A codorna e o botox

Sebastião Nery

Em 27 de março de 1957, governo de Juscelino, Carlos Lacerda (UDN do Rio) “leu da tribuna da Câmara um telegrama secreto, escrito em código, pertencente ao arquivo do Ministério das Relações Exteriores, e proveniente da embaixada brasileira em Buenos Aires”.

“O telegrama fazia referência a um inquérito do Exército da Argentina, que implicava João Goulart como negociador, junto a Peron, então presidente argentino, de uma transação de exportação de madeiras para lá, cujo pagamento revertera para a campanha de Getulio em 1950”.

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LACERDA

“Eleito líder da UDN em abril, Lacerda foi acusado pelo governo de ter fornecido elementos para decifração do Código Secreto do Itamaraty. Em seguida, o ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares, enviou uma mensagem à Câmara, acompanhada por ofício da Procuradoria Geral da Justiça Militar, pedindo licença para processar Lacerda por crime contra a segurança nacional” (DHBB-FGV).

Apesar dos devastadores discursos de Vieira de Melo, líder de JK, Lacerda falou fulgurantemente uma madrugada inteira, citando São Tomás de Aquino. A Câmara, por 12 votos, negou a licença para o processo.

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HELIO

Em 1963, governo de João Goulart, o jornalista Helio Fernandes publicou nesta TRIBUNA DA IMPRENSA um documento que o Ministério da Guerra considerou “sigiloso” e de “segurança nacional”. O ministro, general Jair Dantas Ribeiro, mandou prender o Helio.

Mesmo autorizado pelo general Cordeiro de Farias, que lhe passara o documento, Helio Fernandes negou-se a revelar a fonte. Afinal, o Supremo Tribunal Federal, numa votação histórica, que chegou a ficar empatada, concedeu-lhe habeas-corpus pelo voto de minerva do presidente.

Em 2009, diante da acusação de haver fabricado, na Casa Civil, um dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique e de sua mulher Ruth Cardoso, o governo Lula acusou o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) de haver fornecido uma cópia do dossiê à “Veja” e à “Folha de S. Paulo”.

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ALVARO

Se foi mesmo o senador quem entregou à imprensa o dossiê, que circulava pelo Congresso, ele não fez nada mais do que cumprir seu dever. O Congresso existe exatamente para fiscalizar o Executivo. Constituição: “Art. 49 – É da competência exclusiva do Congresso Nacional fiscalizar e controlar, diretamente ou por qualquer de suas casas, os atos do Poder Executivo, incluídos os da administração indireta”.

O então ministro da Justiça, Tarso Genro, um “jurista” à sua altura, candidatou-se ao “Casseta e Planeta”, dizendo que “a oposição é que tem que explicar de onde veio o dossiê”, minutos antes de a então ministra Dilma, em cadeia nacional, contar que o dossiê (ela chama de “base de dados”) “saiu da Casa Civil” e ela iria apurar “quem e para quem praticou esse crime”.

E mais: o engraçadissimo ministro Genro (de quem?) ainda se deu ao luxo de descambar para uma barata filosofia de botequim, dizendo que “dossiê é conceito (sic) e o que é preciso é descobrir quem o divulgou”.

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DILMA

O País então sofreu o constrangimento de assistir ao patético espetáculo de ver uma mulher brava, preparada, competente, chamada Dilma Rousseff, embaralhar-se toda, gaguejar, maltratar o português, em um doloroso tatibitate, tentando negar que o dossiê, saído de dentro da Casa Civil, tivesse o objetivo (flagrante!) de constranger e chantagear a oposição.

Era toda uma ópera bufa. Se o dinheiro é público, os gastos, sejam quais forem, têm que ser públicos, revelados. Querer transformar em “segredos de Estado, por imperativo de segurança nacional, os gastos do presidente e da família do presidente”, é uma violência contra a República.

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FHC

Governar na sombra tinha que acabar no ridículo de o governo do PT revelar no dossiê que, no governo FHC, a Presidência da República mandou buscar no Rio, para Dona Ruth, uma “codorna desossada” (“R$ 195,00, incluídos + R$ 60,00 e + R$ 10 de transporte”), paga pela tal Conta B.

Para dar o troco, a oposição quer que também sejam abertas as despesas da Presidência da República no governo Lula, para ver “se algum botox de dona Marisa foi pago com cartão corporativo”. É a guerra da “codorna desossada” contra o “botox”. Ou vice-versa.

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COLAR

Surgiu então mais um mistério. No “Globo”, o craque informadíssimo Jorge Moreno contou: “Encomendei a um desses amigos que viajam muito para os Estados Unidos um colar que vi exposto numa importante joalheria de Nova York. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que alguém já havia comprado essa peça única,  no ano passado. A jóia foi paga com cartão corporativo do governo. Todo mundo no TCU (Tribunal de Contas de União) já sabe quem comprou”.

Quem fez o decreto dizendo que os gastos da família presidencial são secretos foi o ditador Costa e Silva, em 1967. “De 2003 e 2007, Lula da Silva e família gastaram R$ 11,6 milhões e o País não sabe com quê” (A. Petry). Mas quem gastou, gasta e gastará, sabe muito bem. Por isso exige sigilo.

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