A estiagem no Sul do Brasil e o sistema Aquífero Guarani

Francisco Vieira

Este ano de 2012 se iniciou com a falta de água causando estragos na Região Sul. Mais de 500 municípios, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná, tiveram que enfrentar situação de emergência e cerca de três milhões de pessoas foram afetadas, diretamente, pela falta de chuva desde o ano passado, comprometendo a produção agrícola e o abastecimento nos três Estados, com quebra na produção de feijão, milho, soja, arroz e leite. Só no Rio Grande do Sul já se contabilizaram perdas de mais de R$ 2,2 bilhões devido à estiagem dos últimos meses.

Mas, ao contrário do que tenta pregar os governos estaduais e federal, NÃO FALTA ÁGUA NO SUL DO PAÍS! Pelo contrário, ela é uma das regiões do mundo onde existe mais água, pois está localizada sobre o Sistema Aquífero Guarani.

Este Sistema é formado, principalmente, pelas areias endurecidas (chamadas de arenitos) de dois antigos desertos que existiam nessa região da América do Sul, há mais de 170 milhões de anos atrás (portanto, bem antes da revolução industrial, da invenção da motosserra e do desenvolvimento da agricultura!), parcialmente sobrepostos, formados por dunas de areia semelhantes as que vemos hoje no deserto do Saara.

Esse Sistema abrange parte dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, além de parte do Uruguai, Argentina e Paraguai, ocupando uma área total de 1.185.500 Km2, com espessura máxima de 800 metros nas regiões mais profundas e volume de água estocado na ordem de 37 mil km3, segundo alguns estudiosos, suficiente para abastecer de água a população brasileira durante 2.500 anos, já que existe a recarga natural de 160 km3, realizada pela infiltração da água na borda leste da Bacia do Paraná, onde o arenito é visível e tem uma espessura média de 200 metros!

As reservas explotáveis do sistema correspondem parte da recarga natural (média plurianual) e representa o potencial renovável de água que circula no Aquífero que pode ser usado sem que se corra o risco de vê-lo secar ou diminuir de nível. Estima-se esse valor de uso em 40 km3 por ano.

Quanto à qualidade, as águas possuem potabilidade bastante adequada e valores variáveis de salinidade em quase toda a sua extensão. São classificadas como bicarbonatadas sódicas e cálcio-magnesianas próximo das áreas de recarga e bicarbonatadas sódicas a cloro-sulfatadas sódicas nas porções mais interiores do sistema, com a ocorrência de valores atípicos (tóxicos) de fluoreto em alguns pontos dos Estados de São Paulo e Paraná. A temperatura da água também varia, com o aumento da temperatura em direção à região mais profunda, chegando a 50oC e 65oC.

O curioso é que essa reserva de água fica quase toda protegida da contaminação da superfície por uma dura camada de lava vulcânica que foi derramada na sua parte superior lá pelos tempos em que esta parte do continente estava rachando para se separar da África. Essa lava virou uma pedra escura chamada basalto, muito comum na região sul e sudeste.

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DESENVOLVIMENTO

Um importante salto social e econômico poderia ser alcançado com o uso dessas águas, principalmente pelo fato de estas poderem ser consumidas, em geral, sem necessidade de serem previamente tratadas, tendo em vista os mecanismos naturais de filtração e que ocorrem no subsolo.

Mas, graças ao imobilismo dos nossos governantes e à ideia que a população atual deve passar sede hoje para que a geração que virá daqui a 2.600 anos possa beber água, os aspectos relativos ao desenvolvimento e ao uso das funções do aquífero são ainda insignificantes, mantendo populações na MISÉRIA. Dentre estes recursos, destacam-se o seu uso na pecuária, na agricultura, com a irrigação das áreas em desertificação, e das águas aquecidas em balneários e fazendas turísticas.

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E NOS ESTADOS UNIDOS?

Mas, e nos Estados Unidos? Lá 20% de toda a água usada pela população são de origem subterrânea e um dos mais importantes aquíferos do país é o High Plains/Ogallala, que cobre 450 mil km2 dos estados de Nebraska, Colorado, Kansas, Dakota do Sul, Wyoming e Novo Mexico e, também as regiões do Pandhandle de Oklahoma e Texas e é responsável, sozinho, por aproximadamente 30% da água subterrânea usada na irrigação dos Estados Unidos, iniciada em 1800, quando os pioneiros perfuraram os primeiros poços nesse aquífero, e é feita hoje através de 170 mil poços.

A irrigação com a água do aquífero High Plains/Ogallala é hoje responsável, em grande parte, pela RIQUEZA e alta produtividade das fazendas e granjas daquela região dos Estados Unidos, que inclui uma percentagem bem significativa da produção nacional de milho, sorgo, algodão e trigo, e metade do gado de corte do país! Atualmente, 18 milhões de acres são irrigados com a água bombeada do aquífero, já que o rendimento das terras irrigadas é o triplo do rendimento das terras sem irrigação. Parece que por lá a indústria da seca não prosperou!

Ou não precisamos de água ou os governantes querem manter o país na miséria e os brasileiros no cabresto das cestas básicas, carros-pipas e dos empréstimos bancários. De que adianta termos as maiores jazidas de minerais caros do mundo se não podemos explorá-las? Para a maioria absoluta dos moradores do sul do país tanto faz que o Sistema Aquífero Guarani seja formado por água, por lama ou por pedra, já que permanece intocado e esperando que apareça algum governante de boa vontade.

Fonte: Diversos livros de geologia. Podem ocorrer pequenas variações nos números, dependendo do pesquisador ou da época em que os estudos foram efetuados.

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