A estúpida cassação de Josué de Castro, um tema para Dilma Rousseff

Pedro do Coutto

No momento em que a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei criando a Comissão da Verdade, percorrendo a Livraria Travessa, do Leblon, encontro um livro da professora Ana Maria de Castro sobre a extraordinária importância de seu pai, Josué de Castro, deputado, cientista, diplomata, intelectual, autor do clássico Geografia da Fome que escreveu em 1946. Na realidade, procurava esta obra, mas, esgotada, adquiri Fome, Um Tema Proibido, cuja autora é exatamente a titular de Sociologia Aplicada da UFRJ.

Josué foi uma figura importantíssima, cujas obras alcançaram repercussão mundial. Entretanto foi estupidamente cassado em 1964, pela ditadura militar, governo Castelo Branco. Intelectuais e artistas ficaram em silêncio.Silêncio que se prolongou até 1983, passagem do décimo aniversário de sua morte. Reeditado em 2003 pela Recorde, constitui uma iniciativa essencial à luz da história. Volta-se para iluminar a verdade, por coincidência quando a presidente Dilma Roussef adota como um dos rumos de seu governo o trabalho da comissão de alto nível criada para revelá-la.

Não só em torno da memória de Josué de Castro como de tantos outros injustiçados pela estupidez e brutalidade do arbítrio. Assinando sua cassação, o general Castelo Branco praticou um atentado contra a cultura. Em 2008 transcorreu o centenário de nascimento do pernambucano que denunciou a fome como um dos maiores males do século vinte. Ela permanece no século 21. Isso, 1978 an0s depois da crucificação de Cristo e, portanto, de sua mensagem eterna muito difundida, mas pouco praticada. Tanto assim que há pouco tempo um estudo divulgado pela ONU assinalou que, no mundo, diariamente um bilhão e 500 milhões de seres humanos vão dormir com a fome denunciada por Josué de Castro. Simplesmente porque não têm recursos para comprar alimentos.

De cada dez pessoas no mundo, duas estão prisioneiras do drama que atravessa os séculos. E se mantém. Josué tinha razão. Os fatos comprovam sua tese e destacam sua memória. Cassado por quê? Mais do que a resposta, a impossibilidade dela é o melhor argumento para encontrar a verdade. Chegou o momento da comissão criada por Dilma Rousseff agir firmemente num exemplo tão concreto quanto emblemático. Foi constituída para isso. Não se trata, no caso, de partir ou não em busca de indenizações financeiras, secundário no caso. Trata-se de reabilitar a própria memória nacional.

Num dos próximos programas semanais, na CNT, ao meio dia dos domingos, o deputado Gerson Bergher e a vereadora Teresa Bergher vão focalizar o tema da fome, exatamente aquele que foi proibido pelo movimento revolucionário de 64. As injustiças se acumularam, sobretudo, aspecto mais grave, com o deputado Milton Campos no Ministério da Justiça. Milton Campos, que entrou na história como jurista, na verdade era um fantoche. Coonestou a cassação de Josué de Castro. A de Sérgio Magalhães, a de Juscelino, a de Franklin de Oliveira. Recusou-se entretanto a assinar a de Tenório Cavalcanti, porque recebeu seu apoio quando candidato em 60 a vice-presidente da República e foi derrotado por João Goulart.

O general Castelo Branco, aliás, especializou-se em absurdos. Lembro que, em 65, cassou Sebastião Paes de Almeida, Cesar Prieto, Doutel de Andrade e Helio Fernandes, apenas porque seriam eleitos para a Câmara Federal. O sistema militar não podia perder. Castelo Branco perdeu a consciência.

Mas falei em Josué de Castro. Chegou a hora de se fazer justiça à memória do intelectual traduzido para vários países. Não descreveu a fome apenas em português. A que produziu em outras línguas, como em francês e italiano, nós só conhecemos agora por seu último e eterno legado: de Josué de Castro, por Anna Maria de Castro. Belo trabalho.

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