A canoa de Lula, no rumo de 2014

Gaudêncio Torquato

Qual a possibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio voltar a ser candidato do PT no pleito presidencial de 2014? Tem sido essa a mais recorrente pergunta nos corredores da política, instigada pela acentuada queda de popularidade da presidente Dilma na esteira da avalanche de manifestações que sacodem o país. A resposta está condicionada a outra questão: é possível à mandatária recuperar a avaliação que detinha no início deste ano?

A resposta não é tão simples, pois agrega um conjunto de fatores, a começar pelo desempenho da economia nos próximos meses. A ser pífio o desempenho econômico, a presidente se defrontará com dois grandes riscos: a perda de controle sobre o processo político-administrativo e a perda de capacidade de reverter o processo de desacumulação de força. A recíproca é verdadeira. Se a economia correr bem nos trilhos, o controle sobre o poder político será resgatado, e a boa imagem, reconquistada.

O vetor de peso de um governante equivale ao de um balanço. A princípio, ele sobe, depois desce, mantendo-se em nível baixo até juntar forças para recuperar a posição anterior. O perigo é quando o mandatário atinge o ponto de quebra, aproximando-se do extremo do arco da estabilidade; nesse caso, não haverá condições para segurar a queda e acampar o governo em terreno seguro.

INFLAÇÃO

Com os preços de alimentos subindo a uma taxa anual entre 14% e 19%, é possível prever forte pressão sobre os orçamentos familiares e, se isso ocorrer, expansão da insatisfação social. Nesse caso, o cenário de queda se manteria. João Santana, o responsável pelo marketing do governo, estipula em quatro meses o tempo para a presidente recuperar o patamar de prestígio. É possível? A resposta vai depender do axioma: “quem é dono da flauta dá o tom”; a dona é a maestrina da orquestra e é chamada de economia.

É evidente que, a par de eventuais trunfos a serem obtidos na mesa da economia, há mais dois cinturões do governo para ajustar, sob pena de irreversível debacle da imagem presidencial: os cinturões político e de serviços públicos. Se fechar a torneira para as demandas políticas, a presidente ficará sob ameaça de mais derrotas no Parlamento. Caso tape os ouvidos ao forte clamor das turbas, arrisca-se a cair no despenhadeiro da rejeição social.

Caso não consiga ajustar os cinturões da governança aos corpos econômico, político e de serviços sociais, a candidata à reeleição poderá ser induzida a ceder o lugar ao antecessor. Daí a inevitável pergunta: a volta de Lula seria a solução para o PT prolongar seu projeto de poder? O horizonte é nebuloso. Mas algumas hipóteses são razoáveis. A primeira é a de que voltar é uma forma de retroceder. Outra observação: nem o Brasil nem Luiz Inácio são os mesmos de ontem.

Navegar no Brasil de hoje é, para os políticos, um exercício de reaprendizagem. Lula é um navegante. Mas o rio está mudando o curso. Pegar uma canoa em direção ao amanhã, apenas com um “baú recheado de coisas de ontem”, pode dar com os burros n’água. (transcrito de O Tempo)

 

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