A economia na encruzilhada: juros ou crescimento

Elias Murad
Eu defendo o ponto de vista de que o Banco Central deveria manter a Selic, a taxa básica de juros, em 7,25% até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff. Os economistas que defendem uma alta mais forte da Selic e veem uma séria inflação de demanda ameaçando a economia brasileira estão fazendo um diagnóstico errado das causas da inflação e estão a prescrever um remédio que resultará no inverso do que pretendem, pois o aumento dos juros, se ocorrer, como demonstrarei, provocará um aumento de inflação.A inflação pode ser produzida por pouca oferta ou muita demanda. Se fosse devido à grande demanda, o aumento dos juros, apesar de nunca ser o melhor remédio, pelo menos poderia funcionar.O que aconteceu é que, ao crescer 0,9% em 2012, a economia brasileira claramente ficou muito abaixo do seu potencial, que é estimado em cerca de 3% mesmo pelos economistas mais conservadores. Ou seja, produziu-se 2,1% menos em relação ao potencial do país, o que resultou na colocação, no mercado, de muito menos produtos.O PIB, a soma de todas as riquezas produzidas no país, no ano passado, chegou a R$ 4,403 trilhões; 2,1% de R$ 4.403 trilhões = R$ 96,4 bilhões. Ou seja, pelo fato de o PIB não ter alcançado seu potencial natural, deixou-se de ofertar (colocar no mercado) quase R$ 100 bilhões em produtos.
MENOR OFERTA
A menor oferta, pela lei da oferta e da procura, só poderia resultar em maior inflação, como de fato ocorreu.Portanto, a inflação atual resulta da menor oferta de produtos, e não, como tem sido defendido pela grande maioria dos economistas, da maior demanda.Com o aumento dos juros (se, infelizmente, acontecer) e a maior intensidade de aplicações no mercado financeiro daí resultante e consequente menor investimento na produção, o PIB continuará a crescer menos que cresceria com a sua manutenção. O que diminuirá mais ainda a oferta de produtos sendo colocados no mercado, e, consequentemente, os preços subirão.Aí, a “bola de neve” do aumento de juros continuará até que atinjamos uma recessão. O fato de a inflação de serviços estar muito alta, em 8,7% no acumulado de 12 meses até fevereiro, é uma decorrência de que os preços industriais, ao contrário dos serviços, são contidos pela competição internacional. Portanto, também nesse caso (serviços), o aumento dos juros não é solução.Por outro lado, tem sido mostrado que a difusão da inflação é alta (mais de 70% dos produtos têm aumento de preços), mas, convenientemente, esquece-se de analisar a intensidade dos aumentos, produto a produto. Que, em grande parte, é muito pequena. Exemplificando: se ocorrem aumentos de 0,00001% ou de 1% em 70% dos produtos, o índice de difusão será o mesmo para os dois casos, ou seja, 70%. No caso presente, em que os aumentos de quase todos os produtos são muito pequenos, o índice de difusão, apesar de aparentemente alto, não representa nada de concreto.Estamos pois, numa encruzilhada: manutenção da Selic ou recessão. (Transcrito do jornal O Tempo)
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11 thoughts on “A economia na encruzilhada: juros ou crescimento

  1. Uma pena que o economista não deu a solução para fazer o PIB crescer só declarou que ele não cresceu, isso todo mundo sabe até eu que sou leigo. Agora qual é o remédio ou quais são os remédios e suas respectivas dosagens? Isso que precisam explicar em linguagem clara para os meros mortais entendam e se posicionem, ninguém que o dragão da inflação volte novamente e nem podemos deixar qualquer projeto de poder subverter o que precisa ser feito. Na reeleição do FHC tínhamos, se me lembro bem, u clima parecido e o acusaram de manipular os números para encobrir a real situação do país. Agora a história parece se repetir com personagens diferentes. O povo precisa de um posicionamento dos estudiosos sobre o tema de forma clara. Afinal estão estudando para algum fim não é, e eu que este fim justifica um texto mais claro e direto.

  2. Todos os números indicam que o Brasil vive inflação de crescente demanda, empurrada pelo grupo alimentação que corresponde a 60% do índice inflacionário. Falta ao governo coragem para instituir o imposto sobre exportação de commodities, diminuir o lucro dos exportadores e dar a vantagem quantitativa ao mercado interno do País ao deixar aqui mesmo, no Brasil, boa parte dessas commodities que são insumos para a produção de outros alimentos como óleo, carne, leite e ovos, por exemplo.

    O IBGE divulga pesquisa referente às vendas no varejo – aquele que oferta à população os artigos de seu consumo. Segundo o Instituto, o mercado varejista cresceu 8,4% em 2012 quando comparado ao ano anterior.

