A desilusão programática

João Gualberto Jr.

Começo com um pedido de paciência ao leitor e um alerta útil para quem não tiver mais saco e interesse: esta coluna também é dedicada a Marina Silva e à decisão dela que deixou em suspenso quem lida direta ou indiretamente, em todo o país, com os arranjos pré-eleitorais. Se se criou um vão entre os pés e o chão, elevaram-se aqueles ou desceu este. Aposto mais na última hipótese, o que não surpreende.

Quem não quiser contato com novo voto pessimista a respeito do trato da coisa pública, melhor é buscar outra forma de investir o próprio tempo, commodity que anda escassa. Marina fez um movimento ousado, daqueles temperados mais pelo fígado do que pelo coração – aliás, no sábado, o fígado foi o órgão mais reverenciado nos comentários sobre a decisão da líder acreana. Em nome de um ataque, sacrificou a rainha e desguarneceu o rei: foi algo mais ou menos assim.

A respeito do encaminhamento do jogo, já se enalteceu demais a coragem dela e o xeque de Eduardo Campos, enumeraram-se as rugas acumuladas em tucanos e petistas e comemorou-se a aliança como promessa de mais emoção prematura para o cenário. Numa época em que se busca entretenimento “full time”, a futebolização eleitoral parece um caminho sem volta. E nós amamos muito isso! Mas futurologias de urna não são o objeto aqui.

Na semana passada, tratou-se neste espaço de novos rótulos que envolvem ultrapassadas práticas. O tema se repete e há de ser notado nos próximos 12 meses e além. Colocando os pingos nas metáforas, o rei do tabuleiro é algo maior, patrimônio coletivo, bem frágil e ainda mais fragilizado que demanda vigília. Já a rainha é a biografia da própria Marina, a pupila de Chico Mendes. Ressalvo que estas não são linhas de desilusão porque só se desilude quem se permite iludir.

INDEFINIÇÃO

Ao se antever, na semana passada, a frustração da Rede nas tramas da Justiça Eleitoral, Marina foi bastante criticada por tentar montar um partido, de um ano para outro, para poder abrigar seu pleito presidencial: ninguém que recebe 20 milhões de votos no Brasil pode ser tachado de ingênuo. E, na sexta, quando veio a público informar que precisava de mais um dia de prazo para decidir seu futuro, a ambientalista confessou estar dividida. De um lado, aliados pediam que ela mantivesse sua candidatura ao Planalto, apesar da frustração do registro da sigla, fiando-se no espólio e na simbologia bonita que ela congrega. Do outro, companheiros entendiam que, se ela se filiasse de roldão a um partido, jogaria fora uma história de posições firmes que sempre buscaram colocar as ideias à frente dos homens.

Pois, ao se abraçar a Campos, desagradou a uns e a outros. Ou alguém acredita que o pernambucano vai abdicar de sua candidatura como abdicou de um ministério bilionário, de diversos cargos palacianos e das benesses típicas da base governista? Outro senão: sendo Marina vice do comandante nordestino – governador que tinha só um prefeito de oposição em seu Estado, cujo mandato acabou abreviado pelo TRE local –, imaginemos a chapa eleita. Vice é vice e só ocupa o trono nas raras ocasiões em que estiver vago.

Mais um: aquele discurso de sábado sobre aliança entre o PSB e a Rede é balela, afinal, não se alia a um partido que não existe. Os sonháticos talvez tenham acordado de uma esperança “programática”. (transcrito de O Tempo)

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