A eleição de padre Gaito

Sebastião Nery

Em 1954, a Bahia fez uma aliança política do crioulo doido: PTB, UDN e comunistas, que naquela época, no País, viviam brigando como gato e cachorro: para governador Antonio Balbino (PSD na legenda do PTB, apoiado pela UDN e pelos comunistas), para senador Juracy Magalhães (UDN) e Lima Teixeira (PTB).

Getulio havia se matado em 24 de agosto, a eleição seria em 3 de outubro, e João Goulart, presidente nacional do PTB, já cogitado para vice-presidente de Juscelino, governador de Minas pelo PSD, veio à Bahia apoiar a chapa salada de frutas. Os candidatos foram ao interior fazer um comício juntos.

No comando do palanque, padre Gaito, um vigário brigão, inimigo furioso do PSD, cujo candidato a governador era Pedro Calmon, baiano ilustre, reitor da Universidade Federal do Rio e membro da Academia Brasileira de Letras.

***
BALBINO

Juracy pegou o microfone antes de o padre Gaito abrir o comício:

– Minha boa gente baiana! Meus amigos! Aqui, nesta noite, nesta praça, sobre todos nós, paira a alma de um homem que foi amigo de cada um dos candidatos e sobretudo do povo brasileiro, a quem deu sua vida e sua morte. Vamos, todos, rezar uma fervorosa oração em sua memória, de joelhos.

A praça se pôs toda de joelhos, como numa romaria do padre Cícero. No palanque, também de joelhos, padre Gaito, Balbino, Juracy, Lima Teixeira e João Goulart, com sua perna dura, de banda, apoiado nas costas de Balbino, como um Cristo torto. Rezaram, contritos, o Pai Nosso e a Ave-Maria inteiros.

E o padre Gaito, gordo e grande, começou o comício. Como sempre, agressivo, violento, apoplético contra os adversários. Foi falando, foi imprecando, foi ficando cada vez mais gordo, mais vermelho, já quase roxo.

***
JURACY

E padre Gaito desabou no palanque. Caiu duro. Todos gritando se havia um médico. Havia. Mas, quando chegou, era tarde. Nada tinha o que fazer. Padre Gaito estava morto, ao pé do microfone, um colapso fulminante.

Era o fim do comício. Mas Juracy era profissional. Pegou o microfone:

– Meus amigos, meus irmãos! Padre Gaito morreu! Padre Gaito está morto! E vocês são testemunhas que suas últimas palavras, na hora de entrar na eternidade, foram um apelo para esta cidade, sua cidade, a cidade da qual ele era o vigário, votasse inteira na nossa chapa. Que Deus o leve e nos ilumine!

Balbino, Juracy e Lima Teixeira ganharam. Ali e na Bahia toda. E, no ano seguinte, Jango também ganhava com Juscelino. Padre Gaito morreu por todos.

***
MENDES DE BARROS

Em 2008, Alagoas estava passando dos limites. E, evidentemente, não por culpa de seu povo, mas de seus dirigentes políticos. O governo do Estado, vazio como um fim de feira. A Assembléia Legislativa, transformada numa delegacia de maus costumes. E a violência política e pessoal se espalhando pelo Estado inteiro.

Um dos absurdos foi a invasão, depredação e roubo dos computadores do escritório de advocacia do consagrado advogado, ex-candidato do MDB a senador e durante muitos anos procurador geral da Assembléia Legislativa, Luís Gonzaga Mendes de Barros.

Foi exatamente ele quem denunciou os escândalos e crimes da Assembléia Legislativa, que na época levaram uma dezena de deputados à exclusão da mesa diretora, e muitos outros à Justiça, à polícia e à cadeia.

Pensaram amedrontar Mendes de Barros. Parece que não o conheciam.  Ele é igual á imagem que ficou de Padre Gaito, luta por todos.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

One thought on “A eleição de padre Gaito

  1. Eu fui testemunha ocular do episódio narrado por Sebastião Nery sobre a morte do padre Gaito. A cidade é Nova Sore – Ba e eu tinha 13 anos. Morava na roça, mas nesse dia a maioria das pessoas da roça foram para a cidade para bater palmas para os políticos. Eu e a minha mãe estávamos bem em frente do lugar que o padre Gaito caiu, e muito gente chorou a sua morte, apesar dele ter sido realmente um português grosseiro, rezava a missa em latim e de costa para os fiéis, mas mesmo assim as pessoas o adoravam. Até hoje as pessoas da minha geração que foram batizados por ele dizem para as novas gerações que ele foi o melhor padre que posso por aquela paróquia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *