A encíclica ‘Lumen Fidei’ e as crises de fé do homem de hoje

Leonardo Boff

A carta encíclica “Lumen Fidei” chega como sendo de autoria do papa Francisco. Mas, notoriamente, foi escrita pelo papa anterior, agora emérito, Bento XVI, que queria escrever uma trilogia sobre as virtudes teologais. Escreveu sobre a esperança e o amor, mas faltava sobre a fé, o que fez agora, com pequenos complementos do papa Francisco.

A encíclica não traz nenhuma novidade espetacular que chame a atenção da comunidade teológica, do conjunto dos fiéis ou do grande publico. É um texto de alta teologia, rebuscado no estilo e carregado de citações bíblicas e dos santos padres. Vê-se claramente a mão de Bento XVI, especialmente em discussões refinadas de difícil compreensão, manejando expressões gregas e hebraicas, com sói fazer um doutor e mestre em sala de aula.

Seguramente, não serão compreendidas pelo simples fiel. É um texto dirigido para dentro da Igreja. Fala da luz da fé para quem já se encontra dentro do mundo iluminado pela fé. Nesse sentido, é uma reflexão intrassistêmica.

No texto, só falam autoridades europeias. Não se toma em consideração o magistério das Igrejas continentais, com suas tradições, teologias, santos e testemunhos da fé. Cabe apontar esse solipsismo, pois na Europa vivem apenas 24% dos católicos; o resto se encontra fora, 62% dos quais no assim chamado Terceiro Mundo. A teologia é pluralista e não está mais concentrada na Europa, mas isso não é aproveitado.

O fio teológico que perpassa a argumentação é típico do pensamento de Joseph Ratzinger como teólogo: a preponderância do tema da verdade aparece de forma persistente. Em nome dessa verdade, se contrapõe à modernidade. Tem dificuldade em aceitar um dos temas mais caros do pensamento moderno: a autonomia do sujeito e o uso que faz da luz da razão.

Não demonstra aquela atitude tão aconselhada pelo Concílio Vaticano II, que seria, nos confrontos com as tendências culturais, filosóficas e ideológicas contemporâneas, identificar primeiramente as pepitas de verdade que nelas existem e, a partir daí, organizar o diálogo, a crítica e a complementaridade.

Para Ratzinger, o próprio amor vem submetido à verdade, sem a qual não superaria o isolamento do “eu”. Contudo, sabemos que o amor tem suas próprias razões e obedece a outra lógica, diversa, sem ser contrária àquela da verdade. O amor pode não ver claramente a realidade, mas a vê com mais profundidade. Sem o amor, só a verdade é insuficiente para alcançar a salvação. Numa linguagem pedestre, eu diria que o que salva não são prédicas verdadeiras, mas práticas efetivas.

ABERTURA PASTORAL

Na sua parte final, a atmosfera é outra. Vê-se aí a mão do papa Francisco, pois se nota uma notável abertura pastoral que se compagina mal com as partes anteriores, fortemente doutrinárias. A atitude é mais modesta: “A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite, e isso basta para o caminho”.

Mas constata-se na encíclica uma dolorosa lacuna: não aborda as crises da fé do homem de hoje, suas dúvidas, suas perguntas a que a própria fé tem dificuldades em responder: onde estava Deus no tsunami que dizimou milhares de vidas? Como ainda ter fé depois dos milhões de mortos nos campos nazistas de extermínio e nos poogroms soviéticos?

A encíclica não oferece nenhum elemento para respondermos a essas angústias. Crer é sempre crer, apesar de… A fé não elimina as angústias de um Jesus que grita na cruz. A fé tem que passar por esse inferno e transformar-se em esperança de que para tudo existe um sentido, escondido em Deus. Quando se revelará? Crer que um dia vai se revelar pertence também à substância da fé.

