A derrota do neoliberalismo

Carlos Chagas

Vale mergulhar um pouco mais fundo nas imagens que assustaram o Brasil, dias atrás, aliás, ainda não desaparecidas de nossas telinhas, mesmo  tendo passado o mais agudo das manifestações e protestos.   Por que o povo foi para as ruas, em especial os jovens, quase todos pacificamente, apesar das depredações, queima de carros, incêndios,  invasão de lojas comerciais e destruição de patrimônio público e privado, perpetrados por minorias de vândalos.

Qual a razão de multidões de jovens irem para as ruas, enfrentando a polícia e atropelando  tudo o que encontram pela frente?  Tornando difícil, às vezes quase  impossível a vida do cidadão comum, não apenas no Rio e São Paulo,  mas em montes de cidades.  Por que?

É preciso  notar que o protesto vem do povo,  começando pelos jovens, em especial da classe média, insurgidos contra a má qualidade dos serviços públicos, contra a corrupção e contra a exclusão deles nas decisões nacionais, estaduais e municipais.

Não dá  mais para dizer que essa monumental  revolta é outra solerte manobra do comunismo ateu e malvado. O comunismo acabou. Saiu pelo ralo.  A causa do que vai ocorrendo repousa  precisamente no extremo  oposto: trata-se do resultado do modelo neoliberal que exclui as massas e privilegia as elites. Da consequência de um pérfido  quadro  econômico e político que funciona para  as elites e os ricos, relegando  os demais à desimportância  e ao abandono.

É bom não esquecer: sempre que se registra uma crise econômica nas nações neoliberais, a receita é a mesma, seja na França ou na Grécia, em Portugal ou na Espanha: medidas de contenção anunciadas para reduzir salários, cortar gastos públicos,  demitir nas repartições e nas fábricas, aumentar impostos e taxas.  Esse é o perigo que nos ronda, porque sem dúvida os protestos e  manifestações dizem respeito às dificuldades porque passa a população.  Parece bom tomar cuidado

Fica evidente não se poder concordar com a violência.   Jamais justificá-la. Mas explicá-la, é possível.  Gente largada ao embuste da livre concorrência, explorados pelos mais fortes,   tiveram como primeira opção emigrar para regiões e cidades  mais  ricas, para  encontrar emprego, trabalho e   meio de sobrevivência, bem como transportes, educação, saúde e segurança públicas.   Invadiram as ruas.

Preparem-se os neoliberais. Os protestos não demoram a atingi-los diretamente. Fica impossível  empurrar por mais tempo com a barriga a  divisão do país  entre inferno e paraíso, entre  cidadãos de primeira e de segunda classe. Segunda?   Última classe, diria o bom senso.

Como refrear a  multidão  de jovens sem esperança, também  de homens feitos e até de idosos,  relegados à situação  secundária  em pleno século XXI?  Estabelecendo a ditadura, corolário mais do que certo do  neoliberalismo em agonia? Não   vai dar, à   medida em que os reclamos  se multiplicam  e a riqueza se acumula. Explodirá tudo.

Difícil não trazer esse raciocínio para o Brasil. Hoje, 40  milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com a metade desse  obsceno salário mínimo que querem elevar para 540 reais. Apesar do Bolsa-Família.   Os bancos lucram bilhões a cada trimestre, enquanto cai o poder aquisitivo dos salários. Isso para quem consegue mantê-los, porque, apesar da propaganda oficial, o desemprego continua presente.   São 15 milhões de desempregados em todo  o  país, ou seja, gente que já  trabalhou com dignidade e hoje vive de biscates, ou, no reverso da medalha,  jovens que todos os anos gostariam de entrar  no mercado sem nunca ter trabalhado.

Alguns ingênuos imaginam que o assistencialismo resolve a questão, mas ele  só faz aumentar as diferenças de classe. É crueldade afirmar que a livre competição resolverá tudo, que um determinado cidadão era pobre e agora ficou rico. São exemplos da exceção,  jamais justificando a regra de que, para cada um que obtém sucesso, milhões  continuam de mãos abanando.

Seria bom o governo Dilma olhar em volta. O rastilho pegou e não será a polícia  que vai  apagá-lo. Ainda que consiga,   aqui e ali, reacenderá   maior   e mais forte pouco depois.

A globalização  tem, pelo menos, esse mérito: informa em tempo real ao mundo que a saída deixada às massas encontra-se na rebelião. Os que nada tem a perder já eram maioria, só que agora estão  adquirindo consciência, não só de suas perdas, mas da capacidade de recuperá-las através do grito de “basta”, “chega”, “não dá mais para continuar”.

Não devemos descrer da possibilidade de reconstrução.  O passado não está aí para que o  neguemos, senão para que o integremos. O passado é o nosso maior tesouro, na medida em que   não  nos dirá o que fazer,  mas precisamente o contrário. O passado  nos dirá sempre o que evitar.

Evitar,   por exemplo, salvadores da pátria que de tempos em tempos aparecem como detentores das verdades absolutas, donos de todas a soluções e proprietários de todas as promessas.

 

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7 thoughts on “A derrota do neoliberalismo

  1. Esse é o Carlos Chagas que admiro, da mesma estirpe do nosso Hélio Fernandes. Não me vá amanhã “assoprar”. Sei que a verdade às vezes dita nos expõe perante a elite dominante. Porém, vivemos um momento ímpar que merece nossa análise para que não seja em vão toda essa energia exposta às ruas.
    Alteraram nossa lei maior num momento em que a sociedade civil encontrava-se acuada, fragilizada, desorientada e desamparada. Isso se deu após o naufrágio do socialismo real. As barreiras aos avanços do capitalismo foram extintas. Instauraram-se o neoliberalismo sem qualquer resistência da sociedade civil. A relação de forças entre o capital e o trabalho sofreu um desequilíbrio de proporções ainda não percebida.
    Assim como a crise de 2008 foi um basta a volúpia do capital, já que este se mostrava autofágico, o momento atual, com essa manifestação fantástica da classe média vilipendiada, é o reequilíbrio de forças. Agora, de fato, é a hora de se rever a Constituição, pois a sociedade está viva e quer dar sua contribuição, retirando dela as alterações feita a sua revelia e introduzindo novas que estejam mais condizentes com a realidade atual.
    Um abraço de admiração e reconhecimento.
    Marcilio

  2. GOVERNO JOÃO GOULART

    Parlamentarismo
    – Chefe de Estado: Presidente

    – Chefe de Governo: Primeiro-ministro:
    — Tancredo Neves – set-1961/jul-1962
    — Francisco Brochado da Rocha
    ————————– jul-1962/set-1962
    – Hermes Lima —— set/1962-jan/1963

    Presidencialismo: jan-1963/mar-1964
    Chefe de Estado e Chefe de Governo:
    —————–Presidente João Goulart

    ————————————————–
    Gabinete Tancredo Neves –
    AERONÁUTICA – Clóvis Travassos;
    AGRICULTURA – Armando Monteiro Filho;
    CASA CIVIL – Hermes Lima;
    CASA MILITAR – Amaury Kruel;
    EDUCAÇÃO – Oliveira Brito;
    EXTERIOR – Santhiago Dantas;
    FAZENDA – Walter Moreira Salles;
    GUERRA – João Segadas Viana;
    IND E COMÉRCIO – Ulisses Guimarães;
    JUSTIÇA – Alfredo Nasser;
    MARINHA – Ângelo Nolasco;
    MINAS E ENERGIA – Gabriel Passos;
    SAÚDE – Estácio Souto Maior;
    TRABALHO – Franco Montoro;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Virgílio Távora.

    Gabinete Francisco Brochado da Rocha
    ——————————— (jul-set/1962)
    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho;
    AGRICULTURA – Renato Costa Lima;
    CASA CIVIL – Hermes Lima;
    CASA MILITAR – Aurèlio de Lira Tavares;
    EDUCAÇÃO E CULTURA – Roberto Tavares de Lira ;
    EXTERIOR – Afonso Arinos;
    FAZENDA – Walter Moreira Salles;
    GUERRA – Machado Lopes e Nelson de Melo;
    IND E COMÉRCIO – José Ermírio de Morais;
    JUSTIÇA – Cândido de Oliveira Neto;
    MARINHA – Pedro Paulo de Araújo Suzano;
    MINAS E ENERGIA – João Mangabeira;
    SAÚDE – Manoel Cordeiro Vilaça
    TRABALHO – Hermes Lima;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Hélio de Almeida.

