A cara sorridente da enganação: Obama, Israel e a política da catarse

Norman Pollack (Counterpunch)

A missão de Obama no Oriente Médio, considerando-se o tratamento de celebridade que o presidente recebeu a cada passo, demonstra, como o famoso discurso do Cairo no primeiro mandato, o simulacro, o subterfúgio discursivo, a cobertura sempre à mão, para infiltrar o poder dos EUA na região, ainda mais empenhado que qualquer dos seus predecessores.

Os senhores da guerra

O petróleo é motivo simplório demais, embora, claro, também lá esteja. Mas Obama parece trabalhar numa estratégia geopolítica de hegemonização global, hegemonia política e ideológica (da qual fluem os ganhos econômicos, mais do que de algum imperialismo mais estreito), precisamente para impor a influência e o poder dos EUA nos centros de poder do mundo, hoje, cada dia mais multipolar. Israel é posto avançado, para fixar a presença dos EUA num dos fronts.

Nenhum país depende mais dos EUA que Israel, mas, sem querer expor-se a nenhum risco, os EUA têm bases militares e entrepostos para a guerra dos drones implantados por toda a África. E assim os EUA garantem cobertura regional saturada – nem é preciso haver “inimigo” identificado: basta um “terrorismo” generalizante. Como já escrevi outras vezes, “contraterrorismo” é codinome, hoje, para o que sempre foi “contrarrevolução”.

Postura internacional menos ambiciosa talvez desse o mesmo resultado, mas o Oriente Médio, por importantíssimo que seja por si só, protege os portões da expansão da Ásia na direção do ocidente; e da Rússia, rumo ao sul.

A MIRA É A CHINA

De fato, o que Obama vê no alvo de sua mira é a China, que substitui a Rússia, no plano de inaugurar uma Nova Guerra Fria, tão útil, para as mesmas finalidades, quanto a velha: desde fazer calar a crítica doméstica contra ‘resgatar’ bancos e grandes empresas para que obtenham lucros mega-gigantes, o que os mantêm intocáveis como sempre.

O pensamento de base, aqui, é uma teoria do dominó: não se afaste nem um passo dos pilares de sustentação (ou assim pressupostos) de todas as políticas: privatização, financeirização e militarização, todas dirigidos no rumo ‘natural’ do capitalismo norte-americano… ou todo o edifício da economia política norte-americana desabará; e, se desabar, desabará com ele o poder dos EUA no mundo.

Israel não passa de um caso de apoio a uma contrarrevolução pode-se dizer local, e serve como facilitador para a penetração pelos EUA que quer chegar ao petróleo e a outros recursos naturais e avançar, dali adiante, pelo hemisfério, até o Extremo Oriente.

Simultaneamente, os EUA pressionam firmemente o Ocidente – o tal movimento “de pivô” de Obama foi golpe de mestre focado diretamente contra a China, com massiva movimentação de forças militares, simbolicamente os super porta-aviões, mas também o arroz-e-feijão de todas as guerras: veículos nucleares, não nucleares, militares, paramilitares, mercenários, bombardeiros de longo alcance, tudo mobilizado para intimidar a China e, para além da China, o Extremo Pacífico, incluindo Japão e Sul da Ásia.

MILITARISMO DOENTIO

Talvez jamais venhamos a saber onde e como Obama chegou a esse ponto, serviçal do fundamentalismo de mercado, que se serve da Lei Antiespionagem para perseguir cidadãos, homem da vigilância e do controle, tudo sugerindo que a sociedade civil já foi empurrada para o mesmo militarismo doentio de toda a política exterior. Ou talvez só descubramos quando já for tarde demais.

Não podemos nos deixar enganar pelo discurso de Obama, em Jerusalém, porque ele absolutamente não tem qualquer interesse em contribuir para a paz naquela região, nem, sequer, tem algum interesse em democratizar coisa alguma que implique aproximar israelenses e palestinos numa só nação baseada em direitos iguais para todos. Esqueçam todo o palavrório.

Nessa visita, cada passo foi cenografado para fazer avançar uma política de catarse: dizer a coisa certa, criticar a repressão de um sobre o outro, depois, do outro sobre o um. Depois, em seguida, novamente arrochar os mesmos parafusos.

O desempenho cenográfico de Obama em Israel reproduz seu desempenho doméstico: promessas, todas as que possam ser rapidamente quebradas; conversas de paz, só se, simultaneamente, noutra sala, estiver negociando guerras; e quando o nível de enganação subir demais, ameaçando explodir à vista de todos… providencie rápido o alívio purgativo: mais e mais palavrório, as mais tolas platitudes, os mais tolos lugares-comuns.

Obama-Brennan e Obama-Netanyahu (parceiros perfeitamente compatíveis) são, encarnados, a cara bifronte do fascismo liberal: Obama é a cara sorridente da enganação; ao lado, seu parceiro, é o gangsterismo político, o assassino obsceno.

(do site Iran News)

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