A covardia do Santos foi maior do que a própria derrota

Pedro do Coutto

Acredito que o título acima seja boa síntese para a péssima atuação do Santos na final do Torneio dos Campeões. A equipe envergonhou o futebol brasileiro, não pelo fato de perder para o Barcelona, mas pela forma como perdeu. O Santos se acovardou desde o momento em que pisou o gramado no Japão. Sequer conseguiu tocar a bola.

Começou tentando marcar no seu próprio campo para lançar contraataque, o que era compreensível como tática. Mas, com isso, ofereceu espaço aos craques do Barcelona. O Santos nem bloqueava, tampouco articulava qualquer investida. Amarelou totalmente. Aos dez minutos o técnico Pep Guardiola percebeu o medo nos olhos e na respiração dos santistas. O Barcelona que começara com cinco no meio campo para evitar as tabelas de Neymar, ou seus lances isolados, sentiu que o adversário estava incapacitado. Paralisado de medo.

Mandou então o time da Catalunha avançar. Resultado: aos 14 minutos estava dois a zero. Muricy Ramalho não conseguiu em momento algum colocar em ação uma tática melhor. Se havia quatro espanhóis e Lionel Messi no meio campo, a alternativa seria abrir os laterais e escapar da teia de marcação que não dava espaço ao time para jogar o seu futebol. Nem tal tentativa foi feita, talvez até nem pensada.

A equipe de Vila Belmiro havia perdido a passada e a partida ainda no vestiário. Neymar investiu-se de uma responsabilidade que não tinha: a de ser maior e brilhar mais do que Messi. E toda vez que um atleta ou um artista espera demais de si mesmo, a tendência é fracassar. Neymar não apareceu no jogo. O Santos não desferiu um chute a gol.Psicologicamente refugiou-se na troca de passes para o lado, como se isso adiantasse alguma coisa.

A população brasileira começou a torcer para o acaso. E quando se torce para o acaso, está se confessando inferioridade. Sim. Porque quando confiamos num time, e vemos trocar poucos passes para chegar a área adversária, não torcemos para o acaso, para um pênalti, um imprevisto, um lance de sorte. Torcemos para a equipe como um todo. É claro que não se pode exigir só vitórias. Isso não existe. Derrotas também aparecem na estrada do tempo.

Sou vacinado contra elas desde 1950. Estava no Maracanã, na final contra o Uruguai.Mas uma coisa é perder lutando, sem se amedrontar diante do peso do adversário. Outra é entregar o jogo desde que ele começou. Por isso sustento que a manhã de 18 de dezembro de 2011 ficará na história do esporte brasileiro como o dia da vergonha. O dia em que um time brasileiro, campeão da Libertadores, entregou – sem combater – a taça ao Barcelona. A derrota de domingo foi, sob este aspecto, muito mais vergonhosa que a de 50.

O futebol mundial teve grandes equipes na sua história. O Santos, de Pelé, o Real Madrid, de Di Stefano e Puskas, o Barcelona, de Ronaldinho, agora de Messi. Há poucos anos, o Internacional de Porto Alegre, treinado por Abel Braga, não se intimidou e venceu o Barcelona na final por um a zero. Entrou fechado para impedir as tabelas famosas de um time fascinante, que era, porém, mais de exibição do que de competição.

Domingo, o Santos deixou o Barcelona exibir seu talento. A defesa, tomada de um pânico que paralisa, permitiu que os gols fossem feitos através de tabelas na pequena área. Não marcou ninguém. Melhor dizendo, marcou a si mesma. Aliás não só a defesa. Toda equipe manchou a belíssima história do Santos e de nosso futebol.

Dezoito de dezembro fica na memória como o dia da vergonha esportiva. O dia em que o Santos amarelou e, por inação, entregou o jogo. Sem alma, sem élan, sem disposição de honrar a camisa. Desastre completo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *