A ética, o Papa e as lições de Jesus

Carlos Chagas

Ética é uma ciência, ou seja, conjunto de conhecimentos ordenados, mesmo conflitantes. Parte da filosofia, que estuda a utilização que o indivíduo faz de sua liberdade para atingir seu fim último. Sem liberdade, assim, não pode haver Ética, ainda que para uns ela busque a felicidade geral, ou seja, o bem comum, e para outros a realização individual. Estes baseiam a Ética na tentativa de cada um sentir-se bem consigo mesmo, aqueles no culto ao egoísmo, isto é, sou Ético com o meu vizinho para obrigá-lo a ser Ético comigo. Há os que sustentam ser Ético aquele que vence e se impõe aos semelhantes.

Mil correntes filosóficas dedicam-se a explicar a Ética, desde os pré-socráticos até Noam Chomski, não tendo a Humanidade chegado a uma única conclusão. Felizmente. Basta concluir que a Ética existe como valor independente dos Éticos e que se distingue da Moral. Esta é periférica, varia no tempo e no espaço. Aquela é universal e permanente.

Por que se repetem esses conceitos preliminares? Porque cada vez mais a Ética vem sendo abandonada e confundida com a religião e com a norma jurídica. Somos Éticos, ou deveríamos ser, não para conquistar o reino dos céus e evitar o inferno. Sequer para não ir parar na cadeia ou para gozar dos benefícios da lei. Nunca para enriquecer e dominar o companheiro do lado, muito menos para adquirir fama, riqueza ou poder.

Passando da teoria à prática: Sua Santidade, Francisco I, repete com insistência a necessidade de pedirmos perdão a Deus. Centraliza sua mensagem na magnanimidade do Padre Eterno, que a todos perdoa através dos séculos, até por conta do que fizeram Adão e Eva, do Pecado Original, coisa que nada teve a ver com a gente.

Tenta o novo Papa fazer da Humanidade um conjunto de humildes pecadores sempre obrigados a pedir perdão. Ora, a humildade muitas vezes confunde-se com a hipocrisia. Quem pede perdão e se arrepende não raro fica infeliz duas vezes, revelando-se duplamente fraco. Não se fala, aqui, do ladrão, do assassino, do corrupto e do traficante, porque esses, com frequência, jamais sentem remorso. A referência vai para o cidadão comum, aquele que recebe a risonha definição do novo Papa de constituir-se num permanente pecador a pedir perdão em todos os instantes de sua vida.

Convenhamos, trata-se da diminuição do ser humano, que, se não deve cultivar a arrogância e a prepotência, também não precisa considerar-se permanentemente em débito com o Criador. No passado, essa postura servia para que as massas se diminuíssem diante dos aristocratas. Hoje, conduz à sua submissão diante dos patrões. Em nome do perdão que Francisco I recomenda devemos permanentemente pedir a Deus, mas que no dia-a-dia confunde-se com a sujeição e ao domínio dos mais ricos e poderosos. Não parece ter sido essa lição de Jesus, muito pelo contrário.

O grande objetivo da religião não é conter os fiéis pelo medo, mas permitir-lhes viver e agir com liberdade, sem transformá-los em condenados à danação eterna caso não vivam permanentemente pedindo perdão.

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