começo do governo Lula, o Tribunal de Contas da União vem advertindo que era preciso abrir a caixa-preta dos “cartões corporativos” da presidência da República. O general Jorge Felix, do gabinete de Segurança Institucional, o tenente-comandante da Presidência, dizia que era impossível porque “é uma questão de segurança nacional”.

Quando a oposição disse que ia fazer uma CPI, o general filosofou:

“Quanto menor a transparência, maior a segurança”.

Como as calcinhas da Sapucaí.

***
CARTÕES

Em 2008, a corneta tocou. Até então, a imprensa poderosa não queria tratar dos “cartões corporativos” porque significava tratar sobretudo das despesas secretas do presidente e da família presidencial.

O nome “cartão corporativo” já é uma trampa. Por que “corporativo”? O governo não é uma “corporação”, é uma “instituição”. Inventaram um nome que é um subterfúgio para enganar a população. O cartão tinha que ser chamado pelo nome verdadeiro: cartão oficial.

Depois do que a “Veja”, “IstoÉ”, “O Globo”, “Folha” enfim publicaram, acabou a desculpa de Camilo Holanda no governo Lula. Caíram as calcinhas.

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MILHÕES

1 – “IstoÉ”: – “Escândalo dos cartões – R$ 5,8 milhões em dinheiro vivo para Lula, Marisa e suas equipes – As contas do Siafi sobre os gastos mais secretos dos cartões corporativos da presidência“.

Sergio Pardellas dá detalhes: “Apenas 10 foram destacados para atender especificamente às necessidades do presidente, da primeira-dama e de um círculo restrito de auxiliares mais próximos dos dois”.

2 – “Dona Marisa tem sua ecônoma preferida: Maria Emilia Matheus Évora. Até o início de 2005, ela resgatava sozinha os valores em dinheiro destinados a cobrir as despesas da primeira-dama. Mas a servidora deixou de ser exclusiva de Marisa depois que seu nome veio a público”.

3 – A “Veja” informava : “Os dez maiores gastadores do Palácio do Planalto gastaram no governo Lula, desde 2003, R$ 11,6 milhões de reais”.

4 – “O Globo” confirmava: “Em 2007, a Presidência da República gastou R$ 5,2 milhões com cartões, sendo R$ 551,8 mil em saques. A funcionária Maria Emilia Mateus, que trabalha para a primeira-dama, sacou, entre 2003 e 2005, R$ 614,7 mil em dinheiro vivo. E gastou, no total, R$ 870 mil“.

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SALÁRIO INDIRETO

O então líder do PSDB no Senado, Artur Virgilio, reagiu:

1 – “Chegaram ao ridículo de dizer que é questão de segurança nacional, como se o presidente e a primeira-dama estivessem enriquecendo urânio. Na verdade, não querem que o povo descubra que o cartão virou uma fonte de salário indireto para quem já tem tudo regularmente pago pelos cofres públicos”.

2 – E o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia: “Como eles vão explicar esses gastos milionários, descabidos, tanto dinheiro para o presidente e a primeira-dama, que já têm toda uma estrutura de palácios e viagens resolvidas por licitações?

O cartão corporativo virou “Boca Família'”.

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SUPREMO

Não apenas políticos e imprensa se escandalizaram. A Justiça também. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal, denunciou:

1 – “Se a Presidência da República tem gastos, estes gastos devem ser revelados. Não há preceito na Constituição Federal que, interpretado e aplicado, direcione esse sigilo quanto aos gastos do poder píblico”.

2 – Mozart Valadares, presidente da AMB (Associação dos Magistrados do Brasil), insistiu na denúncia:

“Toda autoridade tem o dever de prestar os esclarecimentos, já que se trata de dinheiro público. A tentativa de sigilo não tem amparo legal. O administrador público tem a obrigação de prestar contas à sociedade”.

Só uma poderosa corneta nacional acabará com “Boca família”. Mas de lá para cá, nada mudou. A festa continua,

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