A capital do livro

Sebastião Nery

PARIS – O espírito sempre foi mais forte do que a matéria. Não adianta a máquina imaginar que matou o livro. Quando Gutenberg inventou a imprensa, a impressão,  também se pensou que o livro estava morto. E os velhos e sábios monges medievais provaram que o livro é eterno como a Bíblia, que em grego quer dizer ‘O Livro’.

Neste momento, no mundo inteiro, 4 mil pessoas exercem uma profissão como se fosse um sacerdócio: a encadernação e restauração artística de livros. E exatamente hoje, 13 de setembro, aqui na França, mais de 1000 deles se reúnem numa Bienal Mundial em reverência ao livro.

Em 1992, no país Basco, na Espanha,  realizou-se a primeira  “Bienal Mundial de Encadernação de Arte”. A partir de 2004 ela se transferiu para a França nas “Biennales Mondiales de la Reliure d’Art , realizadas na encantadora  Saint Remy les Chevreuse, nos arredores de Paris.

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BIENAL MUNDIAL

De dois em dois anos, é proposta aos encadernadores profissionais e amadores, a edição de uma obra da literatura francesa, com tiragem limitada e numerada de 1000 exemplares. Cada concorrente tem, portanto, dois anos para imaginar, criar, realizar e enviar seu livro com capa e confecção de sua escolha, para um júri internacional que distribui 15 mil euros em 10 prêmios. Todos os livros são expostos, premiados ou não.

Dois anos atrás, 2009, o livro escolhido foi ‘Le Mariage de Figaro’, de Beaumarchais. O deste ano é ‘Fables Choisis’, de La Fontaine.

Um salão de fornecedores permitirá aos amantes da encadernação, da cartonagem, da emolduração, encontrar todos os materiais necessários ao exercício de sua mais do que profissão, paixão.

A revista francesa internacional  ‘Art et Métier du Livre’ divulga todas as fases da Bienal Mundial, que este ano já é a 11ª.

Não por acaso, Paris é reconhecida no mundo inteiro como ‘a cidade do livro’ e a brilhante escritora Betty Milan, em ‘Paris Não Acaba Nunca’ (Editora Record, Rio) lembra muito bem que ‘todo escritor é parisiense, ‘parhisiense’ por sua relação com a palavra, pois ‘parrhisia’ em grego significa ‘a liberdade de falar’.

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ESCRITORES

1 –  ‘Paris perpetua a memória dos escritores, consagrando-lhes museus, dando seus nomes as ruas, esculpindo-as, indicando com placas suas residências e os enterrando no Pantheon, como Rousseau, Voltaire, Victor Hugo, Emile Zola e Jaures’.    

2 – ‘A casa que foi de Balzac, de 1840 a 1847, é hoje o Museu Balzac. O apartamento da Place de Vosges onde Victor Hugo escreveu ‘Os Miseráveis’ foi transformada em museu. Há museus e ruas a eles consagrados, como Rue Corneille, Rue Racine, Rue Moliere, Boulevard Diderot, Quais Voltaire.

3 –  Na frente da Soborne, Montaigne esculpido em bronze, sentado de braços e pernas cruzados, um livro fechado nas mãos, e o olhar de quem medita, perpetuou na base de sua estátua a declaração de amor a Paris: – ‘Só sou francês por causa desta grande cidade’.

4 – ‘No museu Rodin, Paris reverencia Balzac, e o número 17 da Rue Visconti lembra que ele ali estabeleceu a sua gráfica. Como o número 30 da Rue du Dragon diz que Victor Hugo morou ali em 1921. Na Rue de Beaux- Arts  viveu Oscar Wilde. E Robert Desnos, o poeta francês preso pela Gestapo e deportado para o campo de concentração ‘morreu por amar a liberdade, o progresso e a justiça’ como está gravado na Rue Mazarine’.

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BEATRIZ

Em 2009, na 10ª Bienal, pela primeira vez um brasileiro, no caso uma brasileira, a carioca Beatriz Rabello, foi premiada: recebeu o quinto prêmio, único do Brasil e da América Latina.

Este ano, pela segunda vez, Beatriz Rabello foi premiada, com o quinto premio  agora na companhia de outro  brasileiro,  o encadernador Marco Antonio Pedrosa, os dois únicos do Brasil e da América Latina.

Dia 17, sábado, em Saint Remy les Chevreuse, os dois , já aqui em Paris , receberão os prêmios da União Européia. Eu vim também para o champanhe porque, por acaso, ela é minha mulher.

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