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13 thoughts on “A encíclica ‘Lumen Fidei’ e as crises de fé do homem de hoje

  1. Leonardo Boff. Depois da surra que levou do Cardeal Joseph Ratzinger, quando confontrado com ele para explicar a “teoria da libertação” em que Boff queria misturar, misturar mesmo, palavras e ensinamentos de Cristo com a teoria de Marx. Leonardo Boff ficou com complexo e passou a ter “alucinações”; em tudo vê o dedo intelectual de Bento XVI. Agora o quimérico Boff sonhou com uma tal Política e Fé. Tem muitos intelectuais vadios que ouvem esse blababá e chegam ao orgasmo. Mesmo sem entenderem o que significa.

  2. Desde os antigos tempos de Job que a Humanidade vem tratando do problema: Como ter Fé em Deus, que “aparentemente” permite que aconteçam coisas más a Pessoas Justas. No famoso Livro de Job, o Eterno, no final confirma que Job era Justo, dá-lhe sete vezes mais Prosperidade do que tinha antes, mas não explica o enigma. É um mistério. Precisamos resolvê-lo com a Fé, e só a Fé Salva. N. S. Jesus Cristo prometeu aos que Crerem e forem Batizados, que tendo uma vida Justa (Cumprirem a Lei), teriam no Mundo que há de Vir, Vida Eterna. Acho que nossos Padres fornecem a mais aproximada explicação do mal acontecer a Pessoas Justas, fazendo a analogia: Cumprindo a Lei e com as nossas Boas Obras, acumulamos Capital no Mundo que há de Vir, e lá ele rende Juros. Nosso objetivo é acumular através de Boas Obras, o maior Capital possível lá. Quando uma Pessoa Justa sofre aqui, recebe um grande acúmulo de Capital lá. Quando uma Pessoa Injusta vai muito bem aqui, saca imenso Capital lá de cima podendo ficar facilmente no Vermelho. Se vier a morrer no vermelho, em Deficit, não terá a Vida Eterna. Abrs.

  3. O Papa Francisco pediu (e recebeu) o livro do Leonardo Boff. Assim li no Globo e na Folha de SPaulo. Estou aguardando algum comentário dele, Papa. Mesmo que não venha nenhum, o interesse pode estar revelando o desejo por uma aproximação, ou reconciliação entre Boff e a Igreja Católica.

  4. “…A carta encíclica “Lumen Fidei” chega como sendo de autoria do papa Francisco. Mas, notoriamente, foi escrita pelo papa anterior, agora emérito, Bento XVI, que queria escrever uma trilogia sobre as virtudes teologais. Escreveu sobre a esperança e o amor, mas faltava sobre a fé, o que fez agora, com pequenos complementos do papa Francisco.”…

    Acho eu, que a Igreja tratou de substituir o papa Bento XVI, carrancudo, de linguagem erudita, complexa e longe da compreensão das massas, simplesmente por razões econômicas e estratégicas. Caso Bento XVI continuasse exercendo a função de papa e, ainda com vida longa, em mais alguns anos, o Macedo apareceria em Roma propondo compra do Vaticano. Diante de semelhantes desastres a Igreja não teve dúvidas. Faram muito ágeis e competentes na substituição de Bento XVI por Francisco, papa extremamente simpático e muito comunicativo. Parabéns.

  5. E convém não esquecer uma das máximas de Giovanni Di Pietro Di Bernardone, depois São Francisco de Assis;
    “A comunicação não está em quem a inicia, mas em quem a recebe”. Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, é um dos expoentes da Teologia (A Palavra de Deus), mas seu tipo tornava complicada a Comunicação da Mensagem, agora “nas mãos” de um verdadeiro mestre no assunto, o Papa Francisco.

  6. Não adianta tentar explicar o que só pela teoria da reencarnação se consegue explica… Elias fez decapitar 300 pastores do Bahall que eram da religião da rainha Gesabel; ela prometeu vingança e reencarnou como Herodíades; (molher de Herodes; na primeira oportunidade, cochichou no ouvido de sua filha: “peça a cabeça de João Baptista” O rei titobiou: “Mas dizem que ele é um dos profetas que se levantou do túmulo…” (que era a reencarnação de Elias) aconselhado pelos seus pares, pois a palavra do Rei não volta atrás, manda trazer na bandeja a cabeça de João Baptista… Aí se consuma a vingança, e a lei do eterno retorno, como bem o disse Jesus: “Quem pela espada ferir, pela espada fenecerá”.

