A democracia da guerra

Sebastião Nery

Terminado o longo Congresso Internacional de Municípios, em 1960, em San Diego, EUA, que durou mais de duas semanas, eu e o deputado Vavá Lomanto convidamos o simpático secretário de Saúde de Recife, Doutor Ferreira, para vermos a California toda. Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista, que me convidou para ser hospede de sua cidade por uma semana.

Chamei minha bela amiga Mara, já mais do que amiga, jornalista da Guatemala, rosto, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, parecendo um desenho de Paul Gauguin, que me havia apresentado o presidente do Conselho Municipal de Los Angeles. Ela ia voltar exatamente para lá, onde morava e representava seu jornal e uma revista da Guatemala.

O Impala Rabo de Peixe, amarelinho, capota conversível, dava perfeito para os quatro: Vavá e Ferreira dirigindo na frente, eu e a Mara namorando atrás. Rodamos a Califórnia inteira por um mês, das praias geladas do Pacífico até a Serra Nevada e as doces pontes de São Francisco.

***
HOLLYWOOD

Viagem é sorte. O Ferreira ficou em pânico quando viu o diabólico e multi-tentacular trevo da entrada de Los Angeles e encostou o carro:

– Não vou dirigir nessa loucura.

Eu tinha medo do inglês do Vavá, ainda pior do que o meu, e da direção dele. Peguei o carro, pedi algumas informações e aprendi que o macete era seguir sempre o “Down-town” que chegaríamos ao centro, onde ficava o hotel para o qual eu e a Mara estávamos convidados, próximo a vários outros, em um dos quais Vavá e Ferreira se hospedariam.

Uma ponte, duas, dezenas de pontes, um viaduto, dois, vários.

Toquei em frente. Não sabia para onde ia, mas ia.Vavá xingava de um lado, Ferreira resmungava do outro e eu, no volante, suava, totalmente perdido. De repente escrito numa placa: “Hollywood – Beverly Hills”. Zombei:

– Desculpem. Tenho encontro marcado aqui perto e vou passar lá.

Virei numa curva e apareceu uma casa com uma placa:

– “Nesta casa viveu Carmen Miranda”, etc.

Morrera cinco anos antes, em 1955.

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ELVIS

De manhã, meu anfitrião ligou eufórico e patriótico:

– Vocês brasileiros têm mesmo estrela. Hoje à tarde vão ser recebidos pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício.

Naquele dia Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Almoçamos com vinhos brancos (“Sebastien” e “Augustus”) e, quando chegamos ao hotel onde seria o comício, pequena multidão já enchia as ruas proximas.

Na frente do hotel, em um palanque, tocando guitarra e pulando montado em um microfone, um rapaz claro, muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock meio alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, jovem, alto, elegante, de gravata, uma flor no bolso do paletó, Kennedy subiu correndo a escada que dava para o palco em frente ao hotel e fez seu primeiro discurso. Depois, outro lá dentro, no grande salão do hotel, todo enfeitado de balões coloridos.

Só quase madrugada o presidente do Conselho de Los Angeles nos apresentou ao candidato para um cumprimento e nada além de umas poucas palavras. A fila era enorme. Mas deu para ver e sentir, nos dois discursos e naqueles dez minutos do encontro, que havia “uma força estranha no ar”.

***
KENNEDY

Uma semana toda em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria suspeita, porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, eleito.

Em São Francisco e Sacramento, assistimos a mais dois comícios de Kennedy. A mesma competência de comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e, como sempre, a promessa de que era preciso mudar.

Nixon era o candidato oficial, mas quem falava ao povo era Kennedy. A imprensa insistia em Nixon. E ambos apoiando demais a guerra do Vietnã.

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WAINER

De volta ao Brasil, escrevi várias crônicas e artigos. Ao contrário dos colegas brasileiros que escreviam de Washington e Nova Iorque, estava convencido de que Kennedy ia ganhar. E ganhou. Samuel Wainer me disse:

-Você arriscou. Naquela hora sua certeza não se justificava. Foi coisa de sorte, de estrela. O José Guilherme (Mendes, mineiro da “Última Hora” nos EUA), me disse que você ficou envolvido pelo rock do Elvis Presley.

Mas, com Elvis ou sem Elvis, quem ganhou foi Kennedy.

A guerra do Vietnã, que começara um ano antes, em 1959, só acabou em 1975. Como Nixon, Kennedy prometia levá-la até o fim. Ganhou com ela. Depois, também para ganhar, Bush pai fez a guerra do Golfo e Bush filho a do Iraque. Agora, Obama, Israel e os republicanos querem ganhar com a Guerra do Irã. É a estranha e assassina democracia da guerra.

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