    Houve uma pequena queda de (-0,5%) dos números em dezembro, mas, no montante anual o crescimento foi de 8,4 pontos percentuais, resultado dos seguintes aumentos:

    * combustíveis e lubrificantes: 6,8%;

    * hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo: 8,4%;

    * tecidos, vestuário e calçados: 3,4%;

    * móveis e eletrodomésticos: 12,3%;

    * artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria: 10,2%;

    * equip. e mat. para escritório, informática e comunicação: 6,9%;

    * livros, jornais, revistas e papelaria: 5,4%

    * outros artigos de uso pessoal e doméstico: 9,4%;

    * veículos e motos, partes e peças: 7,3%;

    * material de construção: 7,9%.

    O segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou expansão no volume de vendas em 2012 de 8,4% em relação ao ano anterior, resultado que o levou a responder por 44,6% do índice de crescimento do comércio varejista, e fator de principal impacto. Este comportamento reflete, principalmente, o aumento do poder de compra da população decorrente da elevação da massa de salário da economia (obtida pela melhora da renda e do emprego).

    A massa de rendimento real habitual dos ocupados, no mesmo período de comparação, teve aumento de 6,5%, enquanto que o aumento dos preços na atividade medida pelo grupo alimentação no domicílio (aquele adquirido em hiper e supermercados) do IPCA, nos últimos 12 meses, foi de 10,0% contra a inflação média de 5,84%. O volume de vendas do setor supermercadista ampliou 8,0% enquanto que suas receitas nominais cresceram 9,5%.

    Todos os números, portanto, estão a indicar que a crescente atividade supermercadista é tocada pelo aumento da demanda, principalmente, do grupo alimentação e bebidas que responde por quase de 56% do índice inflacionário.

    É hora de o governo estudar melhor esses números e, ao verificar a nítida correlação entre os crescimentos da inflação e do setor supermercadista, reconhecer que nem a valorização cambial nem a queda da taxa de juros SELIC irão influir decisivamente no persistente aumento dos preços. Primeiro, porque a quantidade importada de produtos básicos (nos quais se inserem os alimentos) corresponde a apenas 15% das importações – impacto muito pequeno; segundo, porque a queda taxa SELIC não está diretamente relacionada a efetivos investimentos para aumento de produção.

    Restam, então, duas alternativas ao governo na tentativa de debelar o aumento geral de preços:
    1. Diminuir os seus próprios gastos. O que não será possível dada a intenção de promover maciço investimento público em obras de infraestrutura e logística; 2. Instituir o Imposto sobre a exportação de commodities.

    Esta última tem sido a indicação de especialistas, haja vista os produtos do agronegócio como o milho, soja e sorgo comporem a cadeia produtiva da carne, ovos, leite e derivados. Aumentando a oferta de grãos internamente, haverá impacto decrescente em todos os preços da cadeia produtiva destes artigos alimentícios. É função do imposto sobre exportação de commodities regular a quantidade de oferta de grãos no mercado interno.

    Para aqueles que dissessem que haveria um retrocesso nas exportações, o governo diria que o agronegócio responde por apenas 5% do PIB, enquanto a inflação afeta toda a economia e impede o Brasil de crescer. Não é preciso muito esforço comparativo, em 2012 a inflação corroeu 5,84% do PIB.

    A inflação é estimulada pela falta de investimento produtivo. Investimento este que caiu 1,2% de 2011 para 2012.

    O PIB no ano de 2012 acumulou crescimento de 0,9% em relação ao ano anterior e fechou em R$4,403 trilhões, diz o IBGE. O PIB per capta, que é definido como a divisão do valor corrente do PIB pela população residente no meio do ano, manteve-se praticamente constante – variação de 0,1% – em R$22.402,00 (vinte e dois mil, quatrocentos e dois reais) em valores correntes, isto é, sem descontar a inflação.

    A expansão do PIB resultou do aumento de 0,8% do Valor Adicionado a preços básicos e do crescimento de 1,6% dos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

    Sob a ótica da oferta, houve retração na agropecuária (-2,3%) e na indústria (-0,8%), enquanto que no setor de serviços houve expansão de (1,7%).

    Sob a ótica da demanda, o consumo das famílias cresceu pelo 9º ano consecutivo e variou em (3,1%), porém já em um menor ritmo quando comparado ao ano de 2011 quando o aumento do consumo foi de (4,1%). Comportamento favorecido pela elevação de 6,7% da massa salarial dos trabalhadores, em termos reais, e pelo acréscimo, em termos nominais, de 14,0% do saldo de operações de crédito das pessoas físicas junto ao sistema financeiro. Cresceu, também, a despesa de consumo da Administração Pública em 3,2%. Em compensação a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), nome “pomposo” para o investimento, apresentou queda de 4% – puxada pelo recuo da produção interna de máquinas e equipamentos – a queda na venda de caminhões e veículos pesados é um exemplo.

