A economia brasileira reage, apesar da crise

Wagner Pires

Em meio a turbulências provocadas pela inflação alta, descontrole cambial, aumento da taxa básica de juros, aumento do endividamento das famílias e a política de concessões que ainda não se deslanchou, a economia brasileira mostra reação e o PIB cresce 1,5% no segundo trimestre, conforme divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De 0,6% do primeiro trimestre a 1,5% no segundo, o Brasil superou as expectativas e o crescimento apresentado por países desenvolvidos como Estados Unidos (0,6%), Alemanha (0,7%), França (0,5%), Itália (-0,1%), Japão (0,6%), Portugal (1,1%), Coréia do Sul (1,1%) e Reino Unido (0,6%). O México, país muito comparado ao Brasil por ser emergente, mas, ter aberto a sua economia diferentemente do nosso país encolheu (-0,7%).

Em valores correntes, o PIB no segundo trimestre alcançou R$ 1,202 trilhão, sendo R$ 1,025 trilhão referente ao valor adicionado a preços básicos e R$ 177,0 bilhões aos impostos sobre produtos líquidos de subsídios. Comparando-se, ainda, ao trimestre imediatamente anterior, o setor da economia que mais se destacou foi a agropecuária com crescimento de 3,9%. Depois a indústria, com aumento de 2,0%, e, em seguida os serviços que registraram expansão de 0,8%.

POUCA POUPANÇA

Como era de se esperar o Brasil continua com uma baixa taxa de poupança que são os recursos que o país tem disponível para proporcionar investimento, sem a necessidade de tomar empréstimos externos. O nosso nível de poupança no último trimestre, segundo o IBGE, foi de 16,6%. Baixíssimo se comparado com outros países mais desenvolvidos. O Brasil precisaria de uma poupança interna em torno de 30% para alavancar o desenvolvimento estrutural sustentável. Por enquanto a nossa poupança subsidia apenas a construção civil.

Outro dado relevante divulgado pelo Instituto refere-se ao investimento. O Brasil investiu à taxa de 18,6% do seu PIB no segundo trimestre. Comparado com o mesmo período do ano anterior (17,9%) apresentou pequena melhora, mas, ainda, insuficiente para fazer o país avançar à taxa de 4,0% ao ano; o que demandaria investimentos da ordem de 21% do PIB.

Mas, é bem provável que as atuais expectativas para o crescimento brasileiro, hoje em torno de 2,1% e 2,4%, sejam superadas e terminem o ano por volta dos 3%, a depender da continuação desta retomada da economia nacional (do investimento público e privado) em meio a tantas turbulências do mercado e ao baixo crescimento da demanda, que variou apenas 0,3% no período, sinalizando o esgotamento do mercado consumidor afogado em dívidas com sistema financeiro e o mercado de crédito. E dependemos dos investimentos – público e privado – para o país crescer.

PIB DO SEMESTRE

O PIB encerrou o primeiro semestre da seguinte forma: I – Agropecuária: R$ 134.077; II – Indústria: R$ 491.061; III – Serviços: R$ 1.340.300; IV – Valor Adicionado (I+II+III): R$ 1.965.438; V – Impostos sobre produtos: R$ 346.877; VI – PIB (IV+V): R$ 2.312.316

Sob a ótica da geração de riquezas está assim distribuída a nossa economia: Agropecuária (7%), Indústria (25%) e Serviços (68%).

É, ainda, pequena a participação industrial na economia. E a falta de uma melhor integração nacional por meio de vias férreas – que baixam o custo com o transporte – inibe qualquer tentativa de industrialização de regiões como o norte, nordeste e centro-oeste. Como não há motivo para a industrialização dessas regiões por falta de transporte férreo barato, também não há infraestrutura para movimentação e estocagem de cargas como portos secos e centros de distribuição; e, junto deles o desenvolvimento de pólos produtores e cidades bem estruturadas com bom índice de IDH. Mais de quatro mil quilômetros, em certos casos, separam essas regiões dos portos nacionais e dos grandes centros consumidores da região sul e sudeste, inviabilizando qualquer tentativa de investimento dos empresários em produção de manufaturados.

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5 thoughts on “A economia brasileira reage, apesar da crise

  1. Excelente análise do Sr. Wagner Pires. Nossa Presidenta Dilma Rousseff corajosamente, com mãos firmes levou o cavalo até a beira do lago mas não conseguiu fazê-lo beber. Nos primeiros 2 anos, baixou os Juros Reais até Zero, Selic de 7,25%aa é praticamente a Inflação, subsidia Combustíveis, fez aleatoriamente redução de Impostos, baixou a Energia Elétrica em 20% residencial e 30% Industrial e contava com boa desvalorização do Real, como está acontecendo, para fazer decolar a Economia. Tanto fez que criou INSTABILIDADE, Não decolou. Faltou consulta com o Pessoal da FIESP para saber porque a Lucratividade das Empresas caiu quase 40% nesses 2 anos. Como despertar os “animal spirits” dos Empresários para INVESTIR, com Lucratividade caindo. Agora, mudou a estratégia, ouviu o Bom-Senso, está dialogando com o Empresariado como se deve, deixando as coisas fluírem, e acho que agora o Cavalo vai beber, conforme os números apontados acima pelo Sr. Wagner Pires. Abrs.

  2. Sr. Bortolotto, a queda da lucratividade das empresas tem a ver com a política salarial, pois os reajustes que o governo tem concedido suplantam a inflação. Quando o mercado de trabalho está aquecido, como estamos vendo hoje, há uma diminuição dos espaços para a negociação salarial, tendendo a manter os pisos em patamares maiores, aumentando o custo da produção. Tem a ver, também, com a pressão tributária, mesmo com as desonerações pontuais que o governo andou adotando.

    O chamado custo-Brasil, que se refere, também, ao transporte, movimentação e armazenagem de cargas, afeta da mesma forma a microeconomia.

    É a falta de políticas públicas que ataquem e resolvam estes gargalos, que influem tanto na macro quanto na microeconomia que me faz criticar o governo atual.

    Tenho para mim que, após o dólar se estabilizar em um patamar de cotação mais realista, haverá espaço para o governo promover uma reforma tributária ampla, geral e irrestrita. Lembrando que a diminuição da carga tributária do ICMS corresponde, necessariamente, a um aumento do poder de consumo do Brasileiro. Já que este tributo incide indiretamente no bolso do cidadão, isto é, é
    suportado por ele.

    Isso quer dizer que: se a economia encontrou o seu limite de demanda, como pudemos observar pelos dados divulgados pelo IBGE (variação de apenas 0,3%), há espaço para aumentá-la mediante uma reforma tributária, além das reposições salariais reais em todo início de ano. É de se concluir que, com a diminuição da concorrência externa e o aquecimento do mercado de consumo, a produtividade da nossa indústria poderá sofrer sensível aumento.

    Em relação à lucratividade, repito, o governo tem de enxugar o custo-Brasil.

    O esgotamento do mercado consumidor é a maior preocupação da nossa indústria neste momento. Veja os dados do IBGE – houve formação de estoques nas indústrias(R$26,7 bilhões) -, que deverão ser vendidos antes da retomada de produção. O que o governo vai fazer? Só abaixar o IPI novamente?

    Este governo não pode ficar parado apenas esperando que a indústria reaja sabendo da existência de todos estes gargalos em nossa economia.

    É esta inércia, esta apatia do governo federal que me irrita e preocupa.

  3. Esse PIB de 1,5% – que não é essas coisas todas – e, não se pode dizer que o país voltou a crescer, deve-se, exclusivamente, ao agronegócio( a colheita que se processa nos meses de junho/julho ) daí,é bom os petistas que comentam neste blog aguardarem os próximos trimestres.

  4. Certo César.

    Vamos aguardar o que o governo fará para melhorar as variáveis que ajudam no crescimento da economia. Se é que fará. Por enquanto só o controle do câmbio e o aumento da SELIC, que não colaboram, propriamente, com o crescimento da dela. Ao contrário, são medidas de estabilização econômica.

    A crise continua.

  5. Brasil está preparado para enfrentar oscilações do mercado financeiro, diz Tombini

    Brasília – O Brasil está preparado para enfrentar as oscilações do mercado financeiro global, geradas pela decisão dos Estados Unidos de reduzir estímulos monetários. A avaliação foi feita hoje (31) pelo presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, em discurso no 6º Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais, organizado pela BM&F Bovespa, em Campos do Jordão, São Paulo.

    Tombini disse que a economia mundial passa por um processo de transição, com a recuperação econômica dos Estados Unidos. “Diga-se de passagem, transição positiva, pois significa que a recuperação da maior economia do mundo está ganhando força e isso representará maior crescimento da economia e do comércio global à frente.”

    Apesar das características positivas da transição, Tombini destacou que o processo de normalização das condições monetárias nas economias avançadas gera volatilidade (fortes oscilações), principalmente nos mercados de economias emergentes, como o Brasil. “As economias emergentes são as mais impactadas por essa volatilidade. Sempre foi assim. E não é diferente no caso da economia brasileira.”

    “Os mercados se anteciparam aos fatos e, na ausência de informações claras e precisas de como se dará esse processo de retirada dos estímulos monetários, os preços dos ativos financeiros estão mais voláteis, oscilando ao sabor de cada dado sobre o ritmo de atividade da economia norte-americana”, ressaltou Tombini.

    Segundo o presidente do Banco Central, a estratégia da instituição é clara: “Usaremos nosso amplo rol de instrumentos para reduzir a volatilidade excessiva e mitigar potenciais riscos à estabilidade financeira.” De acordo com Tombini, essa estratégia será usada o tempo que for necessário, em todo o período de transição “entre o mundo atual e o mundo à frente, de condições monetárias normalizadas e maior crescimento da economia e do comércio global”.

    Desde o fim de maio, o sistema financeiro global enfrenta turbulências por causa da perspectiva de que o Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, reduza os estímulos monetários para a maior economia do planeta. Com menos dólares em circulação, a cotação da moeda norte-americana fica mais alta em todo o mundo.

    Tombini disse que o Brasil está preparado para enfrentar a volatilidade porque o sistema financeiro brasileiro está “sólido, com elevados níveis de capital, liquidez e provisões”.

    Desde que a volatilidade aumentou, o país manteve fluxo positivo tanto de investimento estrangeiro direto (que vai para o setor produtivo da economia) quanto de portifólio (ações e títulos de renda fixa), “inclusive com o aumento da participação de investidores estrangeiros na dívida mobiliária pública interna”.

    “É importante ressaltar que eventuais saídas [de investimento estrangeiros] pontuais são naturais, não representando mudança de tendência, nem alterando as condições de financiamento do país e o acesso de empresas brasileiras ao mercado financeiro internacional”, destacou Tombini. Ele lembrou que, nos últimos dois anos, o país continuou a ampliar o “colchão de segurança e de liquidez”. “Adicionamos quase US$ 90 bilhões às nossas reservas internacionais, que hoje ultrapassam US$ 370 bilhões.”

    Ele explicou que esse “colchão” permite ao Banco Central, no atual “período de transição, marcado por níveis mais elevados de volatilidade e pelo aumento da aversão ao risco, ofertar proteção (hedge) aos agentes econômicos e, se necessário, liquidez aos diversos segmentos do mercado”.

    Tombini disse que, na semana passada, o BC anunciou o programa de leilões diários de venda de dólares, pelo menos até o final do ano. “Esse programa, além de conferir previsibilidade, ofertará aos agentes econômicos proteção cambial superior a US$100 bilhões, se considerarmos o montante de proteção que já foi disponibilizado”.

    (transcrito da Agência Brasil)

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