A considerável oposição a Dilma

Carlos Chagas

A observação é de Disraeli, primeiro-ministro da Inglaterra no século XIX: “nenhum governo pode estar seguro por muito tempo sem uma considerável oposição”.

O diabo é que tanto tempo depois, aqui no Brasil, a segurança do governo Dilma Rousseff parece garantida não propriamente pelos tucanos e companhia, mas pela considerável oposição que se organizou contra ela em sua base parlamentar. Coisas da política, onde não há espaços vazios. Se PSDB, DEM e penduricalhos não desempenham o papel que lhes cabe, emergiram como adversários do governo seus próprios aliados do PMDB, PT, PTB, PDT, PR e outros.

Hoje, no palácio do Planalto, teme-se muito mais Henrique Eduardo Alves, José Sarney e Renan Calheiros do que Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e até José Serra.

Fica para outro dia verificar que a oposição de mentirinha carece de um programa alternativo de governo, não tem mensagem e nem se preocupa em acompanhar os desvios da administração federal. Vale mais atentar para os oposicionistas de verdade, aqueles que pressionam a presidente Dilma atrás de cargos, nomeações e verbas, exigindo ministérios, a direção de empresas estatais e favores variados. São eles que dão segurança ao Executivo, porque se não forem atendidos votam contra e sabotam a estratégia oficial. Formam a considerável oposição.

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CLARO COMO ÁGUA

Setores conservadores voltam a bater na mesma tecla: o vexatório crescimento do PIB e a queda da produção industrial devem-se à ausência das reformas trabalhista e tributária. Querem reduzir os já reduzidos direitos de quem vive de salário, como querem pagar menos impostos, ou seja, vantagem para eles, sacrifícios para o trabalhador. É mais uma investida sobre o governo Dilma, depois da adesão da presidente à aventura das privatizações.

Na realidade, nosso péssimo desempenho econômico, com ênfase para a indústria de transformação, deve-se essencialmente à China. De lá chegam produtos de toda ordem, numa concorrência que se não é desleal, é sinistra. E por razão muito simples: aquele país cresceu, tornou-se a segunda economia do planeta porque os salários, lá, são ridículos quando comparados com resto do mundo.

Basta dizer que um engenheiro qualificado recebe menos de 100 dólares por mês, e um operário, 40 dólares. Com uma diferença fundamental: ambos comem, moram, vestem-se e assistem televisão com o fruto de seu trabalho. Não passam fome, muito pelo contrário. Esse é o verdadeiro milagre chinês, que fez com que o capital internacional corresse para lá, pois mão de obra tão barata multiplicou os lucros até quase o infinito. Por isso a China cresceu e produz tudo a preços inferiores aos do mercado. Inunda os demais países com sua produção, gerando, é claro, efeitos como os que agora sofremos.

Fazer o quê? Reduzir salários ao nível dos chineses? Suprimir a carga fiscal das industrias? Declarar guerra à China? São três absurdos, faltando às nossas elites apenas aderir ao último. A única saída seria taxar bem mais as importações que vem de lá, mas faríamos o que se eles interrompessem nossas exportações de minério e de soja?

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CONDOMÍNIO EM AÇÃO

A designação de Leonel Brizola Neto para ministro do Trabalho terá a vantagem de a presidente Dilma, mesmo indiretamente, homenagear o avô do deputado, fundador do partido ao qual ela pertenceu por muitos anos. Fora isso, o problema continua: o ministério do Trabalho será feudo do PDT? Para zelar pelos direitos do trabalhador, só um parlamentar pedetista?

Pelo jeito, nada mudou nem vai mudar. O governo é um condomínio onde o síndico fica proibido de visitar muitos andares, mesmo aqueles onde se faz bagunça, como acontecia do ministério dos Transportes e como pode voltar a acontecer, por necessidade de atender o PR.

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ALDO REBELO CEDEU

Caso a Câmara dos Deputados decida votar amanhã a Lei da Copa, já estará definida a posição do governo, favorável às principais exigências da Fifa, como a da venda de bebidas alcoólicas nos estádios onde se realizarão os jogos, desde que seja a cerveja Budweiser, patrocinadora da entidade. A chamada bancada evangélica é contra, mas dificilmente votará unida.

Em entrevista concedida ontem, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, reconheceu a necessidade de aprovação da lei conforme os interesses da Fifa. Resta saber se os deputados, e depois os senadores, concordarão com o artigo que proíbe a realização de greves nas capitais escolhidas para as partidas. Pela Constituição, não pode.

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