A caneta pertence a Dilma Rousseff: não é do PT nem do PMDB

O Globo e a Folha de São Paulo de terça-feira publicaram reportagens sobre choque que vêm ocorrendo entre o PT e o PMDB para o preenchimento de cargos de direção na administração pública federal. As versões se sucedem e, contraditoriamente, ambos os partidos agem como se fossem os donos da caneta mágica que sintetiza o exercício do poder. Nada disso. Grave equívoco que funciona negativamente para a formação completa do governo que veio das urnas de outubro e se instalou no Palácio do Planalto a primeiro de janeiro de 2011.

A dona da caneta mágica, por sinal, chama-se Dilma Roussef. Ela não pode emprestá-la, muito menos dividi-la com ninguém. Com nenhum partido, com nenhuma corrente ou legenda. O poder não se transfere, como me disse em 1959 o presidente Juscelino. Nunca esqueci a frase. Hoje, 52 anos depois, vejo que ela, a frase, é mais forte e verdadeira do que pensei numa tarde de outono no Palácio do Catete.

A entrevista ocorreu em abril ou maio. Foi a propósito da substituição de Lucas Lopes por Sebastião Paes de Almeida, no Ministério da Fazenda, e de Roberto Campos por Lúcio Meira na presidência do BNDE, hoje BNDES. JK fez poucas substituições em sua equipe. Não gostava. Nem precisava recorrer ao mecanismo porque suas escolhas eram partidárias, mas se baseavam na competência pessoal e sobretudo na afinidade do nomeado para o setor que iria comandar.

Era amigo pessoal de Lucas Lopes, de Roberto Campos nem tanto, Acontece que Lucas e Campos, de repente, passaram a defender a suspensão das obras de construção de Brasília para conter a inflação. Esta história se repete, o confronto entre o estruturalismo e o monetarismo. Parece inclusive ser eterna. Mas em 59 Juscelino decidiu a questão.

Não vacilou. A mim disse que o poder não se transfere. Ao deputado Hermógenes Príncipe, que narra o episódio em seu livro “Luz e Trevas”, afirmou que não poderia passar à história como construtor de elefantes brancos. Correta sua posição. O tempo passou na janela e comprovou. Brasília aí está consolidada com dois milhões e quinhentos mil habitantes.

JK cumpria integralmente os compromissos partidários, porém não nomeou incompetente algum. Um dia, também em 1959, o deputado Santiago Dantas, que comprara o Jornal do Comércio do acadêmico Elmano Cardim para transferi-lo a Assis Chateaubriand, procurou JK. Queria ser ministro da Agricultura.

“Perfeito”, disse o presidente. “Você pode ser ministro de qualquer pasta. Mas o cargo pertence ao PTB. Se você me trouxer a concordância do vice João Goulart, está nomeado”. Não obteve. Jango preferiu indicar Barros de Carvalho, de Pernambuco. E o governo continuou.

Juscelino não demorava a resolver. Nada. Sua grande motivação era o movimento seqUente, dinâmico, concreto. Era  um homem absolutamente sereno, sempre cordial. Mas não atuava na defensiva. A qualquer pressão, respondia imediatamente. Não permitia que ela se acumulasse. Um exemplo de político, legou um exemplo de política.

Creio que a presidente Dilma deva se inspirar naquele estilo. Afinal, ela é quem é a dona da caneta. As decisões são suas. Não dos dirigentes partidários das legendas que a apóiam. Este não serve, aquele não serve, esse não representa um fator de equilíbrio. Qual o critério afinal? Critério final – isso sim – pertence à chefe de Estado, não a  legendas em função do número de senadores e deputados que possuam. Se assim fosse, não haveria número suficiente de cargos para contentar a todos. Impossível. O poder tem limites. E estilos.

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