A cidade do lírio

Sebastião Nery

FLORENÇA – Ela é a ‘cidade do lírio’. Sua padroeira é Nossa Senhora da Flor. Florença não podia deixar de ser uma cidade encantada, apesar de todas as violências da história. Bem no centro da praça mais importante, a Piazza della Signoria, numa placa de bronze encrustada no chão de pedras brancas, está lá:

– ‘Qui dove conisvo iconfratelli e Fra Domenico Bvonvicini e Fra Silvestro Marvffiil XXIII Maggio Del MCCCCXCVIII per iniqva sentenza fv impiccato e darso Fra Girolamo Savonarola dopo qvattro secoli fv collocata qvesta memoria’.         

Nascido em 1452 e queimado em praça pública em 1493, esse frade fanático e intransigente, um fundamentalista medieval, iniciou uma luta contra o estilo de vida florentino, que ele considerava pagão e dissoluto.  Fazia inflamadas pregações, organizava fogueiras públicas para queimar livros e obras de arte. Queria a supressão das festas, dos jogos, de tudo que representava o modo de vida luxuoso e festivo da cidade.

Com a morte de Lorenzo Medici, expulsou de Florença o seu filho Piero. Em 1497, o povo se revoltou e Savonarola foi queimado na praça com dois de seus seguidores. Dele resta hoje um retrato magnífico pintado por seu discípulo Fra Bartolomeu no Mosteiro de São Marco, ao lado da cela austera, monástica, onde ele viveu.

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MAQUIAVEL

Lúcia Helena Monteiro Machado, em seu primoroso livro ‘Florença, Berço do Renascimento’, já citado aqui, tem razão. Savonarola  só perdeu a briga porque encontrou pela frente o talento de Maquiavel, então secretário da chancelaria de Florença, que percebeu que a cidade estava indefesa, sem condições de enfrentar ameaças externas e rebeliões.

Foi uma grave decisão política. Até hoje Florença homenageia com um busto, Marcello Adriani, o Chanceler da República de Florença.

Maquiavel é uma figura mítica da Renascença, a começar do seu extraordinário livro ‘O Príncipe’. ‘Apesar de uma família tradicional de Florença, Niccolo Maquiavel nasceu pobre. Em 1498 tornou-se Secretário da Chancelaria de Florença, encarregado dos assuntos estrangeiros e das guerras. Fica na função até 1512, o fim da República’.

‘Patriota, idealista e apaixonado por Florença, percebe a fragilidade do regime e os males do poder autocrático. Em1512  quando os Médici voltam a dominar a cidade, é acusado de traição, preso e torturado, sem nada ter a confessar. Só recupera o seu prestígio em 1520 quando o papa Júlio de Médici o nomeia historiador oficial de Florença’.

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DA VINCI

A Renascença foi obra de gênios. E tanto mais surpreendente quanto viviam numa cidade de 10 mil habitantes, que chegou a 20 mil e duas vezes voltou a 10 mil, destruída por uma peste e uma inundação.

É incrível imaginar que viveram e conviveram homens do tamanho de Savonarola (apesar de meio doido), Maquiavel, Leonardo Da Vinci, Galileu Galilei, o insuperável Dante, Michelangelo, Giotto e outros.

1 – ‘Da Vinci (1453-1519) e Maquiavel se conheceram na corte dos Borgia. Da Vinci trabalhava como arquiteto e Maquiavel era o Chanceler do governo. Dez anos antes do encontro, Da Vinci já havia desenvolvido um projeto para dominar o rio Arno, tornando-o navegável, evitando enchentes e transformando Florença em um porto’.

2 – ‘Maquiavel (sempre maquiavélico) responsável pela política militar, tentou aproveitar o projeto de Da Vinci para desviar o rio de Pizza,privando a cidade de água e vencendo assim a arquiinimiga de Florença. O desvio do Arno fracassou. Mas até hoje o projeto de Da Vinci é considerado o melhor tratando-se de um desvio de um rio’.

3 – ‘Foi o símbolo do gênio da Renascença. Deixou 5 mil folhas manuscritas onde desenvolvia projetos das mais variadas disciplinas. Viveu uma vida errante, viajando muito e servindo a vários senhores. Em Milão pintou a ‘Última Ceia’. Em Florença, a ‘Gioconda’. Morreu no pequeno castelo de Clos-Luce, que François I da França lhe ofereceu. Está enterrado na capela do Castelo de Amboise, no Vale do Loire’.

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DANTE    

1 –‘A história de Dante (1265-1321), sem trocadilho, é ‘divina’. Em 1274, quando tinha apenas 9 anos, encontrou pela primeira vez Beatriz, e teve seu primeiro alumbramento. Só a veria novamente aos 18 anos e a emoção se repete. Impulsionado por essa paixão, escreve ‘Il Canzoniere’ e ‘La Vita Nuova’, e sobretudo ‘A Divina Comédia’ sua obra prima’. ‘O maior trunfo de sua obra foi elevar a língua popular, o italiano’.

2 – Numa das lutas políticas de Florença, ‘Dante, acusado de traição, se exilou. No exílio, escreveu ‘A Divina Comédia’. Em 1315 Florença lhe ofereceu o perdão, com a condição de que se fizesse prisioneiro e fosse se retratar à porta da Catedral, descalço e trajando a veste dos penitentes. Dante não aceitou. O poeta não voltou. Está enterrado em Ravena, onde morreu’, mas Florença lhe dá toda a glória.

 

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