A chegada do novo

Vittorio Medioli

Muito precisa ser feito para resgatar socialmente minorias étnicas, raciais, religiosas e outras discriminadas por suas livres escolhas comportamentais. Registramos um portentoso progresso nos últimos cem anos comparando-se com os séculos anteriores. Deram-se avanços juntamente com a expansão da consciência, com o reconhecimento apenas do “óbvio” que se incorporou nos costumes da população. O que era “normal” no século XVIII, como deportar, destratar, açoitar, enforcar e exterminar, passou a ser crime, e, mesmo que não o fosse, hoje, felizmente, não se coadunaria com algo de minimamente civilizado. Não há quem duvide de que discriminar uma pessoa pela cor da pele é errado, estúpido e reprovável, além de antissocial.

Vivemos como nunca uma fase de aceleração civilizatória. Basta considerar que as últimas cinco gerações progrediram mais que as 50 que as antecederam. Essa mesma progressividade sinaliza que outras mudanças marcantes ainda estão por vir, mais intensas que as registradas no século XIX e que se aceleraram depois de 1968, quando também a juventude ocupou praças e se revoltou. O tempo executa sua tarefa, abre e fecha feridas, apaga até cicatrizes.

Anos? Gerações? Séculos? Incrível como em apenas um mês de manifestações de ruas já se possa sentir um envelhecimento fulgurante de atores e de cenários que pareciam destinados a persistir incontestados e inabaláveis. Aí enraizados para torturar quem se apercebia do gigantismo da injustiça, do acinte, da desgraça.

Veja-se ainda como essa “virada de página” assusta quem tem privilégios injustos. E agora, como fica? Será que os revoltosos se recolherão e tudo voltará ao que era? Pouco provável. Estamos como a bordo de um asteroide evolutivo, com trajetória incerta, mas irrefreável, nunca mais voltaremos ao que éramos.

Valores estão mudando, alguns se intensificando. Apenas usando-se de desapego pessoal, com mente mais aberta para o “novo”, talvez confortada pelas palavras de sábios, se poderá entender que esse processo de justiça social, que embebe as pessoas, será benéfico ao sistema.

ESCRAVIDÃO

Se a escravidão era defendida e aceitável no século XIX, muitos costumes atuais serão vistos em breve como obsoletos, ridículos. As pessoas do amanhã se perguntarão como nós, desta geração, toleramos tantas “injustiças” bárbaras e primitivas. Burocracias, impostos, desperdícios, falcatruas, governantes assumidamente defensores da corrupção. Hipersalários, supermordomias, milhares de cargos sanguessugas, desrespeitos aos direitos de assistir doentes, crianças, desamparados. Trens-bala no lugar de metrôs etc.

A geração que vem aí não terá como tolerar e, quando assumir maior responsabilidade econômica e social, impulsionará mudanças que os atuais ocupantes do poder não conseguem. Como aconteceu com a “geração de 68”, à qual pertenço, conseguirão quebrar tabus e, com sua exuberância, realizar grandes avanços, livrando-se de safadezas e de demagogos baratos.

Não será fácil, como já foi, manobrar massas. A circulação das informações elevará a capacidade cognitiva, a crítica e a autocrítica. O tempo, melhor juiz e remédio da história, realizará sua inexorável tarefa de sepultar o que mais não serve.

Nesse aflorar de consciência, se entenderá que rotular minorias é uma ofensa, que o Estado autoritário, leniente com a corrupção e os desperdícios, não tem atributos morais para ditar normas legais e sociais.

PLANTIO DE BATATAS

Na semana passada, entre os descalabros de uma sociedade alienada pela burocracia e pela corrupção, por gente descomprometida com o processo civilizatório, entrou em vigor uma exigência de apresentação de relatório arqueológico para licenciar plantio de batatas ou qualquer outro produto. Sim, porque, segundo o delírio e a fome de arrecadação num território de 29 milhões de quilômetros quadrados como é o Brasil, e que de arqueológico não possui uma milionésima parte, é preciso agora, antes de semear, se certificar de que alguma civilização extraterrestre não tenha passado pelo pedaço. Nem na Itália, crivada de patrimônios arqueológicos, existe essa estultice, sancionada por eminências brasileiras.

Esse é o Estado que nega consciência cívica, que pune, que abusa de autoridade, que é cínico em suas pretensões. Tem razão esta geração de escrachar e perseguir políticos, de querer saber como se gasta a suada arrecadação para sustentar quadrilhas de larápios.

A abordagem mais civilizada é de educar, não de punir, de conscientizar, de dar exemplos, de premiar quem respeita as regras. A sociedade tem que premiar quem abriga minorias, quem preserva as matas, quem assume o papel social que o Estado, perdido em corrupção e bandalheiras, não consegue. Mas só se fala de cotas, de multas, de penas, como se todos fôssemos bandidos, e os legisladores, santos.

Os atuais governantes ficarão mal situados, muito em breve, na moldura da história que se acelerou.

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5 thoughts on “A chegada do novo

  1. Robin Hood inspira manifestantes

    Li na internet = as roupas que foram retiradas da loja Toulon, no Leblon, foram distribuídas com os mendigos da Zona Sul, mas isto os jornalões não tem interesse em informar. Existem os infiltrados – claro – mas não estamos falando destes.

    Diz a lenda que antes de morrer o pai de Robin Hood declarou: “Lute até que os cordeiros se tornem leões”. Faz sentido, a meninada de todas as idades parece que acordou da letargia-cordeiros, despertaram o leão interno. Robin Hood foi um dos primeiros a praticar justiça social e distribuir a renda.

    Profético, o grande poeta Jorge Benjor aos descrever o então herói carioca “Charles Anjo 45” descreveu: “Robin Hood dos morros/rei da malandragem”. Ouçam e reouçam esta bela música.

    Uns dizem que é mito, outros que, de fato, existiu. Na Inglaterra ruas e praças tem o seu nome, considerado uma espécie de Herói Nacional.

    Está na hora de ler ou reler as várias edições de Robin Hood que se encontram por aí. Da mesma forma, assistir ou reassistir os vários filmes sobre o tema.

    Esses moços e moças (de todas as idades) caridosos, Robin Hoods pós-modernos chegaram para ficar.

    O mítico Robin Hood vivia nas florestas (bem ecológico, atualíssimo). Os Robin Hoods de hoje vivem nas florestas de cimento, bosques de edifícios…

    Primeiro chamaram de Revolta do Vinagre, agora podemos acrescentar “re-Volta de Robin Hood”.

  2. Sobre esse artigo, há de se fazer um reparo, o Brasil não tem 29 milhões de km², mas sim pouco mais de 8 milhões e meio em sua extensão territorial. Quanto ao comentário do Sr. Antonio Rocha, intentando justificar atos de vandalismo de vagabundos que saquearam a loja Toulon, porque distribuiram o produto do saque (carece de fonte)com mendigos, tenha paciência. Cidadão não pode mais trabalhar honenstamente e consequentemente auferir lucros, que logo tem que ser saqueado, para que seja distribuído o produto de seu suor com pobrezinhos desvalidos, muita vez vagabundos que só querem viver de bolsa isso, bolsa aquilo, bolsa ‘a quilo’, tenha dó! Quer dizer que neste País, trabalhar honestamente e ganhar dinheiro, pagar muito imposto, já é considerado ato criminoso? Bom mesmo é ficar vagabundando e saqueando de quem tem coragem de trabalhar? Como os valores estão ficando invertidos! Seria essa a sociedade justa, senhor Antonio?

  3. Concordo plenamente. O melhor está por vir. O Brasil e o mundo vão ficar cada vez melhor, ao contrário do que as religiões (principalmente as “evangélicas”) propagam. Estas endeusam o tal “profeta” Daniel, um pessimista bíblico, mas grande bajulador do rei Nabucodonosor, dizendo que em seu “sonho”, ele era o “cabeça de ouro”. Os idiotas não sabem que somos os roteiristas, os diretores e os produtores dos nossos próprios sonhos. Dizem que “Deus deu um sonho” ao rei, como já ouvi dizer que “Deus me deu um sonho”. E que o medium e pai de santo Daniel interpretou aquele sonho. Mas o sonho é uma perturbação do sono, hoje já se sabe. Uma noite tranquila é uma noite sem sonhos. Ora, se Deus realmente existe, se não é apenas um delírio, tal divindade não perturba o sono de ninguem.
    Aliás a Bíblia está cheia der contradições antagônicas. Lá está dito, por exemplo, que todo governante é apontado por Deus, no sentido de ser escolghido por Deus. E que devemos amar nossos governantes. Pela Bíblia, portanto, Mussolini, Hitler, Stalin, de acordo com os grandes totalitaristas religiosos, como o sádico, assassino e torturador João Calvino, os supracitados tiranos foram sagrados por Deus. Aliás, o imperador Hiroíto, do Japão, era o próprio Deus para os japoneses, que seriam capazes de cometer suicídio coletivo se o tirano totalitário nipônico tivesse sido responsabilizado pelo massacre de chinezes, na época do jovem Mao, pela invasão de outros povos da Indochina, e até pelo massacre em Parl Harbour.
    A recitação gasta e estupidificante da Bíblia, como qualquer religião e sua arrogância, (ver os sites http://www.inter-islam.com e Islamic Voice.com) precisa infundir culpa e medo. Principalmente medo de um mundo que está se tornando “cada vez mais diabólico”.
    Sem esses dois fatores, essas religiões não sobrevivem.
    A Igreja Católica, “com seus dois mil anos de sabedoria”, como declarava meu pai, não incentivava muito a leitura da Bíblia. Porque com certeza sabia que quanto mais as pessoas inteligentes conhececem os textos bíblicos, quanto mais elas contemplassem a paisagem ensanguentada do Velho Testamento (e do Novo também), mais elas se convenceriam de que as reliogiões foram inventadas pelo homem. Que não é bom para as religiões que o s humanos tenham esperança de um mundo cada vez melhor aqui na Terra, já que foram incapazes de inventar um Céu de fato atraente.

  4. Prezado Geraldo Tavares, na pressa da postagem não completei o primeiro parágrafo. Aqui mesmo na Tribuna, em outros comentários, e em outras mídias já me pronunciei contra as quebradeiras e vandalismos, bem antes disso que está acontecendo atualmente. Procurei evidenciar o fato literário, Robin Hood, que tem sua presença no cinema, na música, na história, na geografia, na ecologia, nos quadrinhos, na arte etc… obrigado pela reflexão.

  5. Pingback: A chegada do novo | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

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