A cidade da música

Sebastião Nery

VIENA – Na praça, junto às ruínas romanas de dois mil anos, vi Mozart, o nobre. O que é que ele estava fazendo ali? Vendia um concerto de Strauss, o plebeu.

Vestido de Mozart, peruca branca, calças culote, babados nos punhos, Luis, estudante de arquitetura português, vendia ingressos para um concerto, à noite, da Orquestra de Valsas de Viena, no palácio Ferstel, onde esta o café central da rainha Sissi, de tantos livros e filmes.

Turismo se fatura assim: pega o turista pelo braço, no meio da rua. Jamais eu iria ouvir Strauss naquela noite de julho de 1996, porque já tinha saído do hotel preparado para escolher entre um concerto de Mozart, o festival de Jazz e o festival de Cinema.

Mas o português Luis, com seu sotaque italianado, filho de pai português e mãe italiana, me convençeu de que Mozart, jazz e cinema eu teria nos próximos dias, mas Strauss era só naquela noite.

Agora, 16 anos depois, outro estudante, espanhol da Catalunha, também vestido de Mozart com sua peruca branca e seus babados nos punhos me convenceu de ir ver o balé “Ana Karenina”, de Chostacovsky, porque a opera “Tanheuser” de Mozart estava esgotada. Fui.

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STRAUSS

Strauss é uma vitoria do povo sobre a pobreza. Até o começo do século passado, a valsa era uma musica frívola, uma dupla sertaneja. Tinha ascendência mesclada: a mãe da família dos minuetos de Mozart e das danças de Shubert e o pai do baile tirolês, do “lander” popular.

Um dia o general Wellington dançou a valsa e o passo três por quatro ficou inexorável. Em Bruxelas, quando os Aliados se encontraram para enfrentar Napoleão, dançaram valsas do velho Johnn Strauss, o pai. Quando a batalha de Waterloo foi ganha, a festa foi com valsa. Depois das históricas reuniões de 1814e 1915 dançava-se a valsa.

A família Strauss é a valsa: Johann, o pai; Johann, Josef e Eduard, os filhos. Mas foi o filho Johann quem compôs mais de 500 valsas e se fez sinônimo. “Danubio Azul”, “Contos dos Bosques de Viena”, “Valsa da Primavera”, tantas outras, são canções eternas da humanidade, mesmo quando “Primavera”, em austríaco, é “ fruhlingsstimenn”, como se fosse “fuligem”, poeira preta.

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JAZZ

Não so de valsa ou de opera vive Viena. Nenhum turismo vive de uma perna só. A grande lição do turismo de Viena e das grandes cidades turísticas do mundo é que a cidade está preparada, articulada, mobilizada, para o turista. Quando você assina a ficha no hotel, recebe inevitavelmente três prospectos: um mapa da cidade, um guia dos restaurantes e um dos espetáculos (concertos, teatros, shows).

Qualquer opção pode ser revolvida na hora: o hotel esta ali para telefonar, marcar, vender. Ou então contrata o Mozart para vender ingressos na rua.

Se você não gosta de valsa e jazz tem festival de cinema. E as dezenas de palácios e igrejas e museus, parques, bosques, cafés, bares e restaurantes, atentos ao turista para conquista-lo e leva-lo aos espetáculos.

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CIDADES

Se você quer saber se uma cidade é civilizada, é só ver se tem mais bar e café do que farmácia, mais restaurante do que hospital, mais igreja do que policia e sobretudo se não está entupida de ônibus.

O ônibus é a grande desgraça da cidade moderna: entope as ruas e não desentope as vias. Com seus 2 milhoes de habitantes, Viena parece um parque permanente, porque tem um metrô embaixo e bondes, bicicletas, muitas bicicletas, milhares de bicicletas em cima.

Não há essa historia de o homem ficar disputando espaço com automóvel e ônibus. A cidade ou é de todos, para ser usada por todos ou vira uma louca feira bandida.

Enquanto nossas cidades forem dos ônibus e dos camelôs não teremos civilização nem turismo.

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