À espera do grito de independência

Carlos Chagas

Certas datas são imutáveis para o calendário. Apesar da vontade de muita gente, parece coisa para daqui a 100 anos prorrogar o Carnaval. Já tentaram fazer o Natal Permanente, até com boas intenções, mas a iniciativa falhou por falta de Papais Noéis.

Também não se conseguirá antecipar a Semana Santa, não obstante as previsões um dia anunciadas por mestre Gilberto Freire, de que a Sexta-Feira da Paixão acabaria caindo na Semana Carnavalesca.

No entanto… No entanto, de vez em quando as circunstâncias exigem que se embaralhe as cartas de datas significativas. Por exemplo: a Independência do Brasil é celebrada a Sete de Setembro, mas porque não comemorá-la já, a Sete de Março? Essa, pelo menos, é a tendência registrada em setores muito próximos da presidente Dilma Rousseff. Porque, se esperar até setembro para dar o seu grito de independência, a chefe do governo se arrependerá diante do risco de perder não só a sua chefia, mas o governo. Claro que em termos figurados.

Nada de supor crises institucionais ou situações inusitadas, daquelas que se esgotaram com o advento da Nova República. Mesmo assim, onde irão parar as coisas, com a presidente prisioneira dos partidos políticos, obrigada a respeitar capitanias hereditárias no ministério, que em grande parte não é o dela? Hoje mesmo, Dilma defronta-se com dois vespeiros. PR e PDT sutilmente ameaçam criar-lhe dificuldades no Congresso caso seus caciques não venham a indicar os ministros dos Transportes e do Trabalho.

Alfredo Nascimento e Carlos Lupi, mesmo como ex-ministros defenestrados, estimulam reações capazes de transformar-se em rebeliões em suas bancadas. Os republicanos não engoliram até hoje a ascensão de Paulo Passos, e os antigos brizolistas querem alguém da copa e cozinha para substituir o interino ainda em exercício.

Como demonstração de que a presidente sofre os efeitos desse jogo de pressões, registre-se a reverência que duas semanas atrás precisou fazer ao PR, convidando o senador Blairo Maggi para ministro. Enfraqueceu seu preferido, Paulo Passos, mesmo diante da discutível estratégia de haver convidado por saber de ante-mão da recusa.

No caso do PDT, as preferências do palácio do Planalto divergem das tendências de sua cúpula, por conta disso permanecendo o ministério do Trabalho praticamente acéfalo. Pois bem: todo o bate-cabeça poderia ser pulverizado na hipótese de Dilma decidir-se pelo brado da independência logo no começo de março.

Se pagasse para ver, veria como são frágeis as ameaças de seus aliados. Boa parte das bancadas desse dois partidos refugaria instruções de seus chefes para torpedear projetos do governo. Terão mais a perder, além, é claro, de algum percentual de parlamentares infensos a chantagens, em suas bancadas.

O riacho do Ipiranga não passa por Brasília, mas um grito às margens do lago Paranoá ecoaria longe.

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DEU CERTO ATÉ AGORA

Com o ex-presidente Fernando Henrique à frente, os tucanos paulistas tentam pressionar Aécio Neves para mudar de postura e começar intensa guerrilha contra o governo do PT. Querem o pré-candidato de lança e espada em riste, mais de dois anos antes da eleição presidencial. Aécio tem consciência de que sua estratégia política deu certo até agora, não havendo porque ceder a pressões e atender a conselhos precipitados. De presidente da Câmara a duas vezes governador de Minas, senador e responsável pela eleição do sucessor no palácio da Liberdade, tornou-se a óbvia indicação de seu partido sem precisar sair batendo indiscriminadamente nos adversários do PT.

Por que mudaria agora, quando tudo vai dando certo? Sua postura é de conciliação, tanto quanto de firmeza. Em 2014 talvez precise aumentar o nível de suas críticas, ainda que se incline pela apresentação de um projeto alternativo de governo.

Claro que o senador mineiro não deve nem pode descurar-se de seus companheiros paulistas. Eles constituem a base do ninho tucano, tornando-se necessário manter seu apoio. A possível candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo merece toda sua atenção. Caso eleito, o ex-governador dificilmente disputará a presidência da República, mas se tornará um grande eleitor, daqueles que é preciso cultivar.

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