A crise do Brasil diante dos ares do tempo

Charge do Bruno Galvão (chargesbruno.blogspot.com)

Cristovam Buarque
O Tempo

Há uma sensação geral de que o país perdeu o rumo. O incômodo vem de fatos específicos: caos político, corrupção, recessão, desigualdade, violência, epidemias, desemprego, deseducação, falência das contas públicas. Poucos, porém, consideram que esses indicadores de falta de rumo e de decadência têm em comum o fato, ainda mais grave, de que estamos sem sintonia com o “espírito do tempo”, o conjunto de ideias que orientam a humanidade e cada nação para o futuro. É como se, além de estarmos rodando no meio do mar, não soubéssemos como inflar as velas do barco na direção dos ares que sopram para o futuro.

Não é a primeira vez que isso acontece. Quando o mundo ingressava na primeira revolução tecnológica, com o capital industrial e o trabalho assalariado dentro das regras do mercado, nós optamos por continuar escravocratas, patrimonialistas, ruralistas, exportadores de bens primários, obscurantistas no pensamento. Cem anos depois, quando iniciamos nossa industrialização, passamos a fabricar velhos produtos, não nos dedicamos a inventar produtos novos, conforme os novos tempos que já se iniciavam.

SEM SINTONIA – No século XXI, outra vez estamos dessintonizados com os ares do tempo: a revolução científica, o capital do conhecimento e a inovação como motores do progresso. Continuamos emergindo ao passado, não ao futuro: comemoramos continuar exportando commodities e fabricando autos, sem desenvolver capacidade de inovação para criar novos produtos da economia do conhecimento, sem base científica e tecnológica, sem colocar o bem-estar na frente de produção, consumo e renda, sem compromisso com o equilíbrio ecológico.

Vemos a tragédia imediata da recessão e do desemprego ao redor, mas não percebemos a tragédia distante de continuarmos na velha economia da produção primária, da indústria metal-mecânica, da dupla dependência tecnológica, tanto na inovação dos produtos quanto na inovação das ferramentas.

A maior prova da falta de sintonia com o futuro é o descuido com que tratamos nossa educação de base, desperdiçando milhões do mais importante vetor do futuro: os cérebros bem-formados de nossa gente. O vetor do progresso está na educação de qualidade igual para todas as crianças, independentemente da renda dos pais e da cidade onde vivem.

MUITOS ERROS – Desprezamos o futuro quando nos recusamos a prestigiar o mérito dos bons professores, diferenciando-os dos demais. Não estamos sintonizados com o futuro ao mantermos uma máquina estatal ineficiente, a serviço de sindicatos e partidos, e não do público; ou quando nos recusamos a atualizar velhas leis que já estão superadas. Nos tempos em que a taxa de natalidade diminui e a esperança de vida aumenta, o espírito do tempo exige a reforma no sistema previdenciário.

A maior crise brasileira não está nas aparências do que nós vemos e sofremos, mas em nossa recusa de olhar para onde sopram os ares do futuro e de como fazer as reformas que nos sintonizarão com ele. Estamos desorientados com o presente caótico e outra vez não nos sintonizamos com as forças do espírito do tempo.

4 thoughts on “A crise do Brasil diante dos ares do tempo

  1. Para quem já foi Ministro da Educação, parece que ele nunca deu muita importância ao assunto e para quem apoiou os governos petistas por muito tempo, quando a educação no Brasil se tornou um caso de polícia nunca vi ele se manifestar. E mais, na Wikipédia ele aparece como o criador do Bolsa Família, ou seja, usurpou a criação da Ruth Cardoso.

  2. Um Senador que disse, que votou pela admissibilidade do impeachment, mas na votação para o afastamento definitivo da Presidente irá aguardar as acusações e defesas da Presidente para votar, não é confiável, haja vista que todos nós estamos carecas de saber, que as acusações e a defesa da Presidente serão as mesmas desde o seu início, não vai haver nenhum fato novo.
    Assim como Romário, o Cristovam Buarque, na altura do campeonato com todas as cartas na mesa , dizerem-se indecisos é pura malandragem e esperteza.

  3. Honesto, mas com validade vencida. O senador CB, que já pulou em vários partidos, faz relatos corretos. No entanto, seus diagnósticos são sofríveis. Por fora de quase tudo, distante das decisões, fala, fala, mas não é escutado, compreendido. pesa sobre ele algo que, para sua idade, é quase inalcançável: a liderança. Uma causa nobre, justa e séria, exige um exemplo, um comando, uma condução.
    Embora sério, sensível e respeitável, só consegue animar alguns poucos colegas no senado e na política.
    O tempo passou e só Cristiovan Buarque não viu! Poderia ter feito muito mais.

  4. Agora ficou de bom demais da conta, o Senador acaba de entrar para os quadros do PPS da soninha francine toda pura………

    Pior que um Comunista é um Ex-Comunista….

    eh!eh!eh!eh

    Je suis Pão com Mortadela…..

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