A denúncia da tortura

Sebastião Nery

No fim do ano, o mais belo livro do ano : – “As Capas Desta Historia”. São mais de 300 capas de jornais alternativos, clandestinos e no exílio, inclusive no Golpe Militar (de1964 à anistia em 1979), lançado pelo Instituto Vladimir Herzog, editor e coordenador Ricardo Carvalho com José Luiz Del Roio, Vladimir Sacchetta e José Mauricio de Oliveira.

O capitulo de abertura – “Precursores Desta Historia” – é uma magnífica pesquisa histórica, que começa com o volume I do “Correio Braziliense ou Armazem Literário”, fundado em Londres em 1808 por Hipólito José da Costa, patrono da imprensa brasileira, que nasce brigando.

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BARATA

E logo vem a primeira pagina da “Sentinela da Liberdade”, do baiano Cipriano Barata, em 1823 (“Na Guarita do Quartel General de Pirajá, Mudada Despoticamente para o Rio de Janeiro e de lá para o Forte do Mar da Bahia, Donde Generosamente Brada “Alerta”!). “Por conta de seus artigos libertários, Cipriano Barata ficou sete anos preso em Recife”.

E há mais o “Tiphis Pernambucano” de Frei Caneca, “a “Semana Ilustrada”,, a “Revista Ilustrada”, “A Lanterna”, “O Parafuso”, “A Plebe”, “Crônica Subversiva”, “Spartacus”, “O Debate”, “O Cosmopolita”, “O Despertar”, “O Trabalhador Graphico”, “A Luta”, “O Semeador”, “A Hora Social”, “O Homem do Povo”, “O Jornal do Subiroff”, “ A Manha” (do Barão de Itararé)), a maioria anarquistas, todos jornais do fim do século 19 e primeira metade do século 20,

E nasce em Minas, em 1952, o “Binomio”, dos jornalistas José Maria Rabelo e Euro Arantes, o mais duradouro dos jornais alternativos do pais, afinal fechado pelo golpe militar de 1964.

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1964

O golpe militar de 1964 fez surgir mais um longo capitulo da imprensa de resistência no pais. Começou com o “Pif-Paf”, de Millor Fernandes, em maio de 1964, dois meses depois do golpe. E vieram “A Carapuça”, de Sergio Porto, o saudoso Stanislaw Ponte Preta, “O Sol”, da genialidade de Reynaldo Jardim e o “Folhetim”, da “Folha de S. Paulo”. E “O Pasquim” ocupou a praça, com seu humor criativo, avassalador, devastador, inteligente, corajoso, detergente.

Na pagina 46, o livro publica: – “Em 1971, a esquerda nacionalista voltou às bancas com POLITIKA. O jornal, publicado no Rio de Janeiro por Sebastião Nery, retomou as idéias de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, opondo-se à subordinação da economia brasileira aos interesses do capitalismo. Politika bateu de frente com a ditadura, chegou à tiragem de 38 mil exemplares e sobreviveu nas bancas por mais de dois anos, apesar da censura prévia e da forte pressão econômica exercida pelos militares”

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TORTURA

A página 47 é toda ela dedicada à primeira página do POLITIKA: “Rio, 11 a 17 de dezembro de 1972 Ano II – Número 60 – Cr$ 2,00”. E a manchete em letras garrafais, tomando toda a página: -“ INQUISIÇÃO E TORTURAS NO BRASIL”. Textos de Aliomar Baleeiro, Moacyr Werneck de Castro, Marcos Freire, Sebastião Nery, Roland Corbisier, Susanne Eckle e Edmar Morel.

De manhã cedo, o jornal chegou às bancas e a polícia chegou à minha casa. Tinha sido um desafio calculado, proposital, premeditado. Tortura era uma palavra esconjurada pela ditadura que, naquele 1972, a estava praticando de uma maneira ainda mais escancarada e criminosa. Eu não tinha o que negar e como negar. Fizera conscientemente, sabendo que alguma coisa ia acontecer e algum preço ia pagar. Depois de dois dias de ameaças e medo, sem dormir, sentado em um banquinho duro e descarado, vendo que eu não tinha tido a conivência de ninguém da censura e apenas a havia driblado, sem mostrar a capa e os textos antecipadamente, eles me mandaram embora, aos gritos: – “Da próxima vez que falar em tortura vai experimentar.”

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POLITIKA

Não experimentei. E guardo até hoje essa capa-manchete do POLITIKA denunciando a tortura como uma vingança pelos companheiros torturados e um diploma que eu me dei a mim mesmo.

O plantão de resistência do POLITIKA foi substituído a partir de 1974 pela bravura e generosidade publica de Fernando Gasparian com o OPINIÃO e Raimundo Pereira com o MOVIMENTO,ambos com recursos e equipes de jornalistas bem maiores do que o nosso pobre e valente POLITIKA, comandado por mim, Philomena Gebran e Oliveira Bastos. A história só acontece quando cada um cumpre sua tarefa.

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