A culpa não foi do jumento

Sebastião Nery

A Bahia foi toda ao aeroporto ainda 2 de Julho, de Salvador, esperar seu primeiro cardeal, naquela manhã ensolarada de janeiro de 1953, dom Augusto Álvaro da Silva, com seu nome de verso (também sou Augusto por causa dele), alto, elegante, asceta, magistral orador sacro.

Chegou como um príncipe, com a batina vermelha e o barrete rubro de cardeal. Pernambucano de Arcoverde, era arcebispo primaz de Salvador desde 1924, bispo no interior desde 1911. Poeta primoroso, escondia-se nos seus livros de poesias atrás do discreto nome de Carlos Neto.

Na véspera da chegada dele a Salvador, um jumento abaianado atravessava em paz a praça Castro Alves, quem sabe para ouvir libertários poemas ao pôr-do-sol sobre Itaparica, bem em frente ao jornal A Tarde, quando foi atropelado e morto por um táxi, cujo motorista também morreu.

No dia seguinte, o Diário da Bahia, dirigido pelo talentoso Tarsilo Vieira de Melo, deputado federal pela Bahia (depois líder de Juscelino na Câmara), que não era nenhum piedoso cristão, mas era um democrata raça pura, pôs na primeira página duas fotos enormes: a de dom Augusto, com toda a pompa cardinalícia, e a do jumento, estirado morto na praça.

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DOM AUGUSTO

Mas, na oficina do jornal, por azar ou tentação de satanás, inadvertidamente trocaram as legendas das duas fotos. Embaixo da foto do jumento, estava escrito: “O cardeal dos baianos”. Embaixo da foto de dom Augusto, escreveram: “Este jumento envergonha a Bahia”.

Vieira de Melo ficou desolado. Embora não comandasse mais o dia-a-dia da redação, por ser deputado, o diretor jornal era ele. Como explicar que não foi a propósito, em um jornal dirigido por um quase anárquico e com a redação “cheia de comunistas”, como acusava a anacrônica UDN?

Anos depois, dom Augusto já doente (morreu em 1964), aposentado da arquidiocese, fui visitá-lo numa manhã de domingo, e a mágua continuava:

– Sebastião, não me venha dizer que a culpa foi do jumento. Aquilo foi uma maldade bem própria de vocês jornalistas.

Mesmo os santos e sábios cometem injustiças.

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LULA

Em setembro de 2005, em plena crise do mensalão, o então presidente Lula esteve em Salvador para fazer mais discurso na abertura da Conferência Internacional do Café, realizada no mágico hotel Pestana, o antigo francês Meridien, agora aportuguesado, sobre as pedras negras do Rio Vermelho, e ser filmado numa colônia de Pescadores ao lado do hotel, onde Caramuru foi embora pelo mar, deixando atrás, na praia, inconsoláveis, as legendárias irmãs Moema e Paraguassu.

O PT, ou foi proibido pela segurança do palácio do Planalto ou não teve coragem de pôr a cara de fora. Não apareceu. Ninguém. O blablablá agradativo ficou por conta do PCdoB, essa estranha matamorfose política, que nasceu do ventre de Stalin, foi amamentado na Albania e rompeu com o Partido Comunista Brasileiro porque o achava “democrata demais”.

O PCdoB (que virou Partido Comunista do Boaboca) encheu a cidade de faixas psicodélicas: “PCdoB: Contra a Corrupção e com o Governo Lula”! Ou: “PCdoB: Abaixo a corrupção e Viva Lula”!

Suprema injustiça. Esqueceram Marcos Valério, o trem pagador.

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