A ética da guerra e a ética na guerra


João Batista Libânio

Cabe falar de ética da guerra? Toda guerra já não inclui violação ética? Não vale ainda a clássica tese da guerra justa que setores religiosos dos Estados Unidos invocaram para as incursões norte-americanas no Irã, no Iraque e outras? E até o Catecismo da Igreja Católica parece aboná-la? No entanto, João Paulo II, em cujo pontificado ele foi publicado, no fim do papado mostrava sinais de discordar de tal posição, adotando que toda guerra, de si, já contraria a ética.
E no caso de invasão do próprio país? Defender-se armadamente contraria a ética? Não seria, portanto, aceitar um caso da validez da ética da guerra? Façamos uma distinção. Opor-se à invasão armada de fora e terminar quando os invasores já não estão não merece o nome de guerra. Seria guerra se o país invadido, depois de expulsar os intrusos, movesse guerra contra eles. Então, sim, seria guerra. Durante a luta contra os invasores, já não se trata da ética da guerra, mas da ética na guerra. Para os invadidos entra em questão com que ética têm direito de defender-se e não propriamente de mover guerra contra os invasores, mesmo depois de expulsos.

E se no interior de um país um governo usa arma química contra o povo, como se diz acontecer na Síria, outros países têm direito de mover-lhe guerra, invadi-lo ou bombardeá-lo? Casa tal intervenção com a ética da guerra? Tal questão se levantou nos nossos dias. O papa Francisco pronunciou-se corajosamente contra. Mais: convidou os cristãos e as pessoas de boa vontade do mundo inteiro para fazer o rito religioso de jejum e oração, em gesto simbólico de repúdio aos EUA e à França.

VIOLÊNCIA CONTRA VIOLÊNCIA

Por mais violento que tenha sido o ato de uso de arma química, não se justifica nenhuma intervenção de fora que seja da mesma natureza violenta. A experiência humana, que nos leva a elaborar os princípios éticos, nos ensina que violência gera mais violência. E que a hipótese de querer sanar a vida interna de um país pela via da ingerência armada se volta contra o mesmo povo e termina provocando-lhe sofrimentos ainda maiores.

Mais: os analistas têm direito de suspeitar que, por trás de várias de tais ameaças, se encontrem ações ainda mais radicalmente opostas à ética. Existem o lobby da indústria armamentista, o orgulho nacional de querer manter a liderança econômica e militar mundial, interesses eleitoreiros, justificativas estritamente militares. E sem falar de outras razões elitistas horrivelmente antiéticas de pôr em risco vidas que se desprezam, de cidadãos de segunda classe do país atingido.

O clamor mundial contra as repetidas tentativas de manejar guerras localizadas e periódicas percebe-lhes o horror antiético. Nada parece hoje justificar uma guerra e, portanto, não existe ética da guerra. No máximo quando se sofre uma guerra, então nela surgem exigências éticas para precisamente não prolongar a guerra e resolver o problema o menos violentamente possível. Os recursos midiáticos, que têm sido usados não raramente para justificar atuações antiéticas, abrem possibilidades para o contrário. Por seu meio, abre-se espaço para criar clima de reconciliação e de desfazimento de forças guerrilheiras. (transcrito de O Tempo)

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