A comissão do tradutor

Sebastião Nery

Lomanto Junior elegeu-se governador da Bahia, em outubro de 62, e foi aos Estados Unidos. Queria recursos para tocar para frente o CIA (Centro Industrial de Aratu), pensado, articulado, criado e estruturado pelo talento e espírito público de Romulo Almeida.

Com Lomanto, viajou o saudoso Marcelo Gedeon, cidadão do mundo, sutil e mordaz, aparentado com o governador, presidente do CCPP (Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau), então o maior produtor de cacau do País e um dos financiadores da campanha de Lomanto.

O governador foi a uma reunião com empresários americanos e tecnocratas do governo dos Estados Unidos, fez longa exposição sobre o projeto do Centro de Aratu, suas perspectivas e possibilidades.

Lomanto falava em português, Marcelo traduzia.

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LOMANTO

Quando acabou a exposição de Lomanto, os empresários apresentaram uma série de sugestões para investimentos. Lomanto anotava tudo em um caderno branco. Depois, conferiu o relógio, viu que já era tarde, tinha outro compromisso, falou ao ouvido de Marcelo:

– Marcelo, vamos embora que esses gringos já estão muito ricos, falam demais e tenho mais um encontro daqui a pouco.

Marcelo sorriu, os americanos ficaram curiosos:

– O que é que ele disse?

Marcelo fez uma cara de São Francisco de Assis com gripe:

– Ele falou que 5% de tudo que foi acertado aqui é meu.

E deu uma gargalhada. Os americanos não entenderam nada.

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O GOLPE DO GEAP

Se o governo do PT estivesse brincando, como estava o tradutor do governador da Bahia, muito bem. Mas não era brincadeira, mas de verdade. Em 2003, por exemplo, o então presidente Lula assinou um decreto revogando uma lei, o que é um escárnio jurídico, para dar a uma entidade privada, a Geap, comandada por uma dirigente do PT, o monopólio dos planos de saúde do funcionalismo, no valor de R$ 1 bilhão.

O Tribunal de Contas da União já havia avisado que era ilegal, inconstitucional, mas a Casa Civil da Presidência da República (leia: José Dirceu), onde foram feitas as reuniões com a Geap e preparado o decreto com a estranha e indébita participação dela, não tomou conhecimento. E Lula assinou.

Diante do escândalo, o governo e o PT se queixaram de que a oposição e a imprensa estavam radicalizando e fazendo acusações infundadas. Mas queriam o quê? Se foi barbeiragem, era inexplicável. Se houve má-fé, inaceitável.

De lá para cá, a coisa degringolou. Será que basta ser do PT para poder fazer tudo, até ganhar a comissão do tradutor?

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