  7. ‘…E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía.
    Jó 42:10
    Menos, Sr. Bortolotto, menos. “…em dobro…” não sete vezes mais….

    Sr. Naveira: a multinacional apenas trocou o seu CEO, nada mais. Pura jogada de marketing. Esse é mais ‘palatável.’ O antecessor, muito frio, teuto, antipático e vaidoso. Além de extremamente erudito , ininteligível para as massas.

  8. Ninguém crê em mais nada …
    Transformaram o mundo “nisso aí” …
    Felizes são os caras que moram no interiorrr, acordam cedo, tomam um cafezinho da manhã com um pão com manteiga, biscoitos e aquele bolo feito com muito carinho pela sua mocinha/velhinha … Depois vão pescar ali no rio … à tarde tiram uma soneca … e … ficam bem desatualizados de tudo o mais.
    E se algum intelectual bater na minha porta, direi que sou um semi-analfabeto que só leu o que leram pra mim; matérias referentes às Glórias do Flamengo. Ao acordar e deitar, orar para agradecer a Deus por mais um dia. Me sentirei feliz.

  9. A propósito do livro de Job invocado pelo segundo comentarista, na Roma antiga o Imperador Tibério, segundo nos relatou o pagão novo Flavio Josefo, se considerava uma pessoa justa, merecedora dos deuses e credora na vida eterna. Conta-nos o episódio acontecido com um famoso bufão cidadão romano, que, à passagem de um cortejo fúnebre, encarregou, em altas vozes, o defunto de dizer a Augusto, antecessor de Tibério que, ao morrer legou 40 milhões de sestércios ao povo romano, QUE A HERANÇA QUE ELE LEGARA AO POVO ROMANO AINDA NÀO HAVIA SIDO ENTREGUE. Diligente, respeitador dos deuses e da memória de seu antecessor, Tibério mandou buscar o bufão, pagou a parte que lhe tocava e mandou-o ao suplício, recomendando-lhe que contasse a verdade a Augusto.

  10. Sr. Josef:
    Parabéns pelo seu texto, e pelos excertos de altíssimo nível incluídos.
    Mas saiba, Sr. Josef, o Sr. ficará sem nenhuma resposta, pois os falsos intelectuais comunistas deste blog, são mestres, doutores, em fingirem de surdos, pois as insuficiências, inconsistências do marxismo levantadas por Mises, Aron, Scruton,Kolawowsky, Voegelin, entre outros, nunca foram respondidas por nenhum pretenso intelectual socialista. Se os maiores intelectuais de esquerda não conseguiram responder tais indagações, não seria os nogueiras, santayanas, betto-bofs da vida, que teriam argumentos para enfrentar este desafio.
    As vigarices marxistas já foram defenestradas, o que existe hoje são as viúvas de Marx tentando ressuscitar um cadáver. IMPOSSÍVEL.

  11. Mao Tse Tung dizia com muita propriedade: Quem lê muito fica burro e confuso. Teoria, teoria, teoria, tens produzido muitos teoristas, somente, só.

  12. a meu ver o mundo ainda não estava preparado para receber, compreender, entender, sentir, perceber, ver e aceitar o Papa Francisco no Século XX e início do XXI – até 2012 -, por não estar iluminado ainda. neste momento o Espírito está sendo derramado em toda carne e, até pessoas extrasistema católico e outros, estão recebendo intensa iluminação conforme nível de elevação espiritual. Por exemplo: existe a fonte de vida, sabedoria, inteligência, força e também de cura espiritual e física. mas estas duas últimas sempre existiram por meio de mediadores, ou seja, médiuns, benzedores, curandeiros e outros adjetivos que se queira dar. não dá para emitir parecer sobre isso, mas o mundo tem que regenerar, por amor ou por fenômenos não tão amorosos,todavia necessários… tsunamis, terremotos… naturais ou artificiais, se quero questionar o Projeto Haarp vinculado às chemtrails químicas…

    quem chamar pelo nome do Pai, orar, se arrepender dos maus caminhos ele ouvirá dos céus, perdoará os pecados e sarará a nossa terra… mas pelo contrário… veja em II crônicas 7 14

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