    Gabinete Hermes Lima – set/1962-jan/1963
    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho;
    AGRICULTURA – Renato Costa Lima;
    CASA CIVIL – Amaury Kruel, Albino, Assis Brasil;
    CASA MILITAR – Aurério de Lira Tavaes;
    EDUCAÇÃO E CULTURA – Darcy Ribeiro;
    EXTERIOR – Hermes Lima;
    FAZENDA – Miguel Calmon;
    GUERRA – Amauri Kruel;
    IND E COMÉRCIO – Otávio Dias Carneiro;
    JUSTIÇA – João Mangabeira;
    MARINHA – Pedro Paulo de Araújo Suzano;
    MINAS E ENERGIA – Eliezer Batista da Silva;
    SAÚDE – Elizeu Paglooli;
    TRABALHO – Hermes Lima;
    VIAÇÃO e O. PÚBLICAS – Hélio de Almeida;
    SEM PASTA – Celso Furtado.

    Presidencialismo: jan-1963/mar-1964
    Chefe de Estado e Chefe de Governo:
    —————–Presidente João Goulart

    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho e
    Anízio Botelho;
    AGRICULTURA – José Ermírio de Morais e
    Oswaldo Lima Filho;
    CASA CIVIL – Evandro Lins e Silva e
    Darcy Ribeiro;
    CASA MILITAR – Argemiro de Assis Brasil;
    EDUCAÇÃO – Teotônio Monteiro de Barros,
    Paulo de Tarso Santos e Júlio Tambaqui;
    EXTERIOR – João Augusto de Araújo Castro,
    Evandro Lins e Silva e Araújo Castro(bis);
    FAZENDA – Carvalho Pinto e Ney Galvão;
    GUERRA – Amauri Kruel e Jair Dantas Ribeiro;
    IND E COMÉRCIO – Antôni Balbino;
    JUSTIÇA – Abelardo Jurema;
    MARINHA – Paulo Bozísio e Sílvio Mota;
    MINAS E ENERGIA – Eliezer Batista da Silva e
    Oliveira Brito;
    SAÚDE – Paulo Pinheiro Chagas e Wilson Fadul;
    TRABALHO – Almino Afonso e Amaury Silva;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Hélio de Almeida
    e Expedito Machado Pontes;
    *Min Extraordinário para Assuntos de
    Desenvolvimento Econômico
    – CELSO FURTADO;
    *Min Extraordinário para a Reforma
    Administrativa – AMARAL PEIXOTO.

  3. E o autor pergunta: ” como refrear a multidão de jovens sem esperança…”. Estaria se referindo a esses jovens que saem das universidades aos borbotões e não têm como colocar em prática os “canudos” conquistados? Pois é o que se vê pelo “interiorzão”, onde proliferam cursos superiores a custos astronômicos. Se for…que bom viver.

  4. A religião e ideologia sempre atrai adeptos. Principalmente os frágeis emocionais e culturais.
    Basta citar os pecadinhos estabelecidos e nomeados por suas falsas-moral, e a multidão se encanta.
    Neo-liberalismo, mais um pecadinho.

  5. Carlos Chagas, saudações
    Você escreveu para dizer que seis é igual a meia dúzia … que a água molha … que o fogo queima.
    “A derrota do neoliberalismo” … E qual “ismo” deu certo? A procura do ser humano por um sistema de abrangência internacional para seu desenvolvimento social … ela, em si, já revela-se uma busca pelo impossível. Existem países cujos povos “vivem felizes com o que têm”. Países como o Uruguai, como vimos nesta sexta feira na TV; localidades como “Varre E Sai”, cidade fluminense fronteiriça com o estado do Espírito Santo, onde sequer existe Delegacia Policial. Eles têm dificuldades? Claro! Mas convivem uns com ou outros sem pensar em roubos, em quadrilhas, drogas, mortes, etc. Os habitantes de Varre e Sai raramente sofrem infartos e drogas pesadas como Prozac, Rivotril, Frontal e outras não são conseguem ser vendidas lá. Então …. são felizes! Ninguém morre de fome ou sede, lá. Há moradias para todos. Nem no Uruguai. Nem no Vietnã. Qual o “ismo” destes lugares? “Humanismo”, seria a palavra?

  6. É o oposto, é a falência de um estado de bem estar social antes de ficar pronto. A carga tributária é enorme, o estado, gigantesco, não cabe no PIB do país.

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