A Constituição está morrendo

Sebastião Nery

Noite de 13 de dezembro de 1968. Na televisão, o ministro da Justiça Gama e Silva, jornalista, advogado, promotor, professor de Direito na USP (Universidade de São Paulo), reitor da Universidade, biministro da Justiça e da Educação e Cultura, apesar de todos esses títulos e compromissos, lia o AI-5 (Ato Institucional nº 5), o mais fascista, indecoroso e repugnante documento da história política do País.

O prédio do Congresso, em Brasília, humilhado em conchas, iluminava as angústias nacionais. O senador e ex-ministro da Justiça Mem de Sá, da Arena do Rio Grande do Sul, chegou à sala das taquígrafas do Senado, que estavam falando alto:

– Minhas filhas, falem baixo que a Constituição está morrendo.

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GUA-GUE-JAN-DO

Ario Teodoro, secretário-geral do PTB, era presidente do partido no Estado do Rio. Augusto Carvalho, ex-prefeito de Rezende, secretário. Carlos Antonio, ex-secretário de Saúde do governador Badger da Silveira, do diretório. Com o golpe de 64, cassam o governador Badger. O PTB se reúne. Carlos Antonio vai para o micofone:

– Pe-ço a pa-lavra senhor pre-presidente. O pre-pre-sidente Castelo Branco deu ga-ga-rantias de que ia go-go-vernar com li-li-berdade e de-de-mocracia. E ca-cassou o go-governador Ba-ba-dger. Eu que-que-ria que o pre-pre-sidente Ario Teodoro in-in-terpelasse seu colega pré-pre-sidente Castelo pa-pa-ra saber que ga-ga-rantias são essas.

Lá da mesa, Ario Teodoro riu. Carlos Antonio gaguejou aos gritos:

– Senhor pre-pre-sidente, uma ques-ques-tão de ordem. O se-se-nhor está rin-do de mim ou do pre-pre-sidente Castelo Bran-Bran-co?

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ALÇA DO CAIXÃO

João Emerenciano era suplente do senador Francisco Pessoa de Queiroz, da UDN de Pernambuco (deputado federal de 1921 a 30 e senador de 1962 a 70). Mas o velho nunca lhe deu uma chance. Chegou a passar seis meses na Europa, sem pedir licença, só para Emerenciano não assumir.

Um dia, soube-se em Recife que o senador, já com 80 anos (nasceu em 1890 e morreu em 1980) estava doente no Rio. Emerenciano pegou o avião e veio visitar o senador. Para surpresa dele, o velhinho o recebeu sentado na sala, paletó, colete, gravata, barba feita. Embora muito pálido e o rosto esverdeado, todo espigado e olhos acesos:

– Como vai o senhor, senador?

– Muito bem. Melhor do que nunca. Veja a fisionomia. Estou ótimo.

Emerenciano voltou para Recife e morreu cedo, aos 52 anos, igual à Constituição. No cemitério, segurando a alça do caixão, o senador Pessoa de Queiroz. Já perto dos 90 anos.

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