A encruzilhada de agosto e o mensalão

Vittorio Medioli

Dia 14 de agosto, mês de infaustas tradições, voltará a ter a pauta ocupada pelo STF e pelo “mensalão”. Desta vez, a Corte do Supremo terá dois estreantes, escolhidos por Dilma, pressionada por Lula e pelo PT, à procura de evitar a prisão de companheiros ilustres.

“Brandas” para alguns, “severas” segundo os condenados e seus advogados, as penas levam para a cadeia a nata do governo de Lula e de seu partido. Óbvios a preocupação e os esforços que serão empreendidos para minimizar o constrangimento.

O que muda da primeira rodada do julgamento no STF? Em si nada, mas na prática algumas peças cirurgicamente encaixadas abrem novas possibilidades. Entraram na Corte dois novos ministros de matriz petista, sendo o último o que se ofereceu “por ideologia” e convicção na defesa do terrorista italiano Cesare Battisti, condenado em seu país de origem por envolvimento em quatro bárbaros homicídios.

Mesmo que eminentes juristas considerem “ato profissional”, resta o fato de que o advogado, hoje ministro, nesse caso escolheu seu “paciente”, o mesmo que passou por três instâncias de recursos num país de plena democracia. Ainda sem ser penalista, mas constitucionalista. O ministro procurou Cesare Battisti espontaneamente. Convenceu-se de ser injusta a condenação da Justiça italiana. Afirmou que pouco recebeu de honorário e ainda o doou. A escolha ideológica de Barroso revela, data venia, do quanto pode ser capaz.

Em face do trato das responsabilidades penais de Battisti, o que fizeram os mensaleiros foi roubar banana na feira?

Pois Battisti participou na cidade de Mestre, na Itália, da “execução” de um açougueiro dentro de sua loja. Esse comerciante tinha sido condenado num tribunal dos Proletari Armati per il Comunismo, ala radical e dissidente das Brigadas Vermelhas, por ter revidado a um assalto. A tese que serviu à condenação e à morte do comerciante, relatada no processo, era “culpado de revidar ao assalto de um Proletário Armado”.

Dá para entender que Barroso tem convicções inquietantes para embasar escolhas ideológicas que revogam o veredicto de uma Corte italiana, ainda aplaudida pelo próprio Partido Comunista daquele país. Battisti ainda consta como peça fulcral do tribunal “Armado” que determinou a execução de mais um comerciante e de dois policiais escolhidos a esmo, para contestar com sangue o exército italiano.

Deram-se assim as execuções de um sargento penitenciário, pai de três filhos menores, e de um motorista. Pior: não em nome da democracia, mas na tentativa delirante de um grupelho de fanáticos de impor uma ditadura do proletariado.

O histórico de Battisti registra nada menos que a expulsão das Brigadas Vermelhas por excesso de violência inconsequente; isso, segundo parâmetros de quem sequestrou e matou o primeiro-ministro italiano e presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro, ainda hoje cultuado como um dos maiores pacifistas da Itália. Para se motivar a empreender a defesa de um executor de inocentes, que julgamento pode-se esperar dos mensaleiros?

Lula defende que a falta de financiamento público da campanha eleitoral origina caixa 2 ou, mais precisamente, mensalão, comum a todos.

MALANDRAGEM

A tese carece de densidade moral. A malandragem para se manter um partido político, como fazia Delúbio Soares, encobre o enriquecimento de políticos, que, com ou sem financiamento público, nunca mudará. O malandro não será curado pela lei e, além do financiamento do contribuinte, continuará na gatunagem geneticamente adquirida.

Na realidade dever-se-iam limitar as formas de campanha, reduzindo-as para uma simplicidade franciscana. TV e rádio sem produções, cotas de santinhos e placas nivelando o patamar etc. Mais dinheiro fará a festa dos malandros; ao se defender o financiamento público, mesmo que algumas democracias “luteranas” adotem esse sistema, com a ética e os pressupostos da classe política tupiniquim, pouco se pode esperar a não ser mais Land Rover, luxo e boa vida.

O julgamento dos recursos se dará sob intenso fogo cruzado, e a pauta nacional já está convulsionada de escândalos tucanos pela formação de um cartel de fornecedores na construção do metrô de São Paulo. Mero acaso não é.

Tucanos culpados ou não, um assalto não justifica outro, todos precisam ser julgados, sem compensação entre mazelas, sem banalização, como se dispara das trincheiras que defendem os acusados com toda a autoridade de quem engorda com repasses de verbas do governo federal até 1000% acima do critério de proporcionalidade. Imposição desrespeitada, que deveria garantir, “em tese”, a impessoalidade da aplicação de propaganda pública e a autonomia da imprensa. Hoje essas verbas são escancaradamente distribuídas com critérios partidários, pessoais, promocionais e enganosos.

Mas o clima depois dos fatos de junho de 2013, que ainda palpitam, é mais que de caras-pintadas. Pesquisas apontam que 80% da população concorda com a prioridade do combate à corrupção e que Joaquim Barbosa é o avatar do momento. Não por acaso, também bombardeado por possuir um modesto apartamento em Miami.

É possível imaginar em agosto um cerco, uma vigília na praça dos Três Poderes e uma pressão sem precedentes sobre os palácios que a rodeiam.

Apesar dos preparos para abrandar as condenações e conquistar o Judiciário, as penas deverão ser mantidas. Ainda Dilma enfrentará uma prova dura, que poderá tirar-lhe mais uma fatia importante de governabilidade.

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4 thoughts on “A encruzilhada de agosto e o mensalão

  1. Modesto apartamento?
    Não foi o que se informou.
    E ainda: Joaquim fundou uma firma para pagar
    menos imposto.
    Falsidade ideológica? Ele não condenou muitos por isto?

  2. Quais mensaleiros, Taciso?
    Os do PSDB que estão protegidos lá em Minas?
    Leia a Isto É sobre isto.
    Brasileiros decentes, honestos e não engabelados
    pela VEJA querem o castigo para os que privatizaram
    e doaram e vilipendiaram o Brasil. Os tucanos.
    E a que privatiza hoje. D. Dilma que não tem juízo.

  3. O Kleber tem toda a razão. Se realmente o articulista é honesto e condena também os atos de corrupção cometidos pelo governos do PSDB (Azeredo, Metrô de São Paulo, cartilhas “encomendadas” a editoras dos jornalões em troca de apoio editorial, precatórios comprados, etc. etc. etc.), poderia fazer um artigo a respeito dos malfeitos do partido oposicionista, também, seguindo os princípios de equidade e imparcialidade do fundador desse jornal, Hélio Fernandes. Quanto à Barbosa, além da modalidade de compra do “apartamento modesto” em Miami, claramente ilegal, há também a “compra” de um emprego bem pago para o filhinho na Globo, licitações mal explicadas, processos secretos correndo em paralelo ao chamado “mansalâo” (secretos por quê, se ele se diz tão transparente?), ofensa a jornlistas em busca de informações e a diversas outras pessoas. Infelizmente, parte da população ainda se deixa manipular pela imprensa amestrada, e vejo que alguns “jornalistas” da Tribuna vão na mesma direção, por ingenuidade ou alguma razão inconfessada.

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