    O PIB conforme os Valores Adicionados (VA) das atividades, em valores correntes (R$milhões), ficou assim:

    I – Agropecuária: R$196.119
    II – Indústria:R$983.395
    III – Serviços:R$2.561.241
    IV – Valor Adicionado (I+II+III): R$3.740.755
    V – Impostos sobre produtos:R$661.782
    VI – PIB (IV+V): R$4.402.537

    Considerando o Valor Adicionado das atividades no ano, ou seja, em quanto essas atividades acrescentaram valores econômicos, ao PIB, a Agropecuária registrou R$ 196,1 bilhões, a Indústria R$ 983,4 bilhões e os Serviços R$ 2.561,2 bilhões. Segundo os números, a atividade econômica brasileira sob a ótica da oferta está assim distribuída: Agropecuária (5,2%), Indústria (26,3%) e Serviços (68,5%).

    É, ainda, pequena a participação industrial na economia. E a falta de uma melhor integração nacional por meio de vias férreas – que baixam o custo com o transporte – inibe qualquer tentativa de industrialização de regiões como o norte, nordeste e centro-oeste. Como não há motivo para a industrialização dessas regiões por falta de transporte férreo barato, também não há infraestrutura para movimentação e estocagem de cargas como portos secos e centros de distribuição; e, junto deles o desenvolvimento de pólos produtores e cidades bem estruturadas com bom índice de IDH. Mais de quatro mil quilômetros, em certos casos, separam essas regiões dos portos nacionais e dos grandes centros consumidores da região sul e sudeste, inviabilizando qualquer tentativa de investimento dos empresários em produção de manufaturados.

    O PIB conforme os componentes da demanda, em valores correntes (R$milhões), ficou assim:

    I – Despesa de consumo das famílias: R$2.744.452
    II – Despesa de consumo do governo: R$944.543
    III – Formação Bruta de Capital Fixo (investimento): R$798.695
    IV – Exportação de bens e serviços: R$552.843
    V – Importação de bens e serviços (-): R$615.765
    VI – Variação de estoque: (-)R$22.230
    VII – PIB (I+II+III+IV-V-VI): R$4.402.537

    Entre os componentes da demanda, a Despesa de Consumo das Famílias totalizou R$ 2.744,5 bilhões, a Despesa de Consumo da Administração Pública R$ 944,5 bilhões e a Formação Bruta de Capital Fixo R$ 798,7 bilhões. A Balança de Bens e Serviços ficou deficitária em R$ 62,9 bilhões e a Variação de Estoque foi negativa em R$ 22,2 bilhões. Segundo os números, os componentes do PIB sob a ótica da demanda estão assim divididos: consumo das famílias (62,3%), consumo da Administração Pública (21,5%), FBCF ou investimento (18,1%), e, a balança de bens e serviços, junto com a variação negativa de estoques (- 1,9%).

    A taxa de investimento de 18,1% do PIB foi inferior à taxa referente ao ano anterior (19,3%). A mesma coisa ocorreu com a taxa de poupança, que foi de 14,8% em 2012 (ante 17,2% no ano anterior).

    Poupança é o recurso que se tem disponível dentro do País para proporcionar investimento, sem a necessidade de tomar empréstimos externos. O nosso nível de poupança é baixíssimo se comparado com outros países mais desenvolvidos. Seria saudável uma poupança interna em torno de 30% para cobrir investimentos públicos e privados. Resultado é que continuaremos a acrescentar mais valores no estoque da dívida pública.

    Segundo os números do IBGE o déficit nominal público, ou Necessidade de Financiamento do Setor Público (NFSP), ficou em R$130,1 bilhões em 2012. O número difere do colimado pelo Banco Central que o divulgou em janeiro como sendo de R$108,9 bilhões (2,47% do PIB). Estes números já foram vistos aqui na TI.

    Conforme já divulgado na Tribuna da Imprensa, os investimentos (públicos e privados) anuais previstos para 2013 até 2016, por conta do orçamento, era da ordem de R$950 bilhões; correspondentes a 21,6% do PIB. Seria um acréscimo de 3,5% em relação ao que foi investido em 2012. E, era algo em torno desta taxa que circulava a expectativa de crescimento da economia por parte dos especialistas no início do ano.

    Por falta de investimento suficiente, hoje, a expectativa fica abaixo de 3%. O governo não está cumprindo o seu papel de fomentador a contento.

