A desmoralização da política brasileira é inacreditável. A juventude está contaminada. Hoje, o normal é ser corrupto. E la nave va, fellinianamente.

Carlos Newton

A política brasileira chegou a um ponto tal de desmoralização que chega a ser inacreditável. A presidente Dilma Rousseff, na cerimônia de posse de Aldo Rebelo, deveria ter mostrado maior recato. Qualificar de “excepcional” o trabalho do ex-ministro Orlando Silva à frente do Ministério do Esporte é uma desfaçatez inconcebível para quem tenha um mínimo de respeito às pessoas de bem deste país.

Se o trabalho dele era “excepcional”, porque teve de pedir demissão? Esta pergunta já foi feita por Carlos Chagas aqui no Blog e ficou sem resposta. Aliás, jamais será respondida.

E na posse a presidente Dilma defendeu não somente Orlando Silva, mas o próprio PCdoB. Afirmou que a troca de comando no Esporte não estava em seus planos, mas, por causa da situação criada, teve de fazê-lo. Sobre o ex-ministro, fez questão de declarar a inocência dele, embora esteja sendo processado nos dois mais importantes tribunais do País – no Supremo e no Superior Tribunal de Justiça.

“Ele ganha plena liberdade para restituir a verdade e preservar sua biografia. Orlando Silva não perde meu respeito. Desejo-lhe muito sucesso em sua cruzada pela verdade. Perco um colaborador, mas preservo o apoio de um partido cuja presença no meu governo considero fundamental. O PCdoB tem sido, nos últimos nove anos, um parceiro leal e relevante do nosso projeto nacional de governo e de desenvolvimento”, teve a coragem de afirmar, ao vivo e a cores.

O novo ministro Aldo Rebelo também não fez por menos. Disse ele, dirigindo-se diretamente a seu antecessor: “Talvez mais que inocente, talvez o senhor seja vítima das consequências da luta social e política”.

Só faltou Orlando Silva sair aclamado nos braços da multidão, quando deveria estar cabisbaixo, envergonhado de ter desviado recursos públicos para beneficiar seu partido e sua própria conta bancária. E ainda se dizem comunistas. Que exemplo estão passando à nação?

Traduzindo: os autoproclamados partidos de esquerda, como o PCdoB e o PT, praticam a corrupção sob o argumento de que precisam se fortalecer para enfrentar a direita. Assim, para eles, corrupção não é crime, desde que parte do dinheiro vá para o Caixa 2 do partido.

No dicionário dessa estranha esquerda, Caixa 2 não é nada irregular, porque os partidos de direita fazem exatamente a mesma coisa. E é verdade, não há dúvida. Praticamente todos os partidos agem exatamente assim, e as possíveis exceções apenas confirmam a regra geral.

É por isso que as pessoas de bem deste país estão perplexas. Não têm um partido em que confiar. Na esquerda ou na direita, é tudo igual. Citem um grande líder carismático e honesto, no qual possamos confiar?

Segunda-feira, no metrô do Rio, encontrei um exemplar dessa raríssima espécie política – o ex-governador, ex-deputado e ex-ministro Waldir Pires. Tantos anos na política, tantos cargos importantes, no entanto Waldir Pires não ficou rico. Como compará-lo a jovens políticos como Sergio Cabral e Agnelo Queiroz, para citar dois governadores que eram de classe média baixa e enriqueceram meteoricamente?

A juventude brasileira, desgraçadamente, já está contaminada. A imensa maioria acha normal ser corrupto. Por isso, praticamente não se vê indignação contra o faz-de-conta que caracteriza a política brasileira. A UNE está cooptada, está tudo dominado. O idealismo dos anos 60, seja de direita ou de esquerda, não existe mais. Como dizia Erico Veríssimo, o resto é silêncio.

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