    E porque estamos centrando tudo em cima do investimento? Porque, não dá mais para crescer baseando-nos apenas no aumento do consumo das famílias. Esta fórmula chegou ao seu limite. Basta ver o que houve a partir de 2011 com o nosso PIB.

  3. Desculpem-me o erro. O grupo alimentação e bebidas, corresponde, verdadeiramente a 60% do índice inflacionário. E não a 56%.

    Apesar de disseminada,como dizem alguns economistas, o peso da inflação concentra-se nos alimentos.

  4. O nosso quase pleno emprego justifica o mantenimento de alta demanda. Se o articulista observar, verá que a demanda por parte das famílias cresceu 3,1% em 2012. A massa salarial cresceu 6,7% e a demanda por crédito 14%. O consumo da Administração Pública 3,2%, enquanto que o investimento recuou 4%!!!

    Conclusão: FALTA INVESTIMENTO PRODUTIVO PARA ACOMPANHAR A DEMANDA!!!

    Houve retração na agropecuária (-2,3%) e na indústria (-0,8%), enquanto que no setor de serviços houve expansão de (1,7%). Neste ponto o articulista tem razão, não dá para criar competição no setor de serviços importando cabeleireiras, por exemplo. Na indústria sim, estamos importando produtos para competir com a indústria nacional.

    É este o quadro.

  5. Simplificando tudo:

    1º) Ataque a inflação de demanda que se revela sobre os produtos alimentícios estabelecendo imposto de exportação sobre as commodities (grãos);

    2º) Retire da cesta básica os 19% de ICMS (imposto estadual);

    3º) Acelere os investimentos em infraestrutura. Principalmente em ferrovias e hidrovias, sem temer o que vai gastar – por enquanto. Lembrando que em macroeconomia o investimento que o governo fará se iguala à poupança. Se preciso for, lance mais títulos e aumente a dívida interna com esta finalidade, sem desvios. Porque o retorno será a poupança do governo que irá resgatar esta dívida.

    4º) Invista progressivamente na melhoria da estrutura educacional do País. Principalmente no ensino público.

    Está aí a fórmula que tirará o País da miséria e que os governos – presente e futuro – deveriam se debruçar.

  6. Seytrym,

    A inflação acumulada atá março/2013 foi de:[(1,0086 x 1,006 x 1,0047) – 1] x 100 = 1,94%. Segundo este número, poderemos fechar o ano com uma inflação acumulada de: [(1,0194)⁴ – 1] x 100 = 7,99%!

    Se a parte da inflação referente aos alimentos fosse debelada pelo governo, teríamos menos 60% desta inflação, ou: 1,94 x 0,4 = 0,78% de inflação acumulada nos três primeiros meses. E fecharíamos o ano com inflação de: [(1,0078)⁴ – 1] x 100 = 3,16%. Bem tranquilos e abaixo da meta central do BC que é de 4,5%.

    Veja só como essa visão de inflação disseminada é enganosa e como o articulista, neste ponto, acertou.

  7. Não Seytrym. Não aplico no Tesouro Direto. Mas, é uma boa. Tem um amigo meu que destina todo o recurso dele ao TD. Apliquei meu dinheiro em imóveis e poupança.

    Um pouquinho só. Mas, estou com 41 anos, e tenho mais 16 anos pela frente até me aposentar. Até lá, provavelmente destinarei algum recurso para o Tesouro Direto ou mesmo, mais imóveis. O que for melhor. Vou me debruçar sobre isto.

    Tesouro Direto é uma boa! Continue, pois, vale a pena! As aplicações são melhor feitas quando deixadas lá por, no mínimo, dois anos. Verifique todas as possibilidades, pois, dependendo da região, outras aplicações podem ser adicionadas à sua cesta de investimentos. Um exemplo é a valorização imobiliária que ocorre na sua cidade. A depender da sua disponibilidade financeira.

    Quanto a flutuações, não tenho acompanhado este mercado no último ano, não sei te informar a respeito. Irei verificar.

    Me parece que, a depender do título (LTN)e do tempo de aplicação, a rentabilidade nominal no TD pode chegar até a 41%!

    É uma boa!

    O importante é a população tomar consciência de que é importantíssimo para ela e para o país poupar algum recurso. Se toda a população economicamente ativa, que gira em torno de 100 milhões de pessoas, tivesse 10 mil reais em poupança, teríamos 30% do PIB em poupança. Recurso barato suficiente para o Brasil investir em infraestrutura de montão! E todos estariam ganhando com isso.

    Mas, a nossa realidade é triste… 14% do PIB em poupança é muito